O caso Isabella se esgota antes do julgamento

22 4 2008 por Alessandro Martins · 16 comentários

Antes mesmo que a polícia apontasse os acusados de fato para que esses fossem para julgamento afim de que fossem designados culpados ou inocentes, o caso Isabela se esgotava.

É o novo Big Brother Brasil.

A verdadeira gravidade do fato simplesmente se dilui na importância que a imprensa dá à divulgação em si do fato. A propagação da informação - rápida, corrosiva, viral - é mais marcante que a informação.

Não importa mais o que aconteceu ou a verdade por trás do que aconteceu. Mas que se divulgue algo, não importa o quê.

A Rede Globo analisando a entrevista dos dois principais suspeitos - veiculada na própria Globo -, tentando descobrir as verdades por trás de palavras e expressões, foi algo de patético. Talvez entre para a história da comunicação como o momento mais fútil, egocêntrico e manipulador em que a imprensa se debruçou sobre si mesma. A cobra se engolindo pelo rabo.

A Revista Veja, estampando um FORAM ELES na capa, foi de uma grosseria que lembrou-me o caso da Escola Base, em Brasília São Paulo. Não cabe à imprensa julgar ou fazer investigação policial. Por mais que a revista esteja certa, errou. Foi irresponsável. Mesmo a polícia não fala em acusados, mas “únicos suspeitos”.

Cansa-me ver como a gravidade do acontecimento - a gravidade real - ganha uma gravidade irreal através da saturação. Ao mesmo tempo, ganha a importância das banalidades.

Uma garota morreu e isto é triste. É óbvio que os culpados devem ser presos e pagar pelo crime. Mas tanto quanto qualquer outro culpado pela morte de qualquer outra garota ou garoto ou homem ou mulher. Nem mais nem menos.

Porém, a justiça é cobrada nas filas dos ônibus com a mesma fanfarronice com que alguém diz que merece um aumento.

Mas não se tem coragem de pedi-lo.

Assim, Isabella transformou-se em personagem de novela através da presença excessiva nos meios de comunicação. O termo “presença excessiva” caracteriza-se porém não pelo tempo de exposição do caso, mas pelo caráter exploratório que a imprensa deu ao tema.

A criança morreu ao cair daquela janela - e já não me importa de fato quem a atirou de lá.

Pois quem acabou de matá-la foi a imprensa. A grande, a média, a miúda e nós, o público, que nos deliciamos sobre o pobre e infantil defunto.

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    Tags: Ética

    16 comentários até agora ↓

    • 1 Fábio C. Fusaro // 22 4 2008 às 9:46

      É, tem toda razão. Eu já não aguento mais ouvir falar nesse caso. É claro que eu sinto pela menina, mas já não me importa mais se o pai e e mãe postiça sejam os assassinos. Descobrir quem foi não vai fazer a menina voltar.

      O fato é que a maioria das pessoas que conheço não aguenta mais ouvir falar nesse caso. Talvez por eu estar em meio a pessoas que sabem que têm mais o que fazer da vida. É como no Big Brother mesmo. Ninguém que eu conheço gosta, mas a grande maioria do povo não têm noção de responsabilidade e faz questão de perder “tempo de processamento cerebral” com essas coisas.

      O que eu estava sentindo, mas não conseguia representar em palavras, você expôs claramente no seu blog: eles estão virando celebridades. Infelizmente, no mundo “Big Brother” de hoje, qualquer m* que você faça, a imprensa te torna famoso. E o pior é que tem “povo” pra te idolatrar. Uma pena mesmo.

      Você falou tudo.

    • 2 gi // 22 4 2008 às 14:20

      ja deu o que tinha que da esse caso !

    • 3 Anna C. // 22 4 2008 às 14:53

      Estou escutando o caso de orelhada, por telefonemas de parentes que estão no Brasil e leituras em blogs.

      E se eu, que estou a nove mil quilômetros do Brasil, já estou muito enfurecida com o tratamento de imprensa dado ao caso… Imagino, então, quem tem que acompanhar isso na TV, no rádio e na pausa do café, em esquema diário!

      Antigamente o povo assistia aos enforcamentos como diversão. Não evoluimos muito, pelo visto…

      PS - a Escola Base era em SP, não BSB, se minha memória não falha.

    • 4 marcus // 22 4 2008 às 15:25

      “A cobra se engolindo pelo rabo.”

      Ou seja, assim como Oroboros, ela é eterna.

