Os escritores não precisam mais reclamar das editoras; talvez nem precisem delas…

18 8 2008 por Alessandro Martins · 5 comentários

Os escritores até há alguns anos estavam presos ao livro. Não havia outra forma de chegar ao público leitor a não ser através deles, os livros.

Apesar de esse objeto ser querido e duradouro como formato - vindo desde a antigüidade, antes mesmo da imprensa -, traz de arrasto com ele algumas figuras que hoje são, aparentemente, bastante incômodas aos escritores: as editoras, as gráficas e as livrarias.

Cheguei, através de uma citação do blog Exato Acidente, de Toni Monti, ao texto de Ademir Assunção, sobre o mercado dos livros no Brasil, no site Cronópios.

Eis um trecho:

E escritores e poetas são tratados cada vez mais como trabalhadores altamente desqualificados. São cada vez menos respeitados. Na indústria do livro, todos ganham (do gráfico ao editor), menos o escritor, menos o poeta. Essa é que a verdade. Pergunte a um escritor e a um poeta quais são seus direitos. Nenhum.

Acredito que está na hora de os escritores e poetas deixarem de mimimi.

O primeiro passo é se livrar do fetiche que todos têm pelo objeto livro. O livro é ótimo como formato, todos nós o adoramos, mas ele, infelizmente, torna o artista - que deveria ter algum grau de liberdade - dependente das figuras dos editores, das gráficas e das livrarias.

Eu não sou exatamente um escritor - embora tenha um blog com meus escritos mais literários - e tenho certeza de que sou mais lido do que muitos poetas e autores com um ou dois livros publicados, muitas vezes à força das detestáveis leis de incentivo.

E detalhe: sou remunerado pelo que faço.

Ao deixar a fixação pelo objeto livro, os escritores obtém diversas vantagens:

  • se livram da dependência das editoras, livrarias e gráficas
  • não precisam se curvar a ninguém e podem escrever sobre o que querem. Se tiver um patrocinador que possivelmente não aprova o seu trabalho - normalmente temas como violência e sexo -, basta desenvolver um outro site ou blog paralelo.
  • chegam diretamente ao leitor, sem intermediários
  • o leitor que chega até o escritor procura exatamente o que ele escreveu: o poder de diversificação e segmentação da internet é insuperável
  • leva seus escritos a qualquer parte do planeta de forma barata

E muito mais:

Os meios para fazer isso estão disponíveis a todos nós gratuitamente:

O problema, a partir da independência de publicação, é a remuneração. O artista - que às vezes é conhecido pela dificuldade em lidar com assuntos práticos - terá que aprender cada vez mais a trabalhar sozinho com essa questão. Para começo de história, creio que não é mais o livro em si, o texto, que passará a ser vendido no futuro, mas coisas ligadas a ele, como espaço publicitário. De certo modo já é assim. É o meu caso, por exemplo.

Alguns dirão que o seu trabalho não serve para a internet. Eu direi que, se o artista precisa se expressar, vai usar dos meios necessários para isso, adequando-se para que consiga passar a mensagem que deseja passar. Artistas precisam, por definição, ser criativos, maleáveis, esguios.

Gosto muito do filme Os Contos Proibidos do Marquês de Sade. Não sei quanto daquilo corresponde à realidade. Mas, preso em um hospício, privado de papel e tinta, o escritor soluciona o problema: escreve com fezes e sangue nos lençóis e nas paredes de seu quarto.

Está na hora de os escritores - os de verdade - pararem de reclamar e partirem para a ação. Se estão sem papel e tinta, olhem em volta e encontrem a solução.

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    Tags: mercado editorial

    5 comentários até agora ↓

    • 1 Alexandre // 19 8 2008 às 8:44

      Concordo com você, porém o que sempre aconteceu é defender os direitos do capitalismo, a editora abril cheia de comerciais rende muito mais que uma Caros Amigos, e como sempre os poetas e escritores não pode se dar ao luxo de ter somente isso como profissão…

    • 2 Alessandro Martins // 19 8 2008 às 9:20

      Alexandre,

      o sustento e a dignidade financeira do escritor devem vir de algum lugar. Prefiro a versão sem intermediários. Ademais, não tenho nada contra o capitalismo.

      Abraços do Alessandro.

    • 3 tony monti // 19 8 2008 às 16:11

      Olá, Alessandro.

      Concordo em parte com o que você diz. a utilização pelos escritores dos novos suportes para os textos, oferecidos pelas novas tecnologias, faz com que se tenha, em alguns casos, independência do pepel, das gráficas, das editoras, das distribuidoras. Mas não acho ainda substituto para o papel em alguns casos. Não conheço, por exemplo, modo satisfatório de ler um romance a não ser virando as páginas.

      Deixando as soluções técnicas e partindo para a discussão política (preciso ainda calibrar o uso dessa palavra - “política”, para não assustar), não me parece razoável que cada escritor saia procurando individualmente por soluções. Preferiria algo diferente de “cada um por si”, algo além das soluções privadas. Imagino, ainda sem boas respostas, tentativas públicas coletivas que remunerem o trabalho da escrita, o que teria que enfrentar o poder das editoras.

      A internet é interessante, carrega em si uma centelha de democratização, de universalização do acesso. Por outro lado, a internet é o caos. Quem é que te ajuda a encontrar o que interessa? O google, o uol, a FolhaOnlne?

      abraco,
      Tony

    • 4 Alessandro Martins // 19 8 2008 às 16:20

      Oi, Tony,

      tenho uma certa preguiça e trauma de investidas coletivas. Sou um individualista por natureza. Mas, para quem gosta, é um prato cheio e uma possibilidade a ser encarada. Já quanto a como se achar no caos da web, talvez essa seja uma nova competência que os escritores precisem desenvolver: saber o que o público - o público específico para quem ele quer falar - está fazendo para se encontrar nesse caos. E, sabendo, falar na freqüência correta.

      Abraços.

    • 5 Aprendiz de Escritor» Arquivo do Blog » Links Potencialmente Interessantes 1 // 25 9 2008 às 0:25

      [...] Os escritores não precisam mais reclamar das editoras; talvez nem precisem delas… [...]

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