O homem é o único animal que faz dinâmica de grupo

2 6 2008 por Alessandro Martins · 8 comentários

Tenho minhas suspeitas de que as dinâmicas de grupo são atividades incorporadas - talvez criadas - pelos departamentos de Recursos Humanos (muitas aspas em Humanos) para selecionar, dentre os muitos candidatos, quais os mais submissos.

A melhor história sobre dinâmicas de grupo que conheço foi vivida e contada por meu amigo Paulo Polzonoff Jr. Claro que vou acabar distorcendo um pouco, mas a essência será a mesma. Se quiserem a versão da fonte, perguntem a ele.

Na época, ele era um jovem e idealista estudante de jornalismo. Dizem que chegou a usar boina. Mas acho que quando isso aconteceu ele já não usava boina.

Mandou seu currículo para um desses programas de treinamento de grandes jornais que exploram a boa vontade de jovens e idealistas estudantes de jornalismo. O negócio tinha o elegante nome de programa de trainnees ou coisa assim.

Depois de ter seu currículo selecionado, Paulo foi chamado a fazer as provas e testes e exames que fariam a peneira, selecionando quem aprenderia a profissão durante alguns meses naquele órgão de imprensa de abrangência nacional.

Chama-se órgão de imprensa pois não se pode dar as costas para ele. De outra forma ele pode fazer coisas impublicáveis com você. Que, ainda assim, se publica.

Paulo fez todos os testes até que o grupo do qual se faria a seleção ficou bem reduzido. Finalmente, para descobrir quem voltaria para o interior e quem ficaria na capital, desfrutando dos ensinamentos dos banbanbans da imprensa, seria feita uma dinâmica de grupo.

Não lembro exatamente o que era, mas era algo como encher balões vermelhos, empurrá-los pela sala com o nariz e dar três pulinhos. Isso tudo envolvendo trabaho em equipe, sinergia e outras relevâncias inventadas por algum psicólogo que entende tudo de balões vermelhos.

Paulo já estava pronto com seu balãozinho murcho na mão, prestes a levá-lo aos lábios e estufá-lo a plenos pulmões.

Neste instante, pensou.

Tentou imaginar Nelson Rodrigues, Mário Filho, Paulo Francis, Rubem Braga, Joel Silveira, Zé Hamilton Ribeiro e até mesmo H.L. Mencken - sei lá quem mais que já passou por uma redação e que teve alguma importância - enchendo um balão vermelho e empurrando-o com o nariz ao longo de uma sala.

Não conseguiu.

Talvez ele não tivesse a mesma importância desses em que pensou, mas se quisesse ter um dia, não deveria se submeter ao tratamento humilhante.

Foi aí que desistiu da chance.

Entregou o balãozinho ao psicólogo, explicou seus motivos e foi embora.

Duas semanas depois, uma carta.

Era o tal jornal.

A vaga era dele.

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    8 comentários até agora ↓

    • 1 Diego // 2 6 2008 às 9:18

      Dinâmicas são inexplicavelmente inexplicáveis. Sempre quis perguntar para alguma psicóloga de RH se elas servem mesmo para algo.

      Mas deu boas gargalhadas imaginando o Paulo empurrando a bexiga com o nariz… hahaha

    • 2 Régis // 2 6 2008 às 16:20

      Essa foi ótima!!

    • 3 ana lucia // 2 6 2008 às 17:19

      O grande lance em Administração agora é a gestão de pessoas, cheia de teorias e termos técnicos. A área de pessoal para mim pode ser chamada de Recursos Desumanos, porque nenhuma empresa tem amor por seus funcionários, somos pura estatística. Abraço.

    • 4 Anny // 2 6 2008 às 17:47

      O bom disso tudo foi contar uma história dessa e dar bastante risada. Valeu para alguma coisa: começar bem a semana, certo?

    • 5 Regina Martins // 2 6 2008 às 18:23

      Talvez o diferencial estava em não ser como os outros:PENSAR, meu caro, esse lindo verbo. “Penso, logo existo”- Descartes. O simples pode ser completo, verdadeiro verbo divino.
      Não se postar o rídiculo demonstrou um ser pensante, consciente de si e das coisas ao redor.
      Ser pensante - como todos os animais. Exceto alguns/muitos homens.

    • 6 Barbara // 3 6 2008 às 9:53

      Uma vez participei de uma seleção daquelas cujo anúncio no jornal não é muito claro sobre qual a função a ser exercida. Após diversos testes, durante os quais cheguei à conclusão de que estava me candidatando para ser vendedora de cursos de inglês (ugh), fomos organizados em pequenos grupos, e um a um levados à uma sala para a entrevista coletiva.
      Em determinado momento, durante o interminável questionamento e a total ausência de explicação, um dos candidatos levantou a mão e disse que queria saber exatamente qual a função a que estava se candidatando. O entrevistador deu uma enrolada e disse que ele poderia ir. Depois que ele saiu, o entrevistador disse: “Não queremos pessoas que questionam demais.”
      Nessa hora, eu levantei e saí.

    • 7 Simone // 5 6 2008 às 10:47

      Ah, e a estúpida tendência das pessoas a querer “ser mais esperto que os outros” e a “ganhar” deles? Acaba todo mundo respondendo a mesma coisa. Por exemplo, um amigo meu foi numa dinâmica em que quase todos responderam que, “se fossem um animal”, seriam “cachorro, porque é um animal amigo, fiel e companheiro”. É isso que as pessoas estão procurando? Um puxa-saco sem amor-próprio, que não questiona nada?
      Prefiro ser frila.

    • 8 Alessandro Martins // 7 6 2008 às 13:31

      @ana lucia: … quanto maior a empresa, maior a ênfase na estatística. Mas as pequenas não fogem muito disso não…

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