A imagem do planeta suportado por um ser descomunal que, por sua vez, é suportado por outro ser descomunal e daí por diante é recorrente. Todo mundo já ouviu falar de algo assim e todas as culturas têm algo do gênero.
Um dos mitos que responde a essa alegoria das causas e e dos efeitos e alude a uma causa primeira é Bahamut.
Lemos em O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges:
Deus criou a Terra, mas a Terra não tinha sustentáculo e assim por baixo da Terra criou um anjo. Mas o anjo não tinha sustentáculo e assim por baixo dos pés do anjo criou um penhasco de rubi. Mas o penhasco não tinha sustentáculo e assim por baixo do penhasco criou um touro com quatro mil olhos, orelhas, ventas, bocas, línguas e pés. Mas o touro não tinha sustentáculo e assim por baixo dos pés do touro criou um peixe chamado Bahamut, e por baixo do peixe pôs a água, e por baixo da água pôs escuridão, e a ciência humana não vê além desse ponto.
O touro anterior ao peixe chama-se Kujata, ao qual Borges dedica um capítulo:
De acordo com um mito islâmico, Kujata é um grande touro dotado de quatro mil olhos, quatro mil orelhas, quatro mil narizes, quatro mil bocas, quatro mil línguas e quatro mil pés. Para locomover-se de um olho a outro ou de uma orelha a outra, bastam quinhentos anos.
O incomensurável e o imponderável sempre fascinaram Borges e a humanidade em geral.
E vocês ainda não viram o tamanho do anzol.



5 comentários até agora ↓
1 Evandro Cesar // 9 5 2008 às 12:58
Puxa é ótimo ler esses textos novamente, outro dia reuni meus livros do Borges para reler, ainda não comecei… Então você fala de Bahamut e eu descobri (só agora!) porque me interessei tanto por mitologia, foi culpa do danado do Borges :)
2 Matias // 9 5 2008 às 18:25
Que livro ótimo. Preciso roubar um.
3 Vica // 9 5 2008 às 22:23
Borges, sempre maravilhoso. Eu adoro lendas e mitologia.
4 Anny // 10 5 2008 às 9:06
Então começo o dia comentando no seu blog. Um começo muito bom. Texto sobre Borges que ainda não li. E que você termina com: ” E vocês ainda não viram o tamanho do anzol.”
Muito boa suas colocações.
Bjos
5 _Maga // 11 5 2008 às 20:54
Adoro Borges e esse seu jeito de falar o imponderável, absurdo, com a placidez dos sábios.
(e já que minha cidade está na moda) acho é de Pato Branco que vem esse meu amor pelo absurdo… rs
beijos
ps.: na verdade vem da literatura, mas isso é sério demais para ser falado. ;)
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