Festival de Curitiba: Fernando Klug tenta descobrir por que tanta gente participa do Fringe

22 3 2008 por Alessandro Martins · Sem comentários

O meu amigo Fernando Klug enviou-me a seguinte matéria sobre o Fringe, do Festival de Curitiba. Nela, ele tenta explicar por que todos os anos tantas companhias vêm ao festival por sua própria conta e com as poucas regalias oferecidas pela organização, competir pelo público com outras tantas:

Mês mundial do teatro. Festival de Teatro de Curitiba: 10 dias, 300 espetáculos sem contar os eventos paralelos. 60 espaços cênicos, entre teatros, bares, elevadores e ruas. Na visão do cidadão comum os números chegam a assustar. O susto aumenta, quando se abre o volumoso guia do Festival. Além dos fliers e cartazes a cada esquina; propagandas aos montes pela Internet. E a dúvida: - O que vou assistir?

Do outro lado - o dos grupos participantes do evento - os números assustam mais. Mais que números, assustam as cifras. Afinal, a imensa maioria dos grupos não recebe subsídio algum. Paga-se pelo direito de se estar no festival, paga-se o aluguel do teatro e a propaganda. E, sendo “de fora”, paga-se a viagem, a estadia e a alimentação. Conheci um grupo de Campinas que ontem foi literalmente expulso do apartamento em que havia passado a noite, pelas parentes do primo de alguém que não sabiam que o primo de alguém havia bondosamente emprestado o local. Além disso, os grupos têm de submeter-se a horários pouco ortodoxos de apresentação: hoje ao meio dia, amanhã às três da tarde, e por aí vai. E a pergunta - que grita mais quanto maior fica o FTC: - Haverá alguém para ver a minha peça?

Conheci um grupo de Campinas que ontem foi literalmente expulso do apartamento em que havia passado a noite

A coisa não pára por aí. Longe da relativa facilidade de fazer parte da Mostra Contemporãnea ou dos Eventos Especiais e sem nenhum Nome de destaque no elenco, batalhões de artistas estarão pelas ruas, todos os dias, cartazes nas mãos e fliers na boca. Tentarão um espaço - que seja de rodapé - nos principais veículos de comunicação. Cercarão os jornalistas e críticos nas manhãs da Assessoria de Imprensa.

Ao mesmo tempo, terão de ensaiar seus espetáculos. E adequar-se rapidamente ao novo espaço cênico, muitas vezes com condições técnicas prejudiciais ao resultado artístico. Ano passado, a sala Scabi, do Solar do Barão, tinha goteiras expressivas. E ontem o projetor - elemento fundamental para a passagem geral de certa peça de Campinas - chegou ao local cerca de meia hora antes DA estréia. Resultado, comum a vários espetáculos: a estréia fica a desejar. E não se pode pedir ao público que venha apenas no segundo dia, certo? Por último, os grupos de desmontar seus espetáculos rapidamente, para ceder lugar ao próximo do dia.

O que parece mover um grupo a participar de um festival é, além de apresentar-se ao público, mostrar seu trabalho a outros artistas. E assistir ao trabalho dos colegas, participar dos eventos paralelos e das oficinas. Um festival é uma possibilidade de reflexão. Ou deveria ser. A cada ano, porém, ouve-se a conversa: - Você assistiu a peça de fulano? Você foi àquela palestra? E a resposta, cada vez mais comum: - Não deu, eu estava produzindo a minha peça.

Por que, então, tanta gente participa do Fringe? Resposta comum refere-se à esperança de alguém que importante - crítico, produtor, diretor, olheiro de projeto cultural - veja o espetáculo. Outra pista - dada pelo diretor Andrei Moscheto (do grupo Antropofocus) é de que a mídia nacional e local, se voltando para o evento, transfere essa visibilidade aos grupos participantes. Além disso, para Andrei, há a possibilidade de atingir um novo público. Porque o curitibano que vai ao FTC se diferencia do que freqüenta teatro no resto do ano: ele é levado por um desejo teatral só nessa época. O diretor Márcio Mattana lembra: “Ano passado viajamos o Brasil no projeto Palco Giratório por termos sido vistos no Fringe no ano anterior”. O ator e produtor Thadeu Peronne acrescenta: “Se não compensar financeiramente, compensa pelo encontro. O palco é local de encontro, movimento e transformação. Por menor que seja o público, já valeu o encontro”. Ao ser perguntado sobre o que o move a participar do FTC, o produtor e ator Dico Ferreira é lacônico: Fé!

Ah! Quase esqueci…

Bem, não é por que o Fernando é meu amigo, mas acho que vale a pena fazer uma divulgação do trabalho dele:

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