A ênclise - quando o pronome oblíquo aparece depois do verbo - cabe bem para o sotaque português. Nele, as sílabas átonas quase desaparecem.
Os mes, nos, lhes e demais sumiriam no início de frases.
Mas, para o sotaque brasileiro, a regra que impede que se coloque o pronome no começo de sentenças não faz o menor sentido.
Elas são perfeitamente pronunciadas.
Os modernistas brasileiros já sabiam disso desde a década de 20. Porém ainda hoje é preciso enfrentar os gramáticos mais sisudos.
Me corrija se quiser perder seu tempo.
Sérgio Rodrigues, do blog Todoprosa, propôs então uma tradução interessante para o primeiro parágrafo de Moby Dick, de Herman Melville:
Me chamem de Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo.
Rodrigues propõe então que se comece não uma oração com um pronome oblíquo. Mas um livro inteiro.
Normalmente, os tradutores iniciam a narrativa com coisas como “Chamai-me Ismael…” e quetais. Numa inspiração um tanto bíblica talvez.
Só achei que o termo aquoso, teria ficado melhor como líquido. Já que é para simplificar.
Mas não me meto, pois pouco entendo de tradução e ele deve ter tido seus motivos.




3 comentários até agora ↓
1 Diego // 24 1 2008 às 10:17
Parece-me que é o contrário… Próclise é quando o pronome vem na frente, ênclise quando ele vem depois e mesóclise quando ele fica no meio.
O que não invalida o argumento, é claro.
2 Marcelo // 27 1 2008 às 11:26
Diego, há um pequeno espaço de concordância na sua reciclagem.
Moby Dicy, pesou a conciência, naufragou a semelhança da sintaxe, que poderia distribuir o primordio da escrita.
“Me dê um tempo”, “Faz me um favor”, ufa!, isso não é legal.
Amanhã, quem sabe, eu aprendo recitar uma bela canção.
3 João Varella // 6 2 2008 às 17:59
Sim, sim, sim
Absolutamente de acordo
Isso poderia ser um tópico daquela tal unificação da língua portuguesa. Pow, já que vão mudar dos dois lados, por que não aproveitar para modernizar?
Mas a coisa está mais enrolada do que declamar aquela comovente história dos três tristes tigres no trigo treze vezes.
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