Sobre odiar a literatura

27 6 2008 por Alessandro Martins
· 14 comentários

O meu amigo Paulo escreveu um texto sobre a comunidade Eu Odeio Literatura, do Orkut.

E o Paulo está certo.

As pessoas têm direito de não gostar de literatura. Melhor ainda. As pessoas têm essa liberdade.

Interessante é que o discurso por trás de toda boa literatura, quase sempre, é justamente o da liberdade.

A liberdade de dois jovens que se amam cometerem um engano e se envenenarem por se amar - em Romeu e Julieta -, a liberdade de um fidalgo que sai em busca de aventuras como cavalheiro - em Dom Quixote -, a liberdade de enfrentar ou não um processo misterioso - em O Processo (sim, K tinha essa escolha) -, a liberdade de Mersault matar um árabe porque o sol refletido em uma faca o incomodava - em O Estrangeiro -, e até mesmo a liberdade de ser ou não um bruxo e estudar em Hogwarts - na série Harry Potter. Boa ou não, em toda a literatura ainda que as escolhas sejam feitas pelos autores, todos os personagens passam pelo dilema da liberdade. E, depois, pelas conseqüências dessa liberdade, pelas escolhas que devem fazer e, acima de tudo, por assumir ou não as responsabilidades por essas conseqüências. Ser ou não ser, como você já deve ter adivinhado.

A literatura tem sob a agitação da pele - na superfície, onde se vê as ondas, onde acontecem os diálogos e onde se nasce e se morre - um esqueleto ético. E, assim, o osso da liberdade se liga ao osso das conseqüências que se liga ao osso da responsabilidade.

Mesmo quando, na literatura, não há essa liberdade e o homem é um marionete do destino, determinado por algo fora dele a cumprir algo, como na mais remota origem grega - Édipo Rei, por exemplo -, é isso que se discute: o quanto podemos ser livres, o que fazer com isso e como assumir tal fato.

Porém, a liberdade, ao tentarmos defini-la, não conseguimos abarcá-la. Como aqueles seres lendários que habitam o canto dos olhos: quando vamos olhá-los já mudaram de lugar. É como se ela não se deixasse fotografar. Como se só fosse possível entendê-la em movimento e se movesse tão rápido que só víssemos um borrão.

Uma comunidade como essa no Orkut, por incrível que pareça, é um desses movimentos da liberdade. Mesmo porque eu acredito que muitos dos que ali estão não odeiam a literatura dos livros - talvez nem a conheçam -, mas odeiam a literatura da escola. Como quem odeia Física, Química ou Biologia.

E, assim como a literatura dos livros, que afinal não se lê só nos livros, fala de liberdade - inclusive da liberdade de ser odiada -, aquela comunidade, sob certos aspectos também é literatura.

Sim é. Como pinturas rupestres modernas, como estas minhas linhas que ora você permite aparecer em sua tela e lê com maior ou menor interesse, registro mais ou menos importante de nossa passagem pela vida ou pela História.

E ela, a tal comunidade, traz esse registro: de seres humanos, dotados de responsabilidades irrevogáveis, no exercício de sua liberdade de odiar a literatura.

Mais uma vez, a liberdade deixa o seu borrão em nossa vista.

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    Tags: Ética

    14 comentários até agora ↓

    • 1 Suzana // 27 6 2008 às 11:45

      Alessandro, concordo e não concordo com o Paulo, principalmente porque me parece que comparar matrizes e desenho geométrico com literatura é passar a régua sem antes ver a que altura vai se dar o nivelamento.

      Eu trabalho com literatura, agora principalmente infantil. E concordo que as escolas (públicas e privadas, todas elas) trabalham mal a literatura. Ainda estamos no século passado, apresentando ao aluno de 13 anos “Dom Casmurro” - livro, aliás, que odiei até ter maturidade suficiente para ler as nuances por trás dos personagens.

      Se eu odiar matrizes vou ser ignorante em matemática, mas isso não me fará ter um vocabulário de jogo da memória (3 anos ou +) nem cometer erros de português básicos e crassos ao escrever um bilhete. Se eu não gostar de cálculo integral posso nunca passar para a faculdade de engenharia (se é que eles usam isso lá), mas o desprezo pelos números não limitará meus filhos, que seguirão o exemplo dado em casa, a um mundo sem o conhecimento do que outros antes de mim pensaram, fizeram e porque vivemos hoje o que vivemos.

