A arte serve para quê?

4 7 2008 por Alessandro Martins
· 5 comentários

A arte, em um primeiro momento, serve para nada.

No sentido de utilidade primária, ela não tem nenhuma.

  • Este texto foi escrito motivado pela percepção do Paulo Polzonoff Jr de que, para muitas pessoas, a literatura deveria ter um sentido utilitarista. Leia o texto do Polzonoff

Você não vai conseguir abrir uma garrafa de cerveja com um quadro de Chagall, por exemplo. Ou domesticar um cachorro com A Noite Transfigurada, de Schönberg. Ou construir uma ponte com A Ilíada, de Homero.

Se somos imediatistas, a arte é inútil. De certa maneira, é bom que seja assim. Todas as vezes em que a arte tende a um sentido mais utilitarista ela se empobrece.

Ao contrário, quando as utilidades tendem à arte, elas se enriquecem. É o caso do design.

Mas para compreender e explicar a você a função da arte, tomo emprestadas as palavras de um de meus livros preferidos, Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud.

Como o livro é em quadrinhos, colocarei entre colchetes [ ] as partes que precisarei descrever:

Eu vejo a arte como qualquer atividade humana que não se desenvolve a partir dos dois instintos básicos de nossa espécie: sobrevivência e reprodução. [No quadro, um homem das cavernas corre atrás de uma mulher das cavernas que, assustada, foge]

Exemplo: este é um homem pré-histórico caçando uma mulher pré-histórica com uma única coisa em mente: reprodução.

Esse instinto é tão forte que governa todos os seus movimentos. Nenhum passo é desperdiçado na busca de sua meta.

A mulher - temendo por sua sobrevivência - consegue se esconder. Privado de sua meta, o homem pára, indeciso.

De repente…! [aqui um tigre de dentes-de-sabre salta da floresta e assusta o homem]

Agora, todos os seus pensamentos e ações se concentram no outro instinto humano vital: sobrevivência.

Preso à beira de um penhasco, sua mente só pode conceber um caminho para a sobrevivência [o homem está encurralado entre o tigre e um despenhadeiro].

Ele o pega [no último segundo o homem se agarra a um galho que está sob sua cabeça. O tigre pula, mas acaba caindo no penhasco].

E sobrevive [o homem escapa e o tigre cai].

Seu próximo passo deve ser procurar comida (sobrevivência) ou talvez outra mulher (reprodução).

Contudo, em vez disso… [o homem olha para baixo onde deve estar o tigre morto ou ferido e faz uma careta]

… arte.

É um fato feliz da existência humana que nós simplesmente não podemos passar todas as horas em que estamos acordados comendo e fazendo sexo! Não importa com que ímpeto busquemos nossas metas, vão surgir ocasiões em que simplesmente não vamos ter nada pra fazer!

O que pode parecer uma tribo de selvagens entediados ali embaixo, na verdade, é uma colônia artística em potencial [o autor observa um bando de homems e mulheres das cavernas].

Vê essa velha com a vareta? Olhe as linhas que ela desenha na terra. Hoje está como dor de estômago. Seus riscos são apertados e angulares. Ontem ela se sentia melhor. Os traços eram abertos e curvos.

Aquele homem cria um ritmo simples com duas pedras. Ele não sabe por quê, mas o som o agrada.

Perto dali, um garoto chuta cascalhos, esmurrando o ar com o punho. Hoje ele perdeu uma briga e tenta afastar sua frustração…

… enquanto, aqui, uma garotinha canta uma canção infantil.

Por ser independente de nossos instintos evolutivos, a arte é a nossa maneira de afirmarmos nossa identidade como indivíduos e sair dos papéis pequenos que a natureza nos atribui.

Claro que a “mãe natureza” é tão brilhante que até essas coisas têm utilidade do ponto de vista evolucionário.

Três na verdade.

