O imaginário popular consagrou a figura de Hamlet declamando o monólogo do Ser ou Não Ser (Ato 3, cena 1 - Hamlet) com um crânio na mão.
Na verdade, são duas cenas diferentes.
No momento do famoso solilóquio, Hamlet não segura necessariamente nada. Eventualmente uma adaga. Necessariamente, suas dúvidas existenciais.
Hamlet segura sim um crânio nas mãos na cena do cemitério, apenas no quinto ato.
Aliás, o coveiro dessa cena é daquelas figuras cômicas que sempre acabam aparecendo aqui e ali nas peças de Shakespeare. Na versão cinematográfica de Kenneth Branagh, é desempenhada por Billy Crystal.
Para mostrar isso, separei duas cenas extraídas da versão cinematográfica estrelada e dirigida por Sir Laurence Olivier.
Primeiro o monólogo:
Depois a cena do cemitério:
Eis o que ele diz à caveira:
Pobre Yorick! Conheci-o, Horácio; um sujeito de chistes inesgotáveis e de uma fantasia soberba. Carregou-me muitas vezes às costas. E agora, como me atemoriza a imaginação! Sinto engulhos. Era aqui que se encontrávamos os lábios que eu beijei não sei quantas vezes. Onde estão agora os chistes, as cabriolas, as canções, os rasgos de alegria que faziam explodir a mesa em gargalhadas? Não sobrou uma ao menos, parar rir da tua própria careta? Tudo descarnado! Vai agora aos aposentos da senhora e dize-lhe que embora se retoque com uma camada de um dedo de espessura, algum dia ficará deste jeito. Faze-a rir com semelhante pilhéria.




4 comentários até agora ↓
1 Djabal // 26 12 2007 às 9:07
Um dia li de um comentarista famoso que Hamlet é o personagem mais inteligente da literatura. Cada dia que passa, lendo e relendo, segundo as diversas visões, tenho uma indefinível tendência a concordar com o comentarista. Até agora, a minha vaidade, não havia me permitido concordar com a descoberta. Desisto; ele é de fato o mais inteligente.
Grande abraço, e feliz novo ano.
2 Lady Cronopio // 26 12 2007 às 9:56
Que presente!
Ver Sir Lawrence nesta interpretação… que cena, que cena!
A gente chega a esquecer das otras 70 e tais refilmagens de Hamlet.
Nunca se verá um ator com este para o textos do bardo.
Kenneth que me desculpe.
Enfim
(suspiro…)
Valeu!
3 _Maga // 26 12 2007 às 12:02
Semana passada fui ver uma peça da Cia Funcart (Londrina). “Lembra”, era o nome da peça, e como era toda baseada em “metateatro” em vários momentos era entrecordada por trechos de outras peças… lá pelas tantas havia um monólogo de Hamlet.
Para mim foi uma surpresa! Li esta peça aos 14 anos, e tive alguma dificuldade, em especial por não estar, na época, habituada a ler teatro (coisa que estou sanando de duas formas: uma é lendo peças, e a segundo é indo ao teatro. Esse ano vi mais de 40 peças, talvez 50, não fiz as contas ainda… rs).
Mas afinal, sua enrolona, qual foi a surpresa?
A frase: dormir, dormir, dormir… talvez sonhar. Há anos a procurava, pensava ser de Pessoa, mas nunca encontrei nada. Cheguei a conclusão de que deveria ser minha (hahahaha), e a usei em um post recente no blog.
Shakespeare, sempre surpreendendo. rs
Infelizmente a única montagem de Hamlet que consegui ver até hoje foi no Filo do ano passado, Ha-hamlet, de uma compania Dinamarquesa… mas era comédia! (e em alemão, francês e ingles! hahahah)
Um abraço
4 Anny // 27 12 2007 às 8:12
Oi Alessandro:
Outro dia, vi na TV Brasil (TVE) uma entrevista mostrando que ler peças é só uma questão de hábito. Deve ser mesmo. Depois fica mais fácil e podemos nos aventurar mais…
Gosto de ler seus posts, porque me fazem ficar interessada, em assuntos que não era antes.
Obrigada!
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