O padre precisa do demônio? As seguradoras precisam dos ladrões de carro?

12 2 2008 por Alessandro Martins · 5 comentários

Eu pensava justamente se as seguradoras de carro gostariam de que os ladrões de carro sumissem de repente.

Afinal, boa parte dos motivos pelos quais as pessoas fazem seguros de seus carros é por conta desses profissionais informais.

Existe uma relação de codependência - em que se misturam ataque, defesa, interesses e coisas que nem imaginamos - entre a indústria do seguro, bandidos, oficinas e polícia.

E forma uma engrenagem tão engrenhada que desfazê-la seria tarefa apenas para um Alexandre, o Grande, diante do Nó Górgio.

Um verdadeiro xadrez. Um sutil equilíbrio a que os proprietários de veículos só podem assistir.

E, sim, ter um seguro.

Então eu pensava sobre todas essas coisas quando abri sem intenção o livro Temporais, de Gibran Khalil Gibran, e deparei esta frase em que um demônio fala a um padre:

Há vinte e cinco anos, percorres estas aldeias para prevenir os homens contra minhas armadilhas, e eles compram tuas preleções com seu dinheiro e os frutos dos seus campos. Que outra coisa comprariam de ti amanhã, se soubessem que seu inimigo, o demônio morreu e que estão livres de seus malefícios?

Nâo sabes, em tua ciência, que quando a causa desaparece, as conseqüências desaparecem também? Como aceitas, pois, que eu morra e que tu percas, assim tua posição e o ganha-pão da tua família?

De fato, pode-se dizer que o padre não vende o medo do diabo, mas o amor de Deus. Ou que a seguradora vende a segurança e não o temor à perda de uma propriedade.

Tudo é uma questão de inverter o ângulo pelo qual se vê as coisas.

Mas - como se sabe - inverter o ângulo pelo qual se vê as coisas é um talento dos padres, dos demônios, das seguradoras e das grandes corporações em geral.

E lembre-se: don’t be evil.

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    Tags: O prazer de ler

    5 comentários até agora ↓

    • 1 Djabal // 12 2 2008 às 13:47

      Um dia saindo do almoço com meu pai, encontramos um cidadão (talvez) abrindo furtivamente a porta do carro. Eu me vi avisando, alucinado, ao meu pai do fato (como se ele não tivesse visto) do furto pelo larápio. Ele me respondeu: Vamos voltar para comer outra sobremesa.
      Como assim? disse.
      Deixe que ele faça o trabalho dele, ligaremos para a seguradora!!
      Foi uma das melhores lições que ele me deu.
      Abraços.

    • 2 J@de // 12 2 2008 às 15:24

      Por meu lado eu acho que o padre vende o medo do diabo, assim como a seguradora vende o temor da perda…
      Beijos!!

    • 3 Anny // 13 2 2008 às 18:26

      Isto mesmo. É tudo uma questão de ponto de vista. Chamado de P.V. em desenho…

    • 4 Ricardo // 13 2 2008 às 19:55

      Lembro uma vez que recomendei pra minha amiga não revelar o verdadeiro motivo quando fosse cancelar o seguro. Não que eu desconfiasse da seguradora, mas casos de roubo após o cancelamento são muitos, como se a Lei de Murphy neste caso fosse implacável. Bom … cancelei meu seguro e disse que iria vender meu carro e minha amiga caminhou com a humanidade: Fiquei um ano desprotegido e ela foi assaltada na garagem de casa na mesma semana.

    • 5 Lady Cronopio // 14 2 2008 às 7:27

      Excelente.
      E como se não bastasse, a lembrança de um ótimo livro.
      Você é de que planeta mesmo?

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