      Ler não deveria JAMAIS ser obrigatório. O amor aos livros (sentimento esse que hoje se torna tão antiquado) deveria ser passado às gerações mais novas como o amor à internet. Ambos são repositórios de conhecimento, sendo que os livros, em primeira instância, e independentemente do assunto que trata, é onde o idioma se desenvolve e se perpetua.

      Não concordo que “literatura é para poucos”, e não digo isso num contexto “cultura é para todos”. Paulo Coelho é literatura. Machado de Assis é literatura. O que é preciso é ensinar corretamente. Hoje, diz-se “não gosto” ANTES DE LER. Ou Thalita Rebouças, que escreve para adolescentes, garotas a partir de 13 anos, não venderia um livro a cada 7 minutos no país. Das experiências que eu fiz (listas de indicações de autores contemporâneos, de acordo com a faixa etária e o universo em que o adolescente que jamais leu vive) posso dizer que TODOS os cerca de 20 adolescentes tornaram-se leitores costumazes. Começaram com contemporâneos nacionais, desenvolveram aí seu próprio gosto, mergulharam na literatura estrangeira e, daí, para os referenciais de seus autores preferidos, caindo por fim nos clássicos.

      Do mesmo jeito que ensinamos uma criança a mexer num computador, selecionando os sites em que ela pode navegar de acordo com sua idade e seu nível de linguagem, a educação passa por mostrar que, ao contrário da matemática, da física ou da química, literatura há para todos os gostos, todas as idades, todos os mundos - você só tem que saber a maneira certa de introduzir o significado e a importância da literatura na vida de cada um.

    • 2 paulo polzonoff jr » Blog Archive » Abre as asas sobre nós! // 27 6 2008 às 12:01

      [...] pura e completamente… liberdade. Comente por e-mail Menos [...]

    • 3 Evandro Cesar // 27 6 2008 às 12:35

      A Suzana disse tudo! “a educação passa por mostrar que, ao contrário da matemática, da física ou da química, literatura há para todos os gostos”
      Mesmo porque temos livros nessas áreas também e é preciso ter o hábito e habilidade da leitura para compreender…
      Concordo que é da escolha de cada um ler ou não, aliás isso nem precisaria ser discutido. O que talvez possa estar em evidência ao analisarmos esse problema é o modelo educacional, quando eu tinha 12 anos tive que ler “A Moreninha” de tanto ódio nem me recordo o nome do autor agora :)

    • 4 MarcosVP // 27 6 2008 às 14:27

      Olha, eu defendo todo tipo de liberdade, inclusive a do ódio a qualquer coisa. Contudo, como disse o Polzonoff e parafraseando-o ainda, penso que o ódio, assim como a literatura, a matemática e a posse de carteiras de motorista não é para todo mundo. E, cá para nós, quem chega a odiar, odiar mesmo alguma coisa, não está dando ouvidos à razão mais que à emoção. E emoções também não deviam ser para todos. Podem ser explosivas. Há que se ter juízo até para perder o juízo. Abraço.

    • 5 ana lucia // 27 6 2008 às 17:23

      Eu também não concordo que literatura seja para poucos, só não existe o hábito. Os pais querem que os filhos estudem e não necessariamente que eles leiam. Estou me referindo ao “povão”. A Suzana está certa: as pessoas recusam o que não conhecem. Abraaaço…

    • 6 Alessandro Martins // 27 6 2008 às 17:43

      Suzana, Evandro, Ana Lucia: Como eu ia dizendo, tudo deve se basear em liberdade.

      Quanto ao “literatura para poucos”, não abordei esse tema… não pensei ainda sobre esse assunto. Não considerei que esse fosse o ponto principal do texto do Paulo. Chamou-me mais a atenção a abordagem da liberdade.

      Abraços a todos.

    • 7 ana lucia // 27 6 2008 às 17:47

      Certo, acho que me concentrei mais no comments da Suzana. É verdade, cada um deve ser livre para fazer o que quiser mas seria legal conhecer o que se está recusando, né? Parece “menino do buchão”, quando a gente pergunta se quer comer algo ele recusa mas nem sabe o que é. Bjim.

