O vencedor do concurso Aumente um Ponto

14 4 2008 por Alessandro Martins · 9 comentários

O Concurso de Contos Aumente um Ponto, promovido pelo Lendo.org e do qual tive a oportunidade de ser um dos jurados (não de morte, naturalmente), teve um vencedor que será publicado também nos outros blogs ligados ao concurso: Libri Lumen e Forsit.

Creio que a vitória foi justa, muito embora concursos literários nunca o sejam. Afinal, os participantes, ainda que dominem as sutis técnicas literárias, sempre estarão ao sabor das preferências de seus julgadores.

E ser julgado nunca é bom. Tampouco julgar o é.

Assim, àqueles que não foram escolhidos para ocupar o único primeiro lugar possível, recomendo que não se sintam rejeitados pela Fortuna.

Ao contrário, que passem a trabalhar com ainda mais afinco para que ao cabo dos anos tenham a única aprovação que de fato importa. A própria. O resto é conseqüência e, sem aquela, não tem valor.

Sem mais prolongamentos, eis o conto vencedor:

Pra quê ser assim, Rosalva?

Por Dino Canteli

Detesto essas liberdades que as visitas deliberam. Principalmente quando ouvem aquela malfadada expressão “sinta-se em casa” e a levam ao pé da letra. Vão nos quartos, mexem nas gavetas. Vão na cozinha, fuçam na geladeira. Reviram a estante e encontram o rascunho do meu futuro possível livro.

– Você está escrevendo um livro?
– Não, é meu balancete de despesas mensais. Dá aqui!
– Não é não, seu bobo… Esse seu balancete tem muitas letras pro meu gosto.
– Faço introduções longas.
– Mentiroso.
– Por favor, devolve.
– Por que todo cara de talento esconde as coisas que faz?
– Porque as pessoas tendem a fazer comparações. Sempre, aliás.
– Ai, pronto. Parece meu pai reclamando.
– Devolve, Rosalva. Ou então eu…

Rosalva é um nome que dá tesão até de pronunciar. A gente começa abrindo a boca pra fazer o “ro”, mexe todo o maxilar e a língua vai parar no céu da boca com o “zal”, e, por fim, os lábios se unem para cuspir a última sílaba, já mandando realmente tirar a roupa nesse “va”. Se isso não for erótico, ao menos serve de massagem facial. Rosalva! Se não fosse tão metida, eu e ela já teríamos, sei lá, fornicado.

– Se eu não devolver, você faz o quê?
– Faço um macarrão instantâneo enquanto isso.
– Você não sabe cozinhar outra coisa?
– Requento que é uma maravilha.

Não adianta discutir com mulher. É melhor deixá-la fazer o que quiser. O tédio e a mudança de opiniões no lado feminino vêm mais ligeiro. Passei a defender essa tese depois que meu casamento durou quatro meses.

E a Rosalva era assim: iria ler, se aborrecer e voltar a falar de qualquer outra coisa comigo. Ou então mudar de opinião e resolver fazer as temidas comparações que odeio, detesto, tenho pavor e derivados. Era tão fácil ela apenas dizer “vamo pro quarto”, “que calor”, “o que é esse auto-relevo na sua calça de veludo?”, “deixa eu segurar isso aí”, e crau.

– Você tem um estilo de alguém que conheço.
– Ihhhhh! Lá vem.
– Pera, deixa eu pensar… Ah, já sei: é o Luis Fernando Verissimo escrito.
– Já me disseram que eu era um Scliar, só que nos aspirantes.
– Hum… pensando melhor, Kafka! Você parece o Kafka!
– Concordo que já acordei estranho, mas o mais próximo disso foi uma ressaca.
– Humm… Um pouco de Guimarães Rosa nos personagens.
– Ele era um rural ortodoxo. Eu sou rural também, mas mais liberal.
– Putz, da linhagem do MST?
– MSG.
– Ãhn?
– Movimento dos sem gramática.

