Não pude deixar de reproduzir este trecho de Dom Casmurro, que por si só, é engraçado:
Em caminho, encontramos o Imperador, que vinha da Escola de Medicina. O ônibus em que íamos parou, como todos os veículos; os passageiros desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche imperial passasse. Quando tornei ao meu lugar, trazia uma idéia fantástica, a idéia de ir ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não confiaria esta idéia a Capitu. “Sua Majestade pedindo, mamãe cede”, pensei comigo.
Não pude deixar de rir à imagem de um Bentinho, ainda moleque, pedindo ao Imperador para que interviesse perante sua mãe, na esperança de que não precisasse se tornar padre e que, assim, pudesse namorar Capitu.
Ainda mais assim: “Sua majestade pedindo, mamãe cede”…
Creio que não estarei mentindo se disser que cada um de nós já não sonhou com um momento em que alguém, supostamente mais poderoso, fala por nós aquilo que nós mesmos deveríamos.
Adoro a forma como Machado de Assis olha com riso para as peculiaridades humanas.
O resto do trecho é ainda mais delirante, com o imperador entrando na casa de Bentinho, com direito a “batedores e piquete de cavalaria”.
Depois de todo esse idílio, relata o personagem ao final do capítulo:
Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos, até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus companheiros.
Nossa imaginação, de fato, por vezes faz das soluções mais delirantes as mais simples. Somos uns bentinhos.




4 comentários até agora ↓
1 _Maga // 14 11 2007 às 20:10
Machado de Assis.
Esse cara merece ser lido.
Alias, estou pensando sériamente em estudar ele na minha monografia da pós. (porque clichê pouco é bobagem rs)
beijos
2 Anna // 14 11 2007 às 20:54
Oi Alessandro:
Estou com Contos Escolhidos de Machado de Assis. Vou começar a ler hoje.
Bjos
3 Alexandre Kovacs // 14 11 2007 às 22:02
Machado de Assis no insuperável livro do protagonista que é um defunto autor “Memórias Póstumas de Brás Cubas”:
“Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trápézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.”
O trecho acima descreve o momento da criação do emplasto anti-hipocondríaco Brás Cubas, “destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade”.
4 Lady Cronopio // 15 11 2007 às 7:48
De Assis é soberbo!
Não lembro que autor, ao instruir um iniciante quanto à forma de escrever, disse-lhe: “Escreva como Machado. Não como escrevia na sua (dele) época, mas sim como se Machado escrevesse hoje.”
Grande conselho e impossível realização…
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