O preço do livro não é importante

27 2 2008 por Alessandro Martins · 9 comentários

Ouço muito falar que o brasileiro não lê porque os livros são caros.

Você pode colocar livros de graça nas prateleiras das livrarias, colocar bibliotecas em cada esquina. Mas, se não houver leitores, não importa o preço do livro.

E o Brasil é um país de não-leitores. Claro: somos um país de não-estudantes. Em 2002, um quarto da população brasileira com mais de 10 anos de idade tinha menos de quatro anos de estudos completos: 32 milhões de analfabetos funcionais. No mesmo ano, as pessoas de mais de 10 anos de idade morando no Brasil tinham, em média, 6,2 anos de estudo. Estatisticamente, o brasileiro não estuda, e quem não estuda não lê. Não me leve a mal: sou totalmente a favor de livros mais baratos nas nossas prateleiras e de iniciativas como bibliotecas nos metrôs ou máquinas para vender livros. Todo esforço ajuda, e cada um faz o que pode. Mas não vai ser assim que vamos nos tornar um país de leitores. O que realmente precisamos fazer é a revolução educacional que aconteceu nos Estados Unidos e na Europa cinqüenta anos atrás, e em muitos países asiáticos pouco depois disso. É aumentando o público potencial da literatura que o público real vai aumentar.  (Leia o artigo completo no Le Monde Diplomatique Brasil: Um País de Não-Leitores, por Lucas Murtinho)

Se houver leitores, haverá produção editorial. Se houver oferta e procura, os preços caem naturalmente.

Fonte: compartilhado no Google Reader por Samantha Shiraishi, do blog A Vida Como a Vida Quer.

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    Tags: mercado editorial

    9 comentários até agora ↓

    • 1 Suzana // 27 2 2008 às 10:21

      Oi, Alessandro;

      Concordo em parte com esse texto. Trabalhei em editora por anos e posso te dizer: além de termos leitores, as editoras têm que começar a planejar o preço dos livros. Pra você ter uma idéia: um livro que tenha custo final de R$ 10 será vendido a R$ 60. Assisti a reuniões do comercial com o editorial em que o preço final de um livro era determinado assim: “Quanto ficou o custo final do do livro?” “R$ 7″. “Então podemos cobrar, vamos ver, uns R$ 40?” “O livro tá grosso, e a escritora é best seller. Acho que podemos pôr a R$ 59.” “Então tá. Fechamos em R$ 59.” Além disso, as livrarias das grandes redes cobram até 60% do valor do livro para consignação - ou seja, elas não compram os livros, que saem para elas a menos de R$ 30 (se o livro custar R$ 60), sem a obrigação de vender.

      Dizer que, para baixar o preço dos livros basta formar leitores para mim é por demais simplista - o boom de sebos mostra que há leitores (aqui no Rio você encontra pelo menos dois em cada bairro, e com lançamentos; as bibliotecas públicas não recebem livros novos (lançamentos) há quase dez anos).

      Não um mercado editorial comprometido, além de um bom desempenho comercial, com a educação. Veja a relação, por exemplo, de lançamentos do Grupo Editorial Record, e veja quanta bobagem se edita, entre os quase 50 títulos despejados no mercado somente por eles.

      É uma equação muito complicada, parcialmente respondida em “O negócio dos livros”, do André Schiffrin (Casa da Palavra - uma editora carioca pequena mas muito corajosa).

      Por fim, seu blog agora está no topo dos meus favoritos :o)

      Abs

      Suzana

    • 2 Evandro // 27 2 2008 às 10:50

      Olá Alessandro! A Suzana fez um comentário muito interessante só que não sei até que ponto temos tantos leitores assim. Eu tenho 2 blog, um é esse no link e outro de variedades, que é o postmania.org que eu coloco de tudo ali… pois bem, eu tenho posts na área de educação a ovnis, de segurança na internet a filmes. Tenho 3 posts sobre segurança para crianças na internet QUE NINGUÉM ENTRA… é um pouco desanimador…

    • 3 Suzana // 27 2 2008 às 11:36

      Oi, Evandro;

      Pela minha experiência (e conversando com profissionais do livro) as pessoas não lêem porque não foram educadas para isso. Não importa o preço dos livros. Os clássicos, por exemplo, por não inferirem pagamento de direito autoral, podem ser impressos ao custo de gráfica. Encontráveis em sebos a R$ 1.

      Mas caímos, por exemplo, em questões mais complexas. Um exemplo: numa pós que eu fiz, o responsável pelo programa de livros do MEC nos contou que os alunos da rede pública recebiam (não sei se isso ainda acontece) uma minibiblioteca básica com, digamos, dez livros. No meio do ano um grande percentual de crianças (ele não lembrava quanto, mas estimou em 35%) não tinha mais a coleção. Os pais, sem dinheiro, vendiam os livros para comprar comida, fraldas, gás.

      As bibliotecas públicas não recebem livros novos há anos. E o próprio currículo escolar massacra os alunos - numa palestra numa escola pública aqui no Rio, vi que “Dom Casmurro” estava no currículo da 5ª série - crianças de 11, 12 anos.

