Horácio não é o único sobrevivente dentre os personagens principais de Hamlet, ao final da peça, à toa.
Não foi apenas para que houvesse alguém para contar a história.
Quem recebeu o conquistador Fortimbrás em Elsinore?
Horácio.
E, ao ser indagado pelo guereiro que chega ao palácio desejoso de vingança pela morte do pai provocada, por sua vez, pelo pai de Hamlet, responde: “O que é que esperavas ver? Se é um quadro de horror e infelicidade não procures mais.”
Será que só eu noto uma pontinha de culpa e também uma certa pré-suposição do que Forimbrás deveria ver ao chegar nessa declaração?
Porém, voltemos às cenas iniciais.
Hamlet é chamado a um local sombrio e nebuloso, tarde da noite, para assistir a um suposto fantasma de seu pai, que clama por vingança e que, assim, depois de um triplo juramento, desencadeia todos os eventos que terminam na morte de toda a família real.
Quem está com ele nessa cena?
Exato.
Horácio, seu fiel amigo.
Conhecedor de todas as fraquezas de Hamlet, de sua tendência à depressão e com grande influência sobre o temperamento apaixonado e arrebatado do príncipe.
E os dois guardas que, para dar mais autenticidade à lorota do fantasma, nada sabiam sobre o plano.
Inclusive foram enganados de início, durante várias noites, para melhor preparar o terreno para a vítima principal.
O papel de fantasma foi, naturalmente, desempenhado pelo ator da companhia que, mais tarde, se apresentaria para a corte e cujas qualidades chegaram a ser exaltadas pelo inocente e manipulável Hamlet.
Vamos convir que sustentar uma acusação de assassinato na evidência de um fantasma e, a seguir, na reação do suposto assassino diante de uma peça de teatro que - nas fantasias da mente de Hamlet - reproduz o crime, não é das melhores metodologias. Nem das mais espertas.
Horácio, no entanto, sabia que seu amigo agiria dessa maneira alucinada e um tanto tola.
A partir desse ponto, foram suficientes os empurrõezinhos discretos de Horácio e de sua presença malévola e silenciosa, aqui e ali, para que a trama se urdisse e se desencadeasse como planejado.
Mesmo o fato de Hamlet ter escapado da morte na Inglaterra foi providencial, pois, se ele lá tivesse sido executado, o plano não teria dado certo e Horácio não teria conseguido entregar a Dinamarca a Fortimbrás como acontece na cena final.
Eis de onde vinha o cheiro podre que sentia Hamlet.
Vinha de sua direita.
Proponho que você leia a peça Hamlet, o Príncipe da Dinamarca com essa perspectiva paranóica e me ajude a encontrar mais evidências da culpa de Horácio.




4 comentários até agora ↓
1 Claudya // 22 12 2007 às 8:23
Alessandro, eu só li ‘Ricardo III’ e ‘A Megera Domada’, é do ‘Hamlet’ a famosa frase ’ser ou não ser?’. Passei prá deixar um Feliz Natal e um ótimo 2008 prá vc!!!!! Bjs
2 Lady Cronopio // 22 12 2007 às 10:36
E precisa, caríssimo?
Esta sua visão objetiva encerra o assunto.
O resto é silêncio.
3 _Maga // 25 12 2007 às 17:54
Já disse em outro comentário, mas repito aqui o quão grande é a minha felicidade ao ver você se dedicando mais à literatura, novamente.
um abraço
4 Régis // 26 12 2007 às 13:30
Gostei Alessandro!
Obrigado por atender ao pedido no meu último comentário publicando este artigo. Creio que poderemos encontrar mais evidências ao longo da obra. O que me chamou atenção foi o fato dessa não ser uma visão ortodoxa e batida sobre o principe da Dinamerca. É uma leitura diferenciada e bem aberta, colocando Horácio próximo de personagnes como Iago (Othello), afinal “existem mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor nossa vã filosofia”. Feliz 2008 !
Abraços!!!
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