O que faz o aprendizado morar na gente?

22 9 2007 por Alessandro Martins · 11 comentários

Aquilo que se aprende de fato, mais do que memorizado e lembrado, está incorporado, como se fizesse parte da carne.

Algumas das primeiras palavras que li foram ao lado de meu pai na legenda dos filmes estrangeiros a que ele me levava.

Aprendi porque desejava entender. O aprendizado está ligado ao desejo e à afetividade. E as primeiras palavras que aprendi a ler, embora não lembre quais sejam, é certo que não as esqueci.

O Sincero, do blog Oheremita, abriu um debate que considero importante com um artigo sobre métodos que ele considera úteis para melhorar o ensino.

E ele começa seu texto tocando em um ponto interessante e que, como você pode ter notado acima, me é caro:

Todos nós temos lembranças dos filmes que já assistimos, mesmo aqueles dos quais não apreciávamos o tema, entretanto não conseguimos lembrar das aulas que tivemos na escola, mesmo quando o tema era de nosso agrado. Imagine se a escola tornasse o ato de estudar tão agradável quanto o de assistir a um filme.

Eu concordo apenas em parte com a afirmativa.

Já assisti a - sem exagero - centenas de filmes. Lembro detalhadamente de uns vinte, podendo repetir algumas falas e dizer talvez o momento em que entra a trilha sonora.

Lembro vagamente de uns 100.

Saberia detalhes de algumas cenas de uns outros 100.

Do que se trata, uns 200 - porque são parecidos entre uns e outros.

E, na medida em que se avança, as lembranças vão ficando menos e menos vívidas.

Por outro lado, eu sempre gostei de matemática e sempre fui bom nessa matéria. Hoje, há quinze anos desde que apliquei minha última fórmula, durante um vestibular, pouco resta do que eu sabia sobre isso.

Os tais 50 filmes ficaram porque vieram ao encontro do que eu fui em algum momento da minha vida - e sou - e a matemática se foi porque deixei de ser algo que ela preenchia e não preenche mais, deixou não só de me ser útil, mas acima de tudo de me emocionar, de me divertir, de me emocionar. De ter significado afetivo.

Assim, se você está vivo e tem qualidade de vida sem algum dos conhecimentos que esqueceu do seu período escolar, esteja certo, você não precisa deles neste instante e, quase com certeza, foi uma perda de tempo ter de aprendê-los. Passar no vestibular nunca foi ou será uma boa razão.

O Sincero propõe - baseado nas suas observações cinematográficas - que a tecnologia fosse usada para aprimorar o ensino, uma vez que, no cinema, ela, a serviço dos sentidos, coloca o público dentro da ação.

Porém, acredito que nenhuma tecnologia do mundo será suficiente para me colocar dentro da ação se eu não tiver o desejo - mais uma vez essa palavra - de estar dentro da ação. Sem isso, sequer dentro da vida real alguém se coloca, alienando-se.

No ensino, quem desempenha esse papel de despertar o desejo ou, ainda melhor, entender o desejo dos alunos é o professor.

Dê uma sala holográfica a um mau professor e você terá mau ensino. Dê um quadro negro e um giz a um bom professor e você terá bom ensino.

As escolas não são chatas porque são desinteressantes em si, nos seus aparatos, mas porque poucas vezes têm conteúdo realmente interessante.

É preciso ter o que colocar dentro da sala de hologramas e é preciso alguém que saiba como colocar.

Recomendo a leitura da entrevista de Rubem Alves à Revista Época, Aprender Para Quê?.

Veja também:

  • A escola gerando traumas, no Bardo - assista ao vídeo: a parte em que o menino fala sobre ter aprendido a ler e, depois, ter aprendido a andar de bicicleta para poder ler coisas mais distantes diz tudo sobre ensino, desejo e afetividade.
  • Em resposta ao Oheremita, no Kurt Kraut

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    Tags: Livros e afins

    11 comentários até agora ↓

    • 1 Ivo Mortani // 22 9 2007 às 14:50

      Concordo com você Alessandro, o professor faz toda diferença. Para mim, isso ficou ainda mais claro depois que eu resolvi fazer mais uma faculdade.

