Uma definição de imaginação, por Machado de Assis

12 12 2007 por Alessandro Martins
· 5 comentários

Continuo a ler, via e-mail, o livro Dom Casmurro, de Machado de Assis. Eu o tenho recebido capítulo a capítulo, às segundas, quartas e sextas, graças aos infalíveis serviços do site Leitura Diária.

Reler esse romance em um meio tão invulgar tem me feito descobrir coisas novas, coisas que antes haviam passado despercebidas ao meu olhar de, então, adolescente.

Eis, por exemplo, esta definição de imaginação dada por Bentinho, no capítulo 40:

A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo. Creio haver lido em Tácito que as éguas iberas concebiam pelo vento; se não foi nele, foi noutro autor antigo, que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. Neste particular, a minha imaginação era uma grande égua ibera; a menor brisa lhe dava um potro, que saía logo cavalo de Alexandre.

Não a toa ele se preocupava por demais onde Capitu apascentava seus rebanhos e onde os recolhia ao meio-dia.

Por essas e outras, considero que Dom Casmurro não é o romance sobre a traição ou a não traição ou da infidelidade, mas sim o romance da imaginação. A imaginação e os fantasmas de Bentinho.

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    Tags: O prazer de ler

    5 comentários até agora ↓

    • 1 Fanny Webber // 12 12 2007 às 7:03

      Chuvendo no molhado: Dom Casmurro é uma das maiores obras literárias. Pena que sempre resolvem fazer umas adaptações meio estranhas, como o fime DOM.

    • 2 Lady Cronopio // 12 12 2007 às 10:26

      Como disse Fanny… Chover no molhado, mas que é chuva boa, isso é!
      E já encomendei minha releitura no site: A Igreja do Diabo.
      Maravilha de post, Alessandro

    • 3 Marco // 12 12 2007 às 15:04

      Afinal de contas, Bentinho é o narrador do livro e todos os fatos que ele descreve são reflexo de seu ponto de vista, que podem muito bem ser fruto de sua imaginação. Dizem que Machado de Assis escreveu o livro baseado em Otello, de shakespeare… Abraços

    • 4 _Maga // 13 12 2007 às 13:32

      Escrevi um microconto (com limite de 50 letras, neste caso) sobre este livro outro dia:

      Dom Casmurro

      Traiu-me? Julguei-a culpada. Escrevo para convencer-me (te).

      Um abraço

    • 5 _Maga // 14 12 2007 às 8:11

      Olá Alessandro,

      o que eu quis expressar no micro conto é que o Bentinho fez um julgamento baseado na sua visão. Mas o Dom Casmurro (o Bentinho mais velho) sente muita culpa por isso, apesar de continuar achando que sua visão está certa. Então ele resolveu escrever um livro para convencer mais gente da sua visão (sem testemunhas) e convencer a si mesmo. Como não temos testemunhas e os fatos as vezes são amarrados de forma artificial pelo ciúme, e outras as explicação são deveras convencentes, ficamos sempre na dúvida… Contudo, como disse logo a acima, o simples fato de não haver outras testemunhas e ele ser o principal envolvido, já serio o suficiente para não confiarmos muito nele - que pode ou não estar certo, mas se a dúdiva fica é óbvia porque é tão fácil se convencer da traição da Capitu?. Ai é importante lembrar de algo que as vezes passa despercebido: Dom Casmurro é advogado. Advogado e ex-seminarista, profissões em que o dominio da retórica é imprescindivel. A habilidade de contar histórias e amarra-las para que no fim consiga-se o efeito desejado é muito valorizada em ambas.

      Oras! Continuaremos na dúvida. Porém, agora, temos consciencia da habilidade do autor em arrumar os fatos para deixar do jeito que é preciso para que os argumentos dele ganhe peso é muito grande. Não é apenas o ciúme a sua arma.

      A dúvida persiste e sempre persistirá. Ainda bem!

      Na UEL um graduando em direito defendeu um TCC em que ele provava que a Capitu era culpada.

      A Lygia Fagundes Telles fala do Dom Casmurro neste link:

      http://www2.uol.com.br/entrelivros/podcast/machado_de_assis_o_mestre_dos_veus_-_trecho_2.html

      (no primeiro trecho desta mesma entrevista ela fala do seu derradeiro encontro com Jorge Luís Borges… :) )

      Um abraço (preciso re-ler este livro rs)

      Alessandro Martins escreveu:

      Resumiu bonito. O livro não passaria de uma dor-de-corno psicossomática ou coisa assim.

      Em 13/12/07, _Maga escreveu:
      Comentário novo em seu artigo #854 “Uma definição de imaginação, por Machado de Assis”
      Autor : _Maga (IP: 189.6.205.52 , bd06cd34.virtua.com.br)
      Email : marortolan@yahoo.com.br
      URL : http://metamorfosepensante.wordpress.com
      Whois : http://ws.arin.net/cgi-bin/whois.pl?queryinput=189.6.205.52
      Comentário:
      Escrevi um microconto (com limite de 50 letras, neste caso) sobre este livro outro dia:

      Dom Casmurro

      Traiu-me? Julguei-a culpada. Escrevo para convencer-me (te).

      Um abraço

      ps.: esse trecho que vc separou é muito bom! Boa pescada! ;)
      ps2.: fico feliz de ver você novamente comentando livros… :)

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