Kennings, as metáforas dos poetas germânicos

13 6 2008 por Alessandro Martins · 11 comentários

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  • Continuo a ler o Curso de Literatura Inglesa, de Jorge Luis Borges. Antes das palestras em que ele fala sobre o poema épico Beowulf, ele precisa fazer uma contextualização da obra.

    Entre outras coisas ele explica o que são as kennings, metáforas cristalizadas e descritivas usadas pelos poetas germânicos da época, antes do ano 700.

    Aqui é importante dizer que os poetas germânicos não usavam o recurso da rima em seus versos. Descobriu-se que em cada verso há três palavras cuja primeira sílaba é tônica, e que eram aliteradas.

    Porque, como os poetas falavam sempre das mesmas coisas, tocavam sempre os mesmos temas - isto é: a lança, o rei, a espada, a terra, o sol -, e essas palavras não começavam com a mesma letra tiveram de procurar um recurso.

    Quer dizer, eles precisaram encontrar meios de dizer as mesmas coisas, mas garantindo que elas começassem com a mesma letra, para assim ter uma aliteração, a repetição do som na sílaba tônica.

    Assim, na poesia, que era somente épica, para nomear aas coisas cujos nomes não começavam com a mesma letra, formaram-se palavras compostas. Formações desse tipo são absolutamente possíveis e usuais nas línguas germânicas. Depois eles se deram conta de que essas palavras compostas podiam perfeitamente ser utilizadas como metáforas. Foi assim que começaram a chamar o mar de “caminho da baleia”, “caminho das velas” ou “banho do peixe”; chamavam a nau de “potro do mar”, ou “cervo do mar”, ou “javali das ondas”, sempre usando nomes de animais; (…). Essas metáforas, algumas das quais são lindas, foram utilizadas como lugares-comuns. Todos as usavam e todos as entendiam.

    Na Inglaterra, por fim, as kennings caíram em desuso com o passar dos anos.

    Mas, em compensação, na Escandinávia, foram levadas ao último grau de desenvolvimento: fizeram-se metáforas das metáforas, mediante combinações sucessivas. Assim, se nau era “cavalo do mar” e mar era “campo da gaivota”, então nau seria “o cavalo do campo da gaivota”. Essa era uma metáfora, por assim dizer, de primeiro grau.

    Lembre-se: pense nisso como uma única palavra.

    Como o escudo era a “a lua dos piratas” - os escudos eram redondos, feitos de madeira - e a lança era a “serpente do escudo”, já que os destruía, então a lança seria a “serpente da lua dos piratas”.

    Evoluindo assim, chegou-se a uma poesia complicadíssima, obscura. (…) tanto que é necessário fazer uma verdadeira adivinha para reconhecê-las em seu sentido real. Mas o mesmo não ocorreu na Inglaterra. As metáforas se mantiveram em primeiro grau, sem ir mais adiante.

    Uma das coisas interessantes é que o livro Curso de Literatura Inglesa é tão somente a transcrição das falas de Borges. Foram 25 aulas gravadas, em 1966, na Universidade de Buenos Aires. As fitas foram perdidas. Provavelmente foram usadas para gravar outro curso.

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    11 comentários até agora ↓

    • 1 fred // 13 6 2008 às 10:27

      wow! … já sabia da existencia das kennings mas não sabia que chegavam a esse ponto.

      Deve ser dificilimo interpretar um poema desse, mesmo sendo familiarizado.

    • 2 Diego // 13 6 2008 às 13:17

      Reparou que o curso não tem Shakespeare? Borges provavelmente tinha uma matéria só pro bardo. Imagine, deve ser um desbunde. Tomara que encontrem fitas!

    • 3 ana lucia // 13 6 2008 às 21:03

      Acho que vou pedir de aniversário. Abraço.

    • 4 Alessandro Martins // 14 6 2008 às 9:46

      Resposta para ana lucia: se você gosta de borges ou de literatura inglesa não vai se arrepender. se gosta dos dois, melhor ainda.

    • 5 Alessandro Martins // 14 6 2008 às 9:47

      Resposta para ana lucia: acho que muitos de nós, ana lucia… beijos!

    • 6 Alessandro Martins // 14 6 2008 às 9:49

      Resposta para Diego: talvez ele não gostasse tanto assim de Shakespeare… sei lá… fiquei curioso.

    • 7 Alessandro Martins // 14 6 2008 às 9:51

      Resposta para fred: devem ser verdadeiras charadas. Acho que muitos sentidos escapam ao tradutor e ao leitor…

    • 8 Daniela // 14 6 2008 às 11:33

      Sabe que eu estou querendo ler esse livro faz tempo, mas sempre tem algo da faculdade que é pra ontem. Nessas férias quero dar uma adiantada nas leituras que estão na fila (e são tantas, e só aumenta).

    • 9 Lista de Kennings | Livros e afins // 20 6 2008 às 11:11

      [...] 6 2008 por Alessandro Martins · Sem comentários Em post anterior, eu falei sobre as kennings, as metáforas cristalizadas da antiga poesia [...]

    • 10 ana lucia // 30 7 2008 às 15:48

      Alessandro não deu para ganhar o Borges de aniversário. Ganhei Conspiração de Nuvens da Lygia Fagundes Telles, minha autora favorita na adolescência. Me deu vontade de ler os livros dela novamente. Bjs.

    • 11 O plural de kenning é kenningar | Livros e afins // 25 10 2008 às 10:57

      [...] Kennings, as metáforas dos poetas germânicos [...]

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