  • Primeiro, exercitam as mentes e corpos que não estão recebendo estímulos externos. Esta função seria desempenhada em séculos posteriores por esportes e jogos.
  • Segundo, estravasam desequilíbrios emocionais ajudando na sobrevivência mental das raças. A arte, como auto-expressão; o artista como herói, pra muitos, o maior objetivo.
  • Terceiro, e talvez mais importante pra nossa sobrevivência como espécie, essas atividades casuais conduzem… a grandes descobertas! [aqui um homem das cavernas, que casualmente esfregava dois gravetos, cria fogo]. A arte como descoberta, como a busca da verdade, como exploração, a alma de grande parte da arte moderna e a base da linguagem, ciência e filosofia.

A arte - e, nela, incluída a literatura - está entre nós para dizer aquilo de que precisamos e não temos, aquilo que no momento seria totalmente útil mas que ainda não conhecemos - pode ser um sentimento ou uma máquina ou as duas coisas ao mesmo tempo -, aquilo que serve para tudo mas de que, agora, podemos e precisamos prescindir. Algo de que necessitaríamos neste instante mas que está além de nosso alcance.

Arte serve para nada agora mas fala sobre algo que serviria para tudo amanhã. Expressa uma ânsia de algo que nem sabemos ainda o que é. Uma ânsia que só é sentida, neste planeta, por aqueles que se dizem e se assumem como humanos.

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    Tags: Arte

    5 comentários até agora ↓

    • 1 ana lucia // 4 7 2008 às 10:12

      Eu tinha uma colega na faculdade, que brigava comigo porque eu pegava romances na biblioteca para ler. Na cabeça dela aquilo era uma perda de tempo. A sociedade é mesmo imediatista, a ordem é ter bens materiais, e criar meios para poder consumir mais e mais. Acho isso tão pobre… a arte serve justamente para enriquecer a vida da gente. Abraço.

    • 2 Sergio Grigoletto // 4 7 2008 às 12:38

      Alê!

      Quisera eu ter essa sua consciência responsável com as pessoas que lêem blogues e produzir textos assim: inteligentes e redondos na escrita.
      Espero que, pelo menos, os que andam me lendo entendam que mais que falo, como se estivesse no boteco… aquelas conversas fiadas que não são concluídas.
      Essa sua postagem é primorosa. E a bola levantada pelo Polzonoff, “de prima”.
      E veio a me recordar um velho advogado amigo meu que disse certa vez, quando eu comentava sobre o que andava fazendo:
      “Ah, os poetas… Onde um poeta passou ou passará, os cientistas só muito tempos depois, para lá chegar”
      Ele quis dizer com isso que a arte, é mãe da criação. Qualquer arte.
      E, criação não de coisas, mas de consciências. E a consciência é quem constrói coisas, depois. Portanto, a arte está na gênese do Todo.
      As pessoas nunca se deram conta de um mundo relacionado com a Paz, antes de “Imagine”, apenas para lembrar um exemplo que me ocorre.
      Ah… Interagir com essa sua postagem, não cabe numa caixa de comentários. Acho que nem na internet toda.

      Abração!

    • 3 Simone // 4 7 2008 às 18:34

      Gosto muito do “Desvendando o quadrinhos”.
      A literatura “serve” para dizer com palavras o que as palavras não dizem. É por isso que um contrato (não vamos nem dizer “uma reportagem”) a princípio não é literatura - não é arte. Se bem que, se soubermos ler nas entrelinhas do tal contrato, veríamos todas as prevenções anti-mesquinharia e/ou terceiras intenções escondidas ali. (Palavra de uma ex-tradutora técnica.)

    • 4 Anny // 5 7 2008 às 13:26

      ” Uma ânsia que só é sentida, neste planeta, por aqueles que se dizem e se assumem como humanos.” Resumo perfeito, Alessandro.
      Já reparei que ao estudar e me envolver com a arte, tenho uma percepção melhor de mim mesma e do outro é esta a sua importância, não utilidade…

    • 5 Joca Faria // 30 7 2008 às 12:08

      Oi vou usar seu texto numa palestra citando a fonte um abraço

      Joca Faria

      Gaia

      Literatura, filosofia e arte

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