    • 8 Alessandro Martins // 27 6 2008 às 17:49

      Marcos,

      eu entendo que literatura, de fato, não é para todos. Não precisa ser. Embora possa ser. Entre precisar ser e poder ser há uma diferença gigante. Portanto fiquemos assim: se a literatura - ou o ódio a ela - pode ser para todos, embora ela - ou ele - não precise ser, mantemos a liberdade na categoria das invariáveis dessa equação. Se ela não puder ser assim mantida, que se aplique as proibições a botinadas - é fascimo isso? não sei - e, estamos feitos, não mais será mais necessário pensarmos em ética, pois as escolhas já foram feitas e não precisaremos fazê-las por nós mesmos.

      Dar ouvido à emoção mais que a razão, afinal, também é uma escolha, tem conseqüências e pode causar ferimentos em terceiros dar cadeia, inclusive. Mas, mais uma vez, com isso entramos no terreno da liberdade, conseqüência e responsabilidade.

      Abraços do Alessandro.

    • 9 Djabal // 28 6 2008 às 4:34

      Literatura é para quem quer. A liberdade foi bem definida aí em cima. Não gostar de algo é o mais pleno exercício dela. Gostar também. Odiar algo, amar algo, sentir algo por alguma coisa é o caminho do homem. A razão virá mais tarde para tentar dar uma explicação razoável para isso tudo. A razão sempre aparece, e o seu destino é permanecer. Espero.

    • 10 Anny // 28 6 2008 às 11:05

      Eta que discusssão boa . Bem, dá vondade de ecrever muito e depois pensando bem, para que?
      A pessoa que deveria ler odeia literatura…
      Logo: serviço inútil. Não vou perder meu tempo.
      Aliás, o que estou fazendo aqui mesmo? Fazendo um comentário em um dos meus blogs preferidos. Ponto final.

    • 11 Suzana // 28 6 2008 às 18:07

      Alessandro;

      Eu não discuto a liberdade de gostar ou não de literatura. Eu tenho duas filhas pequenas e sempre disse a elas, quando me perguntam se podem isso ou aquilo - de comer batata frita a chutar um amiguinho chato: “Poder você pode tudo; mas não deve, porque tem que saber que algo de bom ou de ruim vira a partir do que você fizer.”

      O que questiono não é a liberdade de esses jovens criarem uma comunidade “Eu odeio literatura”. O que eu questiono é “Por que eles criaram”. E a resposta não é “Porque eles quiseram”. A resposta é, com certeza, “Porque a eles jamais foi dada a oportunidade de conhecer a literatura como algo prazeiroso.”

      Preocupa-me sobremaneira minha dentista, aos 28 anos, fazer cara de paisagem quando falo de Médici e Geisel. Não ter jamais ouvido falar de Machado de Assis ou achar que João Ubaldo Ribeiro é um chef baiano.

      Para mim, comunidades (cheias de membros) como essas são apenas reflexo do tamanho do buraco onde se sustenta a educação de milhões de crianças. Porque se pensamos apenas na liberdade de eles criarem uma comunidade assim caímos na vala comum do “Odeio educação física” e “Odeio acordar cedo”. Deixar de fazer exercícios pode deixar o aluno gordo, e acordar tarde o fará ficar retido na porta da escola. Mas odiar literatura o fará, grosso modo, massacrar a língua portuguesa quando for um advogado, um médico, um engenheiro.

      Não questiono a liberdade de eles criarem uma comunidade dessas - eles podem abrir uma tecendo loas à cropofagia. O que eu discorro aqui são os motivos - as causas que nasceram há 15 anos, quando a maior parte daqueles jovens começou a ser alfabetizada. Dizer que “literatura não é para todos” parece-me arrogante, elitista e, no fim das contas, discriminatório. A literatura é, sim, para todos - e você tem total liberdade de não gostar dela, DEPOIS de conhecê-la corretamente.
      Abs

      Suzana

    • 12 A literatura é um gueto « Universo Tangente // 28 6 2008 às 18:38

      [...] Alessandro já escreveu sobre o tema, e nem vale acrescentar muita coisa além do que ele e o Paulo já abordaram, aliás, de forma [...]

    • 13 Mais sobre o ódio à literatura | Livros e afins // 1 7 2008 às 6:35

      [...] 7 2008 por Alessandro Martins · Sem comentários Eu lamento muito que meu artigo sobre o Ódio à Literatura tenha sido, em algum momento, mal compreendido quanto ao conceito de [...]

    • 14 Carina - Inglês // 2 7 2008 às 17:02

      ótima análise sobre ensino e eudcação, sou professora de
      inglês
      e muito prazeiroso econtrar discussões assim na internet

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