Moby Dick: que tal uma próclise no começo de um livro?

22 1 2008 por Alessandro Martins
· 3 comentários

A ênclise - quando o pronome oblíquo aparece depois do verbo - cabe bem para o sotaque português. Nele, as sílabas átonas quase desaparecem.

Os mes, nos, lhes e demais sumiriam no início de frases.

Mas, para o sotaque brasileiro, a regra que impede que se coloque o pronome no começo de sentenças não faz o menor sentido.

Elas são perfeitamente pronunciadas.

Os modernistas brasileiros já sabiam disso desde a década de 20. Porém ainda hoje é preciso enfrentar os gramáticos mais sisudos.

Me corrija se quiser perder seu tempo.

Sérgio Rodrigues, do blog Todoprosa, propôs então uma tradução interessante para o primeiro parágrafo de Moby Dick, de Herman Melville:

Me chamem de Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo.

Rodrigues propõe então que se comece não uma oração com um pronome oblíquo. Mas um livro inteiro.

Normalmente, os tradutores iniciam a narrativa com coisas como “Chamai-me Ismael…” e quetais. Numa inspiração um tanto bíblica talvez.

Só achei que o termo aquoso, teria ficado melhor como líquido. Já que é para simplificar.

Mas não me meto, pois pouco entendo de tradução e ele deve ter tido seus motivos.

Você vai gostar...

  • Tradução de Ficções de Jorge Luis Borges, por Carlos Nejar: o melhor livro em língua portuguesa?
  • Deparei um texto de Alexandre Soares Silva, sobre Jorge Luis Borges. Ele fala de seu relacionamento, como leitor, com o autor. Lá, encontro um trecho que me chamou a atenção justamente
  • Submarino também é cultura: curiosidade sobre tradução de Moby Dick
  • Eu estava olhando a página de venda da nova edição de Moby Dick e descobri na sinopse oferecida pelo Submarino um fato curioso quanto ao texto original e à tradução: Um

    Reinações de Narizinho Tom Sawyer Deixa o Alfredo Falar!

    Clique nos livros para comprar. Quero ver mais indicações.

    Tags: O prazer de ler · Tradução

    3 comentários até agora ↓

    • 1 Diego // 24 1 2008 às 10:17

      Parece-me que é o contrário… Próclise é quando o pronome vem na frente, ênclise quando ele vem depois e mesóclise quando ele fica no meio.

      O que não invalida o argumento, é claro.

    • 2 Marcelo // 27 1 2008 às 11:26

      Diego, há um pequeno espaço de concordância na sua reciclagem.
      Moby Dicy, pesou a conciência, naufragou a semelhança da sintaxe, que poderia distribuir o primordio da escrita.
      “Me dê um tempo”, “Faz me um favor”, ufa!, isso não é legal.
      Amanhã, quem sabe, eu aprendo recitar uma bela canção.

    • 3 João Varella // 6 2 2008 às 17:59

      Sim, sim, sim

      Absolutamente de acordo

      Isso poderia ser um tópico daquela tal unificação da língua portuguesa. Pow, já que vão mudar dos dois lados, por que não aproveitar para modernizar?

      Mas a coisa está mais enrolada do que declamar aquela comovente história dos três tristes tigres no trigo treze vezes.

    Deixe um comentário