Eu lamento muito que meu artigo sobre o Ódio à Literatura tenha sido, em algum momento, mal compreendido quanto ao conceito de liberdade.
Embora eu tenha enfatizado os pontos que considero essenciais, esforçando-me para que equívocos não acontecessem, penso ser importante uma revisão para que a idéia fique bem clara.
Eu escrevi que as pessoas têm a liberdade de odiar o que bem entenderem. Literatura ou beterrabas.
Porém, não escrevi que considerava isso - o ódio - bom em si.
Temos a seguinte estrutura:
- liberdade -> escolhas -> conseqüências -> responsabilidade
Quanto mais consciente um individuo é do alcance de suas ações - no tempo e no encadeamento da rede humana da qual ele é um nó -, mais livre e mais responsável ele se torna.
Só para citar um exemplo dado por Fernando Savater, podemos dizer que uma formiga não tem escolha - é determinada a lutar contra o besouro que invadiu o formigueiro - e Heitor, sim, pois poderia ter fugido quando viu Aquiles se aproximar dos portões de Tróia. Heitor é um ser ético - humano portanto - pois teve a liberdade de escolher e a usou.
Assim, se não há liberdade, não há escolhas. As conseqüências não têm ligações com minhas escolhas - pois não as fiz. E, portanto, não há responsabilidade. Nessa hipótese, eu abri mão - ou alguém me fez abrir mão -, de minha liberdade. Eu tenho uma menor responsabilidade sobre aquilo que me torno e sobre aquilo que aqueles a minha volta se tornam. A responsabilidade é do governo, nas ditaduras ou mesmo nas democracias, do rei, nas monarquias, ou de Deus, na teocracia.
Caim teve liberdade - individualmente - de matar Abel? Teve. Tanto teve que a tomou. Porém, sofreu as conseqüências tão conhecidas daqueles familiarizados com a mitologia bíblica.
Do mesmo modo, a certeza da não atribuição de responsabilidade - digamos, impunidade - permite que haja tanta corrupção nos meios políticos.
Se falta uma das variáveis da equação, não teremos Ética como resultado.
Eu tenho liberdade de odiar a literatura - e não entrarei no mérito se eu já a conheço ou não, seja lá o que cabe nessa vasta palavra. Mas odiá-la têm conseqüências? Certamente.
Ignorância é uma delas. Individualmente, ela é a mãe de uma vida nas trevas. Coletivamente, a mãe do terror. E ignorância é apenas uma das conseqüências possíveis. Não me alongarei a enumerá-las.
Então, mais uma vez, as pessoas são livres para odiar a literatura. Sim. Mas isso não quer dizer que tantos abraçarem essa possibilidade não seja preocupante e danoso.
Finalmente, mais para o fim do texto anterior, eu chamei a atenção para alguns dos paradoxos que encontrei no fato de existir uma comunidade como aquela no Orkut.
- Toda literatura fala de liberdade e de seus dilemas éticos
- De certo modo, a comunidade Eu Odeio Literatura é literatura, por expressar - assim como qualquer obra literária - algum tipo de anseio humano diante de uma escolha
- Sem a literatura, a comunidade que a odeia não seria possível
- A sua existência expressa, em si, a liberdade de ela existir. Mas, ao existir, renega essa liberdade
- A existência da possibilidade de se odiar a literatura torna ética a escolha de amá-la. Pense: e se fosse obrigatório amar a literatura? Você é a formiga ou Heitor?
Porém o mais marcante paradoxo é o seguinte: quanto mais ignorante um homem é, menos capaz de fazer escolhas e ser livre ele é. Considerando que a literatura é um dos melhores caminhos para se conhecer o outro, para se conhecer o mundo e até a si mesmo, quem a odeia se torna menos capaz de fazer escolhas, menos capaz de ser responsável - logo, mais inclinado a ser um simples marionete - e infinitamente menos capaz de um comportamento ético.
Quem odeia a literatura é muito mais suscetível a que forças exteriores lhe escolham aquilo mais que deve odiar.

5 comentários até agora ↓
1 ana cláudia bessa // 1 7 2008 às 10:32
Alessandro, adorei a conclusão do seu texto. Não poderia ser melhor, ou pior, se considerarmos suas consequências.
Aproveito para divulgar uma idéia que tive ao rever os livros que temos em casa e nunca mais leremos.
Se gostar da idéia, nos ajude a divulgar.
Abraços, Ana Cláudia.
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O Futuro do Presente
Mães por um mundo melhor! Um blog dedicado ao futuro que vamos deixar para nossos filhos. A qualidade da educação que daremos e a que receberão na escola para serem pessoas do bem e para o bem; a qualidade do ar,da água e dos alimentos; a preservação do meio ambiente e dos bens não-renováveis; o combate à violência e à impunidade; a atuação política daqueles que elegemos; a reciclagem do lixo. Por um futuro melhor para nosso presente. Pois lá estarão nossos filhos!
2 Evandro Cesar // 1 7 2008 às 13:06
Resumindo de forma bem irônica: é muito mais fácil conduzir um país de formigas :)
3 Sofia // 1 7 2008 às 16:31
Muito boa a conclusão do texto. É lógico que a pessoa tem a liberdade de odiar literatura, mas essa liberdade será tanto menor quanto maior for sua ignorância. Um círculo vicioso.
4 Marco Carvalho // 2 7 2008 às 10:31
Hahaha
Nossa que quiprocó… A verdade é que muito incomoda a quem está preso a liberdade do outro.
Não acho nada d+ do dentista não saber de João Ubaldo Ribeiro, me parece que a Suzana no outro post vê como “obrigação” gostar de pelo menos UM tipo de literatura.
Ué! + isso gostam mesmo, até mesmo os da comunidade “Odeiam Literatura”. Afinal, como o Ale disse, orkut também é uma forma de literatura.
O q talvez aconteça é a idolatria a livros, pq vc “TEM” que gostar de livros… e talvez isso é que forçe a barra… pq todos já fomos jovens e todos renegamos vários procedimentos adotados por nossos pais pela velha e sabida intransigência juvenil… e daí? deixem os moleques lerem na internet, desgastarem a língua, renovarem a literatura… afinal, arte sem contestação de costumes vigentes não é arte… e sem arte, bye bye literatura.
OBS: na medida do possível usei o internetês só para gerar mais um furduncio! hahahaha
5 Michelle Müller // 3 7 2008 às 10:34
E eu só posso assinar embaixo! Adorei a conclusão do texto!
estrelinhas coloridas pra ti…
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