
Hoje, 25, terça, 21 horas na Casa Vermelha, ultima apresentação de Negrinha, projeto paralelo do Grupo XIX (o mesmo de Hysteria e Hygiene. Baseado na obra de Monteiro Lobato. Excelente direção de Luiz Fernando Marques, com a contagiante interpretação de Sara Antunes. Ingressos a R$ 20.
Mãe Coragem S/A
Sabe aquela frase do Caetano: “O Haiti é aqui”? Pois é. Nunca me senti tão próximo da Guerra dos 30 anos do que ao assistir a Mãe Coragem. O desfile da banda podre do gênero humano, revelado pela guerra, me soou cotidianamente familiar. Apenas nossa guerra diária é invisível. Só faltava a peça se chamar Mãe Coragem S.A., de tanto que a carapuça serve: “Que bom que em duas coisas ainda se pode confiar: na misericórdia divina e na corrupção dos homens”. É apenas um exemplo.
A direção de Paulo de Morais é divertida, popular, enfim um “Brecht brasileiro”. Se falta um pouco de peso em momentos-chave. A montagem cumpre bem a função de - como diria Brecht - “antes de tudo divertir”. Divertir para fazer pensar. Ágil, econômica e esteticamente agradável, embalada por um elenco afinado, sem destaques: da narradora até Mãe Coragem, todos têm função de igual importância (e força expressiva) no contar a história: “acima de tudo, a idéia.” O cenário é simples e inteligente: a carcaça de um avião da Primeira Guerra Mundial faz a carroça da Mãe Coragem; um areial de onde um narrador desenterra crânios durante o espetáculo; e uma chapa de metal, ao fundo, espelhando o que acontece em todos os lugares do palco. Louise Cardoso, no difícil papel-título, consegue imprimir bom ritmo e dotar sua criatura de bom humor. Se definisse mais as facetas contraditórias da personagem, cresceria o espetáculo. O Teatro da Reitora acusou o esforço da atriz na projeção da voz, nesse dia. A Reitoria não perdoa: aliás, algo a acertar, no espetáculo, é o volume do canto. E, quando acompanhado pela percussão, fica mais difícil ouvir o que diz o elenco.
Talvez esteja sendo ortodoxo, mas acredito num final que não feche o espetáculo, que incomode, que faça o conflito continuar vazando do palco para a realidade do espectador. Para motivá-lo mais a agir sobre a sociedade. Mas a direção optou pelo final de impacto (lindo, diga-se), que causou quase um minuto de aplausos de pé e bravos. De passagem: um bravo para a atuação de Sérgio Medeiros, de pato a Padre.
Abajur Lilás ilumina o Fringe
Este Abajur Lilás começa na rua, quando dois personagens - prostituta bêbada e cafetão - atraem possíveis clientes para o prostíbulo. Não é preciso dizer o quanto foram convincentes: houve até quem apontasse uma arma para ambos. Entramos e somos avisados no saguão, por aquele que parece ser nosso guia, que iremos presenciar o submundo como ele realmente é. Entramos, enfim, em uma boite, docinhos e cachaças à mesa, música ao vivo. De repente as luzes de um quarto acendem e a trama começa. Duas prostitutas e um homossexual que as explora. Exploração grosseira, impiedosa - a lei do mais forte - e que acabará em tragédia. Colcha de retalhos humanos, comédia da vida privada de tudo que Plínio Marcos sabia como mostrar.
A direção de Fernanda Levy se baseia na criação de um ambiente naturalista. Portanto, numa atuação convincente. Mas vai além. Cria - com o excelente elenco - 7 personagens bastante distintos, mostrando a riqueza da fauna humana do submundo (que geralmente rotulamos em uns poucos tipos iguais). Se é uma gente que funciona algo diferente de nós, dignos cidadãos, é porque o ambiente é outro. Baseado no estudo da obra de Plínio Marcos, entendeu-se cada personagem como uma metáfora: um é o poder, outro é aquele que o aceita, outro o que se revolta, outro é a própria opressão… Os personagens se complementam, em todos os sentidos.
Uma única ressalva: o espetáculo perde força e ritmo - paradoxalmente - no decorrer das cenas mais fisicamente violentas. É que estas se alongam em demasia, sobrando ação física e faltando ação dramática. O espectador prevê o que vai acontecer, e o que vê adiante torna-se redundância. Isto, porém, é coisa pequena, porque no resto, sobra ação dramática, significância, humanidade. Abajur Lilás nos joga no olho do furacão, nos fazendo cúmplices privilegiados do mundo de Plínio. É uma das melhores peças deste festival.
Destaque para as atuações de Luciana Esposito e Renata Laurentino.



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