
O Fernando Klug assistiu ao espetáculo Negrinha, do grupo XIX de Teatro, e gentilmente cedeu um texto sobre a peça para mim:
Depois de Hysteria e Hygiene, um projeto paralelo do grupo XIX de Teatro nos traz Negrinha. Luiz Fernando Marques, Renato Bolelli e Sara Antunes construíram um tocante espetáculo que fez temporada em Curitiba e circulou pelas cidades paulistas ligadas à história dos engenhos de açúcar e do café.
A peça procura retratar um momento crucial da história do Brasil, o fim da escravidão, na perspectiva de uma criança frágil, uma “negrinha”, sem nome e sem futuro, aprisionada como um fantasma na Casa-Grande, na “Casa de Açúcar” (palavras dela), no engenho que produz a coisa mais doce e branca e onde se cultiva a escravidão e o preconceito “da cor”. É daí que emerge a dimensão poética, lúdica, fantasiosa, mas, também apavorante e cruel de uma história real. É peça de artesanato, voltada para o preciosismo das palavras, objetos, sons e figurinos. Traz cheiro, cor e forma e realça novas nuances dessa história. O caráter interativo sublinha a fricção proposta entre dois tempos: o passado e o presente.
Negrinha foi inspirada no conto homônimo de Monteiro Lobato trazido ao XIX por ocasião das pesquisas dramatúrgicas de Hygiene. Como marca do grupo, a dramaturgia “múltipla” formou-se pelo exaustivo contato com o tema e suas derivações, através de entrevistas, relatos históricos, fotografias, objetos, cheiros, improvisações. A idéia parece ser recriar - com a presença do espectador - um ambiente histórico-poético verossímil, com força de realidade.
O envolvimento é imprescindível e inevitável. Como em Hysteria, a direção escolhe onde sentará cada espectador; a posição define se e como este participará da encenação. O espetáculo inicia com a caminhada dos espectadores pelo escuro e obscuro, até suas posições. Em seguida, sons de metal e madeira, quase um fantasma se anunciando, é a Negrinha chegando. Negrinha é identidade e a atriz Sara Antunes é branca. Uma menina sem nome que apesar de branca é chamada Negrinha. Estranhamento. Está em jogo a questão de identidade. A doce Negrinha brinca com alguns espectadores, associando-os a cores: branquiça cor de leite, rosácea cor de seda… As cores não correspondem ao tom de pele do espectador: a escravidão não tem nome, nem cor, mas assola e amedronta assim como esta mancha de uma historia difícil de encarar e as suas conseqüentes mazelas sociais, que ainda hoje nos assustam. Vivemos a sociedade do medo. A peça traz ao plano das sensações e da experiência compartilhada o susto, componente pouco trabalhado no teatro, e que aqui ganha conotação social, susto de reencontrar parte esquecida e maquiada de nossa história. Dentro do ambiente da Casa Vermelha - não o melhor que se poderia conseguir para a peça - viajamos pelo tempo indefinido de uma hora através do olhar da criança Negrinha sobre a Casa Grande e a senzala que nos cercam. Ao final, ela se re-colhe às paredes e cortinas… E ao vento.
A convite do diretor Luiz Fernando Marques, examinamos os objetos, os livros, os papéis amarelecidos que formam tanto a pesquisa como o cenário.Arrepiante a sensação da presença do passado: e o espetáculo torna-se mais vivo do que nunca.



2 comentários até agora ↓
1 Léo e só // 26 3 2008 às 19:32
olá Alessandro.
Do trabalho do Hysteria não há o que comentar, excelente sempre. Agora que é nítido que esta é um inspiração bem livre, pelo que conta o Fernando, não há como negar. Graças a Deus!Perde-se muito quando reverência demais.
Para quem quiser ler o conto, ele se encontra no livro de contos ” Negrinha” de Monteiro Lobato, apesar disto, é um dos poucos contos do livro, composto por crônicas com o pé na ficção.
Além disso, é um dos melhores trabalhos do Velho Lobato, compondo para o leitor as relações de poder dos antigas, e falidas, familias dos Senhores do Café.
É uma das poucas obras adultas que “tá ali” com o trabalho infantil do homem.
abs.
PS 1: Alessandro, leia ” O colocador de pronomes”. Acho que vc vai gostar muito.
PS2: Visitei o site do grupo. É lindo, mas confuso, ruim pra navegar.
2 Alessandro Martins // 27 3 2008 às 19:15
Acaba que, caso você vá assistir, já estará previnido, meu caro Léo. Por outro lado, até gosto quando um autor, diretor ou o que seja, admite a impossibilidade da transcrição absoluta de um trabalho de uma arte para outra. Abraços!
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