Uma das piores pragas trazidas pela internet - entre as muitas coisas boas que trouxe, admitamos - foi a atribuição equivocada de autoria ou a sua não atribuição.
Sabe aquele texto que começa assim? “Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.”
Não é de Drummond.
Ter ou Não Ter Namorado é de Artur da Távola.
O blog Autor Desconhecido, de Vanessa Lampert, joga um pouco de luz sobre autorias falsamente atribuídas.
Creio as maiores vítimas desse mal atualmente são Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Arnaldo Jabor, Shakespeare e Luis Fernando Veríssimo, mas certamente há outros.
E o problema provavelmente venha de uma mistura fabulosa de fatores:
- má fé
- boa fé
- exercício facilitado da ignorância pela internet, bem como sua propagação
- falta de interesse verdadeiro em relação ao texto propagado
Debata isso no fórum
Autores antigos e contemporâneos são vitimados, para tristeza e irritação dos leitores que conhecem suas obras. Infelizmente, o blog de Vanessa Lampert está meio parado e, como acho que cada vez mais isso será um problema:
- Para debater o tema da atribuição de autoria errada, criei o fórum Autor Desconhecido Não Existe.
- Sempre que você encontrar um poema cuja a autoria acredite estar equivocadamente atribuída, pode iluminar o caso abrindo um novo tópico (Se você ainda não é membro, registre-se).
A mais famosa atribuição equivocada de autoria
Creio que a atribuição errada mais famosa é a de Instantes, poema que começa assim:
Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais, seria
mais tolo do que tenho sido.
Já vi o Tony Ramos recitando o poema no Vídeo Show, da Globo, todo gabola, certo de que se tratava de uma obra de Jorge Luis Borges.
Eu mesmo cheguei a ter um cartaz de um laboratório, com esse poema impresso colado na porta do quarto quando adolescente.
Depois descobri que, na verdade, ele é de autoria de Nadine Stair.
Errado.
É do escritor e humorista Don Herold, nascido em 1889, morto em 1966.
Pelo menos até prova em contrário.



12 comentários até agora ↓
1 Sérgio Grigoletto // 15 11 2007 às 11:26
Eh, Alê, postagem mais bem sacada essa! Eu também sou encabulado com isso, e encontrar origens de obras atribuidas.
E são muitos os casos, né? Tem um poema que rolou pelas listas de e-mail, atribuido a autor famoso, quando na verdade, é de autor pouco conhecido. (Vou pesquisar para relembrar, depois volto para postar)
Numa postagem, lembrei de uma citação “O mineiro é solidário só no câncer”, que já percorri com sendo de Nelson Rodrigues, Sérgio Porto e Otto Lara Rezende. A história ainda não definiu de quem é.
Abraços!
Sérgio
2 _Maga // 15 11 2007 às 13:29
Um livro que pode ajudar no assunto é: Caiu na Rede da jornalista Cora Ronai.
Um abraço
3 Oº°'¨ Jefferson ¨'°ºO // 15 11 2007 às 13:31
O texto do Arthur da Távola eu já sabia quando recebi ele por email dizendo que era do Drummond. Logo eu que já havia lido um monte de Drummond sem notar algo parecido no meio. Fui pesquisar na net e caí exatamente no mesmo lugar que vc caiu: o blog do Autor Desconhecido.
Tanto concordo com a Vanessa e contigo que passei a publicar os texto completos com a autoria correta em meu blog e divulgá-los em minha lista de contatos para ver se ao menos os ao meu redor se toquem da fraude.
Hj os textos mais atribuidos falsamente vão para Pessoa, Drummond, Jabor, Verissimo e assim em diante.
1 abraço.
4 daisy // 15 11 2007 às 16:58
Well…
Desta vez achei que vc, Ale, mexeu em casa de marimbondo.
Nosso amigo Jeff e outros deram seu parecer, numa tentativa de discutir algo que ao meu ver representa uma rua sem fim.
Vejam como exemplo a pirataria tecnológica: muito barulho por nada.
Não sei se vc Ale, poderia concordar comigo, já que falo de algo que falaram para mim: consta nos escritos mais antigos (vindos de longe) que o homem passaria por tal constrangimento, ou seja, sempre esteve insinuado e diagnosticado por vias as mais estranhas, que nossa inteligência e/ou criatividade artística são um empréstimo divino.
Eu não sei bem, mas ao ler teu artigo e do Daniel Lopes outro dia, quedo-me a acreditar na mais fácil teorias de todas: nada nos pertence, nada foi feito por nós.
Então, por que deveríamos começar uma estafante discussão sobre autorias se nem mesmo sabemos de onde viemos… e por onde começaríamos buscar o caminho de volta?
Se vcs analisarem bem, sem medo de Drummond ou Pessoa, talvez num futuro próximo, as pessoas dariam mais atenção aos blogs do Ale e do Jefferson… Enfim, é apenas uma tentativa de me unir ao óbvio: as coisas mudaram e seguem rumo ao desconhecido.
