D’Artagnan, sob orientação de sua namorada, a senhora Bonacieux, bela camareira da Rainha, consegue cumprir a missão e levar à soberana as jóias, que antes estavam com o seu amante, o tal nobre inglês, a tempo do baile armado pelo cardeal.
Se você já conhece a história de Os Três Mosqueteiros, sabe que se as jóias não chegassem a tempo as traições, a matrimonial e a do reino, ficariam evidentes.
Então, a namorado do herói o conduz até uma sala escura.
D’Artagnan ficou imóvel durante um momento, procurando descobrir onde se encontrava, mas, pouco depois, um raio de luz que entrava pelo quarto, o ar quente e perfumado que chegava até ele, a conversa de duas ou três mulheres, numa linguagem ao mesmo tempo respeitosa e elegante, a palavra Majestade, várias vezes repetida, indicaram-lhe claramente que se encontrava num quarto adjacente ao gabinete da rainha.
O jovem permaneceu na sombra e aguardou.
(…)
Apesar de não conhecer pessoalmente a rainha, d’Artagnan distinguia sua voz entre as outras, primeiramente devido a um sotaque ligeiramente estrangeiro e, depois, àquela impressão de superioridade que marcava todas as palavras soberanas. Escutava-a aproximar-se e afastar-se daquela porta entreaberta e, duas ou três vezes, chegou mesmo a ver a sombra de um corpo interceptar a luz.
Finalmente, de repente, uma mão e um braço adoráveis em forma e em brancura passaram através da tapeçaria; d’Artagnan compreendeu que se tratava de sua recompensa: ajoelhou-se, segurou essa mão e beijou-a respeitosamente; depois a mão retirou-se, deixando nas suas um objeto que ele sentiu ser um anel; a porta voltou a fechar-se quase no mesmo instante e d’Artagnan encontrou-se na mais completa escuridão.
Eu lhes digo, que se fosse um sonho, seria de grande erotismo. Mesmo sem ser sonho, mesmo sem ser evidentemente erótico. Mesmo com d’Artagnan, naquele instante, só tendo olhos para a senhora Bonacieux.



2 comentários até agora ↓
1 Rosilene Linon // 2 5 2008 às 15:14
Alessandro,
engraçado. Quando li este livro tive a mesma impressão. Pode ser porque eu andava de cabeça cheia, graças à Lolita, de Nabokov, percebi a sena como um dos mais belos episódios de voyerismo descritos até hoje.
2 Rosilene Linon // 2 5 2008 às 15:15
Ops, perdão pella grafia incorreta de CENA. Ainda ando lendo Lolita.
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