    • 5 Tina Lopes // 22 4 2008 às 15:46

      A imprensa não apenas acabou de matá-la. É pior: mata a menina todo dia.

    • 6 Thássius V' // 22 4 2008 às 16:03

      Caro Alessandro, excelente texto. Me aproveitei dele para fazer um post sobre o ‘caso Isabella’.

    • 7 daisy // 22 4 2008 às 16:08

      Sinceramente, Ale, eu pouco escutei falar. Nada li (sério) e evitei ouvir comentários. Pelo simples fato de estar de saco cheio em assistir uma imprensa que trabalha a favor do Mal, fazendo marketing para o diabo. Parece discurso religioso, mas é tão somente meu asco por um mundo que dentre tantas injustiças, usa a imprensa para divulgar incansavelmente atrocidades como estas. Como desejar um mundo melhor se esta imprensa sangrenta e inútil persegue brutais assassinos e tarados e políticos, o que dá no mesmo.
      Minha opinião é que a mídia deveria aproveitar o caso e fazer vários estudos e pesquisas sobre o mau funcionalismo de um país de código penal retrógrado e repleto de corrupção.
      A menina não está morta sozinha. Com ela, a decência brasileira. O descaso. A impunidade… e o amor ao maligno que reside nos escombros da alma humana.

      Beijo.

    • 8 Régis // 22 4 2008 às 16:11

      Ninguém mais aguenta ligar a TV e ver isso. Ótima matéria Alessandro.

    • 9 Anny // 22 4 2008 às 16:47

      Oi Alessandro: (Certo?)Rs!
      este é o meu final na história.
      Não comentei em lugar nenhum sobre este assunto.
      Então aproveito para colocar um fim.

    • 10 ana lucia // 22 4 2008 às 16:59

      Alessandro o caso Escola Base ocorreu no bairro da Aclimação, em São Paulo. Interessante observar aqueles curiosos que acompanham o caso in loco, esse povo não tem mais o que fazer?

    • 11 Evandro Cesar // 22 4 2008 às 20:04

      Escrevi sobre isso tudo alguns dias atrás depois que li que programas de TV tinham crescido 46% depois do caso ou algo assim, enfim… O que me deixa muito aborrecido é o fato de se aproveitarem de qualquer tragédia para vender, mas isso é só minha opinião.

    • 12 Karyne // 22 4 2008 às 22:00

      É Alê… fico feliz em saber que tudo isto que está acontecendo, toda esta invasão fútil, anti-ética e mesquinha da mídia está incomodando diversas pessoas como você e eu. Melhor ainda saber que temos a oportunidade de usar a própria mídia (ainda que social) para combater essa atitude egoísta da mídia tradicional! Infelizmente, independente de culpados e justiça, a mídia conseguiu deixar em segundo plano a dor e a compaixão, e trouxe a tona todos os sentimentos de vingança, ódio, curiosidade e ‘justiça’ que poderiam perpassar a população brasileira.

    • 13 Siteja // 23 4 2008 às 4:21

      A imprensa é totalmente egoísta, para eles não importa o que aconteceu, o que importa é que tem uma imensa fonte de notícia, e o que fazem é aproveitar ela ao máximo, se possível vão até além. É repugnante…

    • 14 Neto Cury // 23 4 2008 às 16:29

      Tenho fama de chato na internet justamente por ficar saturado por assuntos repetidos e talvez por isso mesmo não goste de memes, mas já no 3º dia de reportagens consecutivas eu já percebi que a imprensa, principalmente a televisionada, faria um circo em cima de um fato tão triste, do ponto de vista da morte de uma criança e dos (possíveis) autores.
      Abraço

    • 15 Juliana // 23 4 2008 às 17:51

      Ah, você conseguiu expressar quase tudo o que queria dizer com o seu post, até me utilizei dele no meu blog.
      Obrigada, Tenha uma Boa Semana

    • 16 JULIO // 2 5 2008 às 13:59

      Não classificaria esse cenário de exagero, pois pode até haver um sensacionalismo, mas o remédio para aliviarmos da dor resolve, porém às vezes é amargo. Vejo que a sociedade está defronte a uma atrocidade similar ao Terrorismo, com agravantes, cometidos pelo próprio pai. O que assistimos é na verdade é a sociedade da liberdade, sem responsabilidades e total desrespeito pelo seu semelhante. O caso desta menina pode ser entre vários que ocorrem por ai, mas via de regra, sempre o fato de destaque é que se analisa e evidencia particularidades.

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