Evolucionismo aplicado à cultura, as York Sisters e a lista dos 500 melhores livros

25 6 2008 por Alessandro Martins
· 2 comentários

Na cultura, a teoria evolucionista também pode ser aplicada - ainda que a teoria evolucionista, dizem, tenha seus furos.

Nem sempre aquela característica de determinada obra pode ser a mais adequada para determinado momento, determinando então o seu desaparecimento. O que determinada época acha belo, a seguinte pode achar repugnante.

Que dizer de séculos atrás quando era comum que povos inteiros invadissem regiões de cultura diversa da sua?

Leia esta curiosa passagem do Curso de Literatura Inglesa, de Jorge Luis Borges (compre o livro):

(…) Yorkminster, a catedral de York, é a maior catedral da Europa. Tem umas janelas chamadas “the York sisters”, as “irmãs de York”. Essas janelas não foram destruídas pelos soldados de Cromwell, porque são janelas de vidro de diversas cores, primando o amarelo. E os desenhos são o que hoje chamaríamos de abstratos, ou seja, não há figuras. E não foram destruídos pelos soldados de Cromwell - que destruíam tudo o que fosse imagem, porque as viam como ídolos. As “York sisters, precursoras da arte abstrata, não; elas se salvaram, e é uma sorte, porque realmente são lindíssimas.

Clique na imagem para ver em tamanho maior.

Bonitas mesmo. Tomara que, um dia, eu as conheça ao vivo.

Certamente, todos os vitrais com imagens sucumbiram à sanha do invasor. Talvez muitos deles tivessem muito maior valor artístico, mas não tinham a característica, o DNA - se você me permite ser mais genético - que garantiu a sua sobrevivência.

Fico imaginando, em uma época em que não havia tanta pirotecnia, o efeito causado nos fiéis pela luz solar atravessando o vidro multicolorido dessas janelas.

E, imaginando isso, pensei também em uma lista de melhores livros de todos os tempos, recentemente publicada.

Notei que diversos livros da lista - feita por votação na internet (veja a lista completa) - são nossos contemporâneos.

Creio que há uma tendência humana de acreditar que a sua época é a melhor. E esse comportamento, acaba por contaminar o campo artístico. Mas creio também que há muita pretensão em crer que se vive no melhor dos tempos.

Foi o mesmo sentimento que determinou, por exemplo, a escolha de Maradona como melhor jogador de futebol, deixando Pelé em segundo, em uma votação por internet há alguns anos.

Boa parte dos livros eleitos entre esses 500 supostamente melhores ainda não passou por sua invasão de Cromwell particular.

Imagine: Dom Quixote, para citar apenas um exemplo, está em 283°.

O que diria Schopenhauer, que afirmava que não se deve ler livros publicados há menos de 50 anos?

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    Elenco de Cronistas Modernos O Dobro de Cinco Germinal

    Clique nos livros para comprar. Quero ver mais indicações.

    Tags: O prazer de ler

    2 comentários até agora ↓

    • 1 Suzana // 25 6 2008 às 15:24

      Alessandro, posso dizer que sou uma pessoa afortunada, porque numa viagem (aquela da vida) que fiz à Europa, num dia nublado em Paris, soube que o sol havia reaparecido por entre as nuvens quando a luz atravessou a grande rosácea de Notre Dame.

      O efeito é simplesmente divino - como nos filmes, quando Deus fala aos homens. Quem desenhou esses vitrais sabia o que estava fazendo - e, mesmo não sendo religiosa ouso dizer que eles literalmente usaram seu conhecimento para exprimir a glória de Deus, dentro do sentimento medieval de elevar o homem ao céu. Conseguiram. Não há fogos de artifício ou tecnologia moderna que reproduza o efeito. Nem de perto.

    • 2 Suzana // 26 6 2008 às 8:34

      E comentando a lista de livros: pode-se notar que “Orgulho e preconceito” é um sucesso recente do cinema. Mas mesmo assim me causou espanto achar as irmãs Brontë entre os dez autores.

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