      Por isso eu achei muito simplista dizer que mais leitores significam livros a preços baixos, e vice-versa. É preciso antes mudar o jeito que o livro é visto, usado, a educação e o mercado editorial - que lucra não apenas com preços estratosféricos como também com subsídios ao papel, e sofre com o baixo número de livrarias e suas margens aviltantes de consignação, que não conseguem sobreviver mantendo estoques frente às grandes redes, que vendem basicamente livros didáticos e os best sellers que saem na imprensa, que escreve basicamente sobre best sellers e sobre os lançamentos das editoras que melhor divulgam seus títulos, e assim por diante. Um ciclo vicioso que parece nunca ser quebrado, deixando de lado livros baratos, sem capas vistosas, autores novos - e lamentavelmente, a literatura infantil (quando você viu num caderno cultural, com destaque, a resenha de um livro infanto-juvenil que não seja Harry Potter?)

      É, sim, muito desanimador…

    • 4 Evandro // 27 2 2008 às 12:12

      Olá Suzana! Você tocou no ponto central, na minha opinião, “Os pais, sem dinheiro, vendiam os livros para comprar comida, fraldas, gás.”

      Só que eu vejo mais, os pais com dinheiro também não estão cuidando dos seus filhos. Quero evitar entrarmos em um debate filosófico aqui mesmo porque vou escrever sobre isso no meu blog. Eu trabalhei com educação minha vida toda e agora estou tentando ganhar a vida com blogs, só que sem falar de BBB e Playboy com mulher pelada não tenho tanta visita assim, nada contra quem fala, tem espaço e mercado para todos, o problema é que eu não gosto de falar sobre esses assuntos, gosto de mulher pelada ;) mas não ao ponto de colocar isso em meus blogs entende? Acabei misturando blogs com livros mas acho que os temas podem se encaixar.

      Tenho uma filha de 8 anos e ela come livros infantis e sabe qual o problema que estamos enfrentando, acabou… tá difícil encontrar novos e bons livros para essa idade. Claro que ela não leu todos os livros disponíveis, mas ela tem seu gosto e realmente está difícil.

      Editoras querem lucros, aceito isso também, sou um capitalista, e as informações que você passou mostram bem isso. Só que os temas, como nos livros você citou Harry Potter em livros e Playboy em Blogs são muito similares. (Afff escrevi demais, me desculpem.)

    • 5 daisy // 27 2 2008 às 17:10

      Nunca tivemos uma cultura ‘cultural’. Depois do séc. XIX o homem ocidental aprendeu, de certa forma, a ler.
      Ale, posso entender sua ânsia, que também é a minha. Porém, neste momento tecnológico, o melhor mesmo é deixar os clássicos de lado e fazermos, nós, a nossa parte. Aliás vc já faz sua parte. Neste blog, qualquer pessoa lê a respeito de Shakespeare e ‘afins’, além de degustar novidades, sempre de cunho cultural, jornalístico e educativo.
      Tudo bem. Os livros são nosso fetiche intelectual. Mas se tudo começou em tábuas de argila (?), penso que devemos reler algo que se resume em apenas trocarmos informações.
      Mas sou a favor dos livros. Sempre!
      Parabéns, Ale. Você acerta sempre :)
      Beijo!

    • 6 Thássius V. // 27 2 2008 às 22:08

      Eu considero o preço do livro importante sim. Por exemplo, eu adoraria comprar muito mais livros do que já tenho.

      No entanto, aqui no Brasil livro é coisa ‘chique’. A capa é bem trabalhada, o papel é de primeira qualidade. Na Alemanha um livro tem papel de qualidade inferior, é amarelado, a capa não tem desenhos e mais desenhos. Isso se resulta em um preço mais acessível. Livro lá é mais barato, e ainda temos que considerar o padrão de vida, que é mais elevado.

      Surpreendeu-me, quando estive no país, que meu primo de quatro anos já tinha dezenas de livros. Todos infantis, mas minha tia - que também ama a leitura - que era assim que os educadores (E PAIS!) estimulavam a leitura desde cedo nas crianças.

      Um belo exemplo a ser seguido. No entanto, enquanto as crianças brasileiras passarem fome, a cultura de ler estará anos-luz distante delas.

    • 7 ana lucia // 28 2 2008 às 11:26

      Acho que livros baratos atraem pessoas que já gostam de ler. O Brasil vai passar a ser um país de leitores quando o livro for visto como uma diversão, um prazer. No momento leitura não é prioridade. Um abraço.

    • 8 Thássius V. // 28 2 2008 às 11:28

      O livro acaba sendo considerado burocracia chata de escola só para passar de ano. É “obrigação”, e não “prazer” (como bem disse a Ana Lucia aí em cima).

    • 9 vinicius // 29 2 2008 às 1:54

      corrente da esperança-brasil:
      “LEIA UM LIVRO POR UM BRASILEIRO ANALFABETO!”

      eu comecei, li “o filho eterno” do tezza; …papai gosstô!

      e, claro, se você não ler um livro no lugar de um descamisado e não repassar essa corrente, seus dias de sarjeta começaram ;)

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