    • 2 daniel // 22 9 2007 às 20:56

      É meu caro alessandro, como estudante sei bem o que é isso. Já tive professores de matérias com que não me identifico mas pelo modo como abordavam o tema acabei gostando da aula e aprendendo. Do mesmo modo, também já tive professores e matérias de que gosto mas que tinham aulas que me passaram em branco… Eu vejo a tecnologia como um recurso a mais(por exemplo um professor de biologia pode mostrar mais facilmente como é uma célula ao exibir filmes, fotos, etc), mas concordo que nada substitui um professor que disperte o interesse do aluno.

    • 3 k // 23 9 2007 às 1:06

      eu sempre achei que escola acaba com talentos. máquinas de nivelamento. por baixo.

      acredita que tô com um livro aqui na frente do notebook exatamente sobre aprendizado? verdade…

      minha memória pra filmes é péssima. não me lembro de nenhum. aprendo melhor com imagens estáticas (memória excelente pra eu saber onde que fulano deixou as chaves) e sons (por causa das línguas e da música talvez?).

      existem vários tipos de capacidade de aprendizado. se as escolas respeitassem isso num nível nem que fosse mínimo, acho que as elas seriam mais interessantes.

      minha motivação pra aprender sempre foi “ter alguém com quem conversar”. desde pequena. entrar na cabeça de quem escreveu aquilo ali.

    • 4 Anna // 23 9 2007 às 13:32

      Oi Alessandro:
      Adorei o post.O assunto é fascinante…
      O que faz a prendizagem morar na gente, é o desejo
      resolver situações.
      Consegui resumir?
      Abraço.

    • 5 Cintia // 23 9 2007 às 14:20

      Acho que uma série de fatores contribuem para isso. E, concordo com você, não há melhor ferramenta didática do que um bom professor, um professor motivado, um professor que gosta do que faz. E, se é assim, por que as escolas/governo (no caso das escolas públicas) costumam investir tão pouco nos seus recursos humanos? Pq mostrar um mooooonte de computadores num comercial chama mais a atenção? :P

    • 6 Djabal // 24 9 2007 às 16:28

      Vontade e curiosidade, são aliados do conhecimento. Creio que nos lembraremos mais dos professores mais criativos. E em seguida dos mais exigentes. Uma vez um deles me entregou uma prova com um papel higiênico na mão. Ao fazer a pergunta do porquê disso, você pode imaginar a resposta, não ?
      Nunca mais deixei de estudar aquela matéria. Tamanha a humilhação. Mexer com os brios também tem seu valor. Hoje eu repudiaria a conduta, na época ocorreu o oposto.
      Mas temos que ter criatividade para entusiasmar o aluno. Todos os métodos aliados são válidos.
      Ótimo tema.

    • 7 Dai // 24 9 2007 às 21:21

      Só passei aqui pra desejar feliz primavera e dizer que te amo!

      Beijos, amigão!

      (leio depois hehe)

    • 8 Rafael Pereira // 25 9 2007 às 0:19

      Do meu ponto de vista você está correto quando diz que o desejo tem papel importante na significação e na aprendizagem.

      Eu acredito que a emoção (e o desejo está aqui incluído), é a grande mola da aprendizagem.

      A emoção impulsiona o aprendiz a aprender, e essa está ligada ao modo como ele produz sua própria vida (trabalho).

      Assim também será com a tecnologia, ela ganha grande importância porque o setor produtivo a valoriza, os alunos e a escola tendem a achar que “dominando-a” terão melhores condições de melhor produzirem, materialmente, suas vidas, ou seja, melhorar de vida, ascender socialmente…

    • 9 Lady Cronopio // 25 9 2007 às 8:35

      Corretíssimo, Alessandro.
      Com emoção fica tudo redondo…

    • 10 Daniela // 26 9 2007 às 0:36

      Nossa, que bom esse texto. Eu estou estudando história-licenciatura e estou sempre em busca de alternativas para tranasformar as aulas em momentos atrativos, divertidos e sinceros. Lerei o texto indicado, com certeza. Mais uma vez, valeu a dica.

    • 11 _Maga // 12 10 2007 às 23:51

      Discordo.

      Sim, discordo.

      Com o método certo é possível ensinar qualquer coisa. Mas para que ela “fique” são necessários alguns requisitos. Boa parte destes requisitos também podem estar embutidos no método certo.

      Falar em desejo como uma entidade é perigoso, afinal a desejar também se aprende. Estranho? Pergunte a um publicitário… ;)

      beijos

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