Eu, Daisy, li coisas de Ale e Jefferson. Posso garantir que toparia manter este debate porque assumo, no ar, que muito mal me causa este mito de “Este é do escritor..”
E… se nem Pessoa conseguiu explicar a ‘não autoria’ através de seus heterônimos…
5 ana // 15 11 2007 às 18:30
Dia desses recebi um “powerpoint” com uma mensagem atribuida a Garcia Marquez, que eu tenho certeza que não era dele. Acho que quando a gente pega um livro para ler, está indo atrás de uma característica própria daquele autor, né não? Abraço.
6 Anny // 15 11 2007 às 18:39
Oi Alessandro:
Que bom! Colocou um fim nisto. Já estava agoniada. Concordo com você, Autor Desconhecido, não existe. Pingo nos is.
7 Sergio Grigoletto // 15 11 2007 às 19:42
Alê!
Encontrei! Veja, o sexto texto dessa página, de título “Solidão”:
http://www.revista.agulha.nom.br/fatimairene1.html#solid%E3o
Depois, procure no Google, por ele, tipo digitando seu primeiro parágrafo, para ver quantas vezes está publicado como sendo de Chico Buarque. Milhares de vezes!
Interessante, é que o site do Jornal da Poesia tinha publicado um desagravo com respeito a isso em suas páginas. Não sei porque não mais encontrei. E nem nada também, no site da autora, em http://www.fatimairene.com/
A Fátima é ótima autora, poemas de qualidade e pelo que lembro do lido no site Jornal da Poesia, nem tinha sido ela quem estrilou, mas um fâ.
Não caberia um contato e entrevista?
Há casos de querer ser lido, em que autores colocam autoria de famosos em seus textos, mas não foi o caso de Fátima.
Interessante né?
Abraços!
Sérgio
PS: Se conseguir a entrevista com a Fátima, será fenomenal.
8 Thássius // 15 11 2007 às 21:02
O Da Távola é colunista dO Dia aqui do Rio (salvo engano) e tem umas crônicas realmente brilhantes. Outras nem tanto… :)
9 daisy // 16 11 2007 às 10:07
Ana, o prof Tadeu Capristano, doutor em Cinema e Novas Linguagens, dentre outras cadeiras, da Faculdade Estácio de Sá (meu professor) trouxe à tona uma estranha e lúcida reflexão sobre este tema dis destes. Ele disse que esta característica de procurarmos pelo autor e não por um livro, leva-nos, muitas vezes a um engodo e nem percebemos (não mesmo) que compramos o autor e que muitas vezes o livro não é bom, porém a mídia contemporânea faz-nos crer que estamos consumindo algo excelente.
Para mim esta coisa de “estou lendo Fulano de Tal” soa mesmo limitado. Para as editoras e livreiros é bom e lucrativo, mas para nossas cabeças deve ser algo que deixa parado o cérebro, até porque a tendência muitas vezes é que o autor torne-se repetitivo.
Ele ainda discute a questão da não possibilidade de termos acesso a novos pensamentos porque mitificamos e consagramos meia dúzia de escritores num total de milhões de outros escritores e pensadores mundo a fora.
Talvez uma antiga estratégia de manter o homem sob controle intelectualmente para servir a um Sistema muito sombrio.
10 k // 16 11 2007 às 18:20
por que essas pessoas, se acham o texto tão bom, não assinam embaixo?
normalmente, esses textos vêm com erros que machucam qualquer olhar minimamente educado. e isso não é nem querer ser pedante ou sei lá. mas eu fico puta com certos textos atribuídos a drummond com erros grosseiros.
poderíamos cair na discussão sobre o que é um erro, na questão de que, no fim, é tudo produção de uma cultura, numa determinada época. mas eu, confesso, não sou tão evoluída assim e isso tudo me incomoda.
até pq essas pessoas atolam as caixas de entrada com arquivos de pps com fotos da anne guedes e os tais textos… afe…
11 daisy // 17 11 2007 às 10:56
K
O problema é que talvez não estejamos preparados para estas dificuldades na net.
A internet é Deus e o Diabo.
Então para quem como nós que apreciamos, por exemplo, Drummond, existem sites sérios e oficiais. E livros de papel, graças a Deus.
E não creio ser tão difícil reconhecer um erro grosseiro diante de um Drummond ou seja quem for.
Mas a tendência é a blogsfera ser respeitada como nos países de língua inglesa. E pessoas como o Ale e vc podem se considerar pioneiros nesta busca sensata da seriedade na net.
Mas no fundo nada disso é tão importante.
12 Cristina L. // 18 11 2007 às 20:15
Recebi uma vez um texto criticando o Lula, super-facista, assinado pelo Luís Nassif. Mandei pro e-mail dele na Folha, que me confirmou estar procurando pra processar o responsável. Fiz o mesmo (alertar o autor) com o Joelmir Beting, com um texto também muito preconceituoso e cheio de erros. O assessor disse também que era um caso antigo e que de vez em quando volta a ser repassado. Nem sou fã, mas deu pra notar a falsidade pelo estilo.
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