O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges

7 5 2008 por Alessandro Martins · 6 comentários

O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges, tem a particularidade de estar armazenado na seção de Ciências Sociais da Biblioteca Pública do Paraná. Bem, não sei onde ele está na biblioteca de sua cidade, mas até a última vez que eu fui na da minha, ele estava ali.

É um livro fabuloso em que o argentino lista e descreve animais e outros personagens imaginários de mitologias de diversas culturas.

Uma de minhas passagens preferidas é aquele em que ele descreve dois animais metafísicos. O meu amigo Marco Carvalho, estudioso do Sámkhya, um dos dárshanas (pontos de vista) do hinduísmo muito possivelmente também venha a gostar:

Descartes professou a doutrina das idéias inatas; Etienne Bonnot de Condillac, para refutá-lo, imaginou uma estátua de mármore, organizada e conformada como o corpo de um homem, e residência de uma alma que nunca teria percebido ou pensado. Condillac começa por atribuir um só sentido à estátua: o olfativo, talvez o menos complexo de todos. Um cheiro de jasmim é o princípio da biografia da estátua; por um instante, haverá unicamente esse cheiro no universo, melhor dizendo, esse cheiro será o universo, que um instante depois, será cheiro de rosa, e depois de cravo. Que na consciência da estátua haja um cheiro único, e já teremos a atenção; que perdure um cheiro quando o estímulo tiver cessado e teremos a memória; que uma impressão atual e outra do passado ocupem a atenção da estátua e teremos a comparação; que a estátua perceba analogias e diferenças, e teremos o juízo; que a comparação e o juízo ocorram novamente, e teremos a reflexão; que uma lembrança agradável seja mais vívida que uma impressão desagradável, e teremos a imaginação. Engendradas as faculdades do entendimento, as da vontade surgirão depois: amor e ódio (atração e aversão), esperança e medo. A consciência de ter passado por diversos estados dará à noção abstrata de número; a de ser cheiro de cravo e e ter sido cheiro de jasmim, a noção do eu.

Em seguida o autor atribuirá a seu homem hipotético a audição, o paladar, a visão e por fim o tato. Este último sentido lhe revelará que existe o espaço, e que no espaço ele estará num corpo; os sons, os cheiros e as cores, antes dessa etapa, haviam lhe parecido simples variações ou modificações de sua consciência.

Li rapidamente este livro enquanto esperava uma amiga aparecer em um lançamento de uma revista de literatura aqui em Curitiba. Como, por fim, ela não apareceu, tive a oportunidade de lê-lo até o fim e selecionar alguns dos trechos mais interessantes para mostrar para você.

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    Tags: O prazer de ler

    6 comentários até agora ↓

    • 1 Carlos // 7 5 2008 às 16:58

      Minha mãe está com um grave problema de saúde… pensei em lhe presentear com um bom livro no dia das mães que pudesse ajudá-la de alguma forma. Sugere algo ?

    • 2 Djabal // 7 5 2008 às 18:02

      fauna dos estados unidos.
      O hidebehind sempre está atrás de alguma coisa. Por mais voltas que um homem desse, sempre o teria atrás de si, e por isso nunca ninguém o viu, embora tenha matado e devorado muitos lenhadores.
      Que tal? Não é genial?
      Abraços.

    • 3 Propaganda da Vez // 7 5 2008 às 19:56

      Me lembro que já cheguei a ver este livro numa livraria, mas só dei uma olhada de leve mesmo…

    • 4 marcus // 8 5 2008 às 7:09

      O interessante é que este livro está fora das Obras Completas do escritor.

    • 5 Lady Cronopio // 8 5 2008 às 8:27

      Ixi!
      Sou doida por esse livro… Nem conto as vezes todas que já li.
      Seres imaginários são atraentes demais!
      E, Djabal, este Hidebehind me deu medo aqui. Imagine uma coisa que anda atrás da gente, sem descanso. Pior que isso, só o Freddy Krueger do cinema, pois como se diz, o sono é sagrado…

    • 6 _Maga // 8 5 2008 às 18:05

      Jorge Luís Borges… o último livro que li dele foi História Universal da Infâmia. É um autor e tanto, com uma imaginação fantástica. Apesar de sua genialidade se expressar melhor em textos complexos e vertiginosos, o livro História Universal… é delicioso e uma boa apresentação deste autor a publicos menos treinados na leitura.

      Um abraço

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