(…)

– Rá!
– Muito engraçadinho, macaco simão.
– Sei que não sou engraçado e não faço esforço nenhum para parecer.
– Você tem uma cabeça boa.
– Ah, é?
– Boa para dar um derrame.
– Obrigado, Edgard Allan Poe fêmea.
– Tá, peraí! Peraí. Falando sério. Deixa eu analisar melhor… Bem, com os tiros, as trepadas e as mortes, eu diria que o Rubem Fonseca está bem representado.
– Não é bem assim, me preocupo com os leitores mais sensíveis. Não quero ninguém deprimido.
– Lya Luft.
– Pára! Também não é isso. Tenho meus métodos narrativos pra chegar onde eu quero.
– Ah-rá! Aquele pessoal do O Segredo!

Aquela conversa estava tomando um rumo muito chato. Bem o que eu temia. Quando chega nesse ponto do abuso gratuito, eu costumo ser grosso e arremesso a primeira enciclopédia que encontro. Já falei, se ela fosse mais superficial e dissesse “quero que você examine uma coceirinha que tá me dando na virilha”, isso, assim e só, nossa relação seria muito mais harmônica.

Pra quê ser assim, Rosalva? Por que não é apenas uma dessas moças gostosas, de ancas largas, coxas grossas, seios fartos, lábios carnudos e vácuo no crânio? Ela é tudo isso, só que metida a intelectual. E tem hora que a gente não agüenta, mesmo.

– Vamos pra cama que eu te conto o meu “segredo”.

Passou-se vinte e poucos minutos de um rala-e-rola contagiante em que discurso nenhum tinha vez naquele espaço, a não ser alguns desabafos sem significações necessárias e de entendimento que é universal: AH, UH, OH, UH!

Extasiado e de cabeça vazia, virei pro lado.

– Vai, conta esse teu segredo.

“Que perseguição!”, pensei gritando. Só me relaciono com mulheres que lêem resumos de vestibulares e respondem a questionários da Capricho.

– Eu não tenho estilo nenhum!

Ah! Eu sabia: é o Millôr.

Fuck!

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    Tags: Notas · O prazer de escrever · O prazer de ler

    9 comentários até agora ↓

    • 1 Daniela // 14 4 2008 às 9:02

      O texto ele é muito bom mesmo. Dinâmico e com uma temática super simples mas muito bem elaborada. Claro que não chego nem perto do conhecimento literatura e texto como você, mas me agradu muito ler esse guri e isso já me basta.

    • 2 Alessandro Martins // 14 4 2008 às 9:04

      Daniela,
      não sou um grande conhecedor de literatura. Apenas gosto de ler. Abraços!

    • 3 gi // 14 4 2008 às 10:01

      adorei!

    • 4 Edu // 14 4 2008 às 10:38

      Gostaria de fazer um questionamento sem sacanagem; somente dúvida mesmo. Logo no ínicio do texo ele falam “vão nos quarto…”; “vão na cozinha”. Tá escrito corretamente ? Ou eu que não entendi ? Sei lá… esquece!

    • 5 Alessandro Martins // 14 4 2008 às 13:34

      Não entendi, Edu. O que pode estar errado? Abraços.

    • 6 Edu // 16 4 2008 às 16:48

      Quem vai, vai a algum lugar… o correto não seria “Vão aos quartos”; “Vão a cozinha”… posso tá enganado, mas é q assim q li me veio a mente a imagem da minha professora de português falando essa regra. Nostalgia, sabe como é…

    • 7 Edu // 16 4 2008 às 16:53

      Complementando, quero deixar claro que não é nenhuma crítica não. Apenas fiquei em dúvida mesmo. E além do mais, o texto é ótimo mesmo. Com certeza merecedor do prêmio.

    • 8 Alessandro Martins // 17 4 2008 às 9:24

      Edu,

      pior é que você tem razão. A regência dos verbos é essa mesma… mas substitua pela forma correta e observe como texto perde fluidez e a coloquialidade. De fato é importante saber o que é certo e errado em gramática… mas, sei lá… a noção de erro, para bem ou para mal, está bastante flutuante ultimamente…

      Abraços do Alessandro.

    • 9 Edu // 22 4 2008 às 9:53

      Era exatamente essa minha dúvida: tratava-se de um recurso estilístico ou não!!? Respondido… té mais.

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