Leio no Baguete que a School of Life, de Londres, lançou um projeto de biblioterapia.
Por um preço - não exatamente barato -, o sujeito ganha a indicação de leituras que vão curá-lo de suas inquietações psicológicas, quiçá físicas.
Não há como negar que os livros têm efeitos benéficos sobre qualquer leitor, seja ele doente ou não.
Mas eu fico pensando: tudo tem que ter uma finalidade terapêutica? Tudo tem que ter um benefício extra além da própria fruição do prazer que a atividade proporciona? A leitura - no caso - não se basta?
Sou praticante de Yôga Antigo e há alguns anos a prática era confundida com terapia. Se você dissesse que fazia ou estudava yôga, imediatamente alguém perguntava do que você estava doente. Felizmente, isso já mudou quase que completamente.
Acerca das necessidades terapêuticas do mundo, tomo emprestada as palavras do Dr. Patch Adams - o verdadeiro, não o do filme:
Não concordo com “rir é o melhor remédio”. (…) Infelizmente, os meios de comunicação, sendo como são, muito antes de me conhecer, imaginam que rir seja o melhor remédio. Então, quando escrevem o artigo, põem essa frase porque o fazem, na realidade, sem pensar. Também quero corrigir a idéia de que rir seja uma terapia. Também nunca penso em música como terapia, nem em arte, nem em dança. Nunca precisam da palavra “terapia”, que é pequena para ajudar. A arte não precisa de ajuda da palavra “terapia”. É a cultura humana. Não fazemos terapia de cultura. Se estamos saudáveis, fazemos cultura.
Achei particularmente notável essa declaração ter vindo do médico, que graças a um filme, ficou conhecido como o Doutor do Riso: o riso não deve ser terapia.
Nada precisa ser terapia.
No caso dos livros, existem muitos que exigem perfeita saúde de seus leitores.

12 comentários até agora ↓
1 Mi Müller // 1 10 2008 às 16:33
Báh Alessandro ontem eu twittei esse artigo e estava escrevendo um post sobre isso, mas tu falou tudo que eu queria dizer… fiquei abismada com os nomes por trás do projeto, pessoas que pela sua formação intelectual deveriam ter este discernimento que tu teves, de que o livro por si só basta, ele é por si só terapia, mas não do modo convencional, dirigido e clínico!
Adorei esta citação de Patch Adams, que por sinal não combina em nada com a caricatura que fizeram dele no filme!
estrelinhas coloridas pra ti….
2 André Sala // 2 10 2008 às 10:46
Só fico pensando quem seria esse “personal livreitor” e que tipo de indicações ele daria. Sobre classificar algumas leituras como sendo “terapêuticas”, imagino ser complicado. O único desses que me ocorre agora deve ser “Pollyanna - ELEANOR H. PORTER”.
3 ana lucia // 2 10 2008 às 22:27
Me lembro dessa entrevista, pena que não dá para embedar. Gostei muito do Adams, de uma lucidez … Bjs
4 Anny // 3 10 2008 às 16:25
Pois é, leitura é uma viagem para dentro e para fora ao mesmo tempo.
Acho que estão procurando utilidade. Como fazem com a arte. Sabe como é?
5 Alessandro Martins // 5 10 2008 às 16:08
Mi,
o discernimento que eles tiveram é o de que ganhariam uma grana preta
;-)
… mas se tem quem pague, que mal tem?
Abraços do Ale.
6 Alessandro Martins // 5 10 2008 às 16:11
Sala,
uma boa forma de usar um livro como terapia é colocá-lo sobre a cabeça e andar. Ajuda a postura, dizem.
Abraços!
7 Alessandro Martins // 5 10 2008 às 16:12
Ana,
também fiquei surpreso. Acho que ele nem gosta muito da imagem com que o retrataram no filme….
Abraços!
8 Alessandro Martins // 5 10 2008 às 16:12
Anny,
de fato. A melhor arte é a inútil. Pelo menos a aparentemente inútil…
Abraços!
9 Sam Shiraishi // 7 10 2008 às 8:28
Ale, vi há algum tempo excertos no youtube de uma entrevista do Patch no Roda Viva (acho) e lembro deste comentário dele sobre a forma como a mídia manipula as frases e sobre sua verdadeira visão.
Interessante, gostei da abordagem.
(pena que os links ainda são imensos, não dá pra twittar)
10 Alessandro Martins // 7 10 2008 às 9:04
Oi, Sam…
o http://www.tinyurl.com não resolve o problema dos links grandes?
Beijos do Ale!
11 Kaká // 9 10 2008 às 13:38
Penso que simplismente deixou de ser arte e virou negócio, como em vários setores - há o profissional (vocação, amor pelo que faz) e o comerciante.
è uma questão de escolha do leitor.
12 Alessandro Martins // 11 10 2008 às 18:41
Kaká,
bem… considerando que o artista também tem que ser pago, em algum momento a arte precisa virar negócio… :-). Em maior ou menor grau…
Abraços do Ale…
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