Uma boa razão para o acordo ortográfico e por que ele é mal feito

2 9 2007 por Alessandro Martins
· 10 comentários

O leitor Ricardo Diogo, voluntário do projeto Gutenberg, deu um bom motivo para as mudanças advindas do acordo ortográfico firmado entre os países falantes da Língua Portuguesa e que devem acontecer em 2008. Mas um motivo para que elas fossem, ao menos, bem feitas.

O projeto Gutenberg, caso você ainda não o conheça, coloca online livros que já entraram em domínio público em diversas línguas para os leitores baixarem gratuitamente.

Com a palavra, Ricardo Diogo:

Sou voluntário do Project Gutenberg (www.gutenberg.org/pt) no qual, por questões de direitos autorais, apenas podemos utilizar edições anteriores a 1923. A ortografia de então é, em muitos casos, absolutamente diferente da moderna e temos de a a[c]tualizar.

Um Português uniforme permitiria poupar horas de trabalho pois deixaria de ser necessário fazer uma versão Brasileira e outra Portuguesa dos ebooks.

O Acordo Ortográfico facilita, mas está longe de ser perfeito (muito longe!). Vão manter-se as diferenças, por exemplo: académico/acadêmico, anatómico/anatômico, cénico/cênico, cómodo/cômodo, fenómeno/fenômeno, género/gênero, topónimo/topônimo, Amazónia/Amazônia, António/Antônio, blasfémia/blasfêmia, fémea/fêmea, gémeo/gêmeo, génio/gênio, ténue/tênue.

Na prática, continuará a ser necessário fazer uma versão BR e outra PT. É uma perda de tempo e de recursos.

Pessoalmente preferia que, nos casos em que a pronúncia BR e PT divergem, se grafasse uniformemente: acadèmico, anatòmico, cènico, còmodo, fenòmeno, gènero, topònimo, Amazònia, Antònio, blasfèmia, fèmea, gèmeo, gènio, tènue.

Seria muito fácil de fixar: sempre que o “o” ou o “e” acentuados aparecem antes de “m” ou “n”, levariam acento grave.

Tenho quase a certeza que daqui a 20 anos estaremos a assinar um novo Acordo só por causa disto.

E assim caminha a humanidade, meus caros. Sempre fazendo as coisas pela metade. Isso, por sinal me faz lembrar de um belo poeminha do francês Jacques Prevért, autor infelizmente não tão conhecido:

O Gato e o Pássaro

Uma aldeia ouve desolada
O canto do pássaro ferido
É o único pássaro da aldeia
E foi o único gato da aldeia
Que o devorou por metade
E o pássaro deixa de cantar
O gato deixa de ronronar
E de lamber o focinho
E a aldeia faz ao pássaro
Um funeral maravilhoso
E o gato que foi convidado
Segue atrás do pequeno caixão de palha
Onde o pássaro morto vai estendido
Levado por uma menina
Que não pára de chorar
Se soubesse que isso te deixava tão triste
Disse-lhe o gato
Tinha-o comido inteiro
E depois contava-te
Que o tinha visto partir a voar
A voar até ao fim do mundo
De onde tão longe que é
Nunca ninguém volta
Seria para ti um desgosto mais pequeno
Unicamente tristeza e saudades

Nunca se devem deixar as coisas a meio.

Você vai gostar...

  • Aviso sobre o acordo ortográfico: eu escrevo do jeito antigo
  • Este blog não adotará a nova ortografia. Continuará a ser escrito com os erros antigos mesmo. Só mudará se receber um comunicado do Gramático Oficial do Rei. Como esse negócio não existe, bem... ...
  • Poltrona feita DE livros
  • Você já viu por aqui poltronas e cadeiras para ler mais confortavelmente, poltronas e cadeiras que servem para guardar livros, mas você nunca tinha visto uma que era feita DE

    Ilusões Perdidas O Gosto da Guerra Fetiche: Moda, Sexo e Poder

    Clique nos livros para comprar. Quero ver mais indicações.

    Tags: O prazer de ler

    10 comentários até agora ↓

    • 1 Marco Carvalho // 2 9 2007 às 14:33

      Dale alê ou será alé?! eheheh

      No caso dos acentos agudos e circunflexos se a pronúncia diverge mas há um consenso de que antes de n ou m sempre levaria o mesmo acento, pergunto eu: para que o acento? :)

      Abraços

    • 2 Carla // 2 9 2007 às 14:43

      As duas línguas são tão belas em suas paticularidades… pessoalmente, e creio já tê-lo afirmado aqui, me parece besteira unificar à força duas línguas e diversas culturas diferentes.

      Não duvido que o próximo passo seja propor uma língua comum aos falantes do espanhol e do português; ou, quem sabe, uma volta ao latim. Facilitaria muito a vida: brasileiros, portugueses, espanhóis, argentinos, uruguaios, franceses e todos outros escrevendo da mesma forma.

      Francamente.

    • 3 Ricardo F. Diogo // 2 9 2007 às 15:46

      Obrigado, Alessandro, pelo destaque.

      Marco Carvalho: concordo consigo. É um dos casos em que até se podia retirar o acento. Mas como sei que os nossos entendidos adoram acentos, apresento logo uma proposta que talvez lhes parecesse mais “realista”.

      Pessoalmente estou ansioso por que o Acordo entre em vigor. Quando traduzi o sítio do Project Gutenberg, deparei-me com a necessidade de apresentar constantemente as duas variantes: “livro electrónico/eletrônico”, “actualizações/atualizações ortográficas”. Isto é necessário para que o Google e o motor de busca interno do sítio possam encontrar aquilo que as pessoas pesquisam. O que é absurdo. E, ao fim de algumas linhas, fica enfadonho.

      Abraço
      Ricardo F. Diogo

    • 4 osrevni // 2 9 2007 às 21:38

      Sou visceralmente contra o acento circunflexo. Nesse caso específico, deveríamos fazer como os portugueses e adotar o acento agudo (que podemos chamar de “acento normal”…)

      Aproveitando, duas coisas: 1)concordo com o argumento do Ricardo. Um acordo ortográfico deve ser completo, irrestrito e definitivo, para não obrigar a mudanças a cada década. 2) Sempre vai ser necessário fazer duas versões. Há outras diferenças que não a ortográfica, a começar pelos gerúndios. Isso não tem solução.

    • 5 _Maga // 2 9 2007 às 23:22

      “O certo é que vivemos adiando todo o adiável; talvez todos saibamos profundamente que somos imortais e que, tarde ou cedo, todo homem realizará todas as coisas e saberá tudo.” p. 115, Jorge Luís Borges, Ficções

      (como podes ver, andei acatando a tua sugestão de leitura! ;))

      Outro poema sobre o assunto:
      http://www.insite.com.br/art/pessoa/ficcoes/acampos/adiamento.html

      Só para constar: chama-se procrastinação.
      Não precisa nem dizer que o governo brasileiro é o rei nesta arte, não?

      beijos

    • 6 Rafael Reinehr // 3 9 2007 às 10:08

      Sobre a reforma na Última flor do Lácio - aquela, inculta e bela, em que a Academia é uma panela, se bobear, até eu e ela entramos nela - deixo para os sabidos e astutos definirem. Depois corro atrás. Não porque não me interesse no assunto ou porque não quero dar opinião, mas porque estou tão focado em outros rumos que nem consigo falar algo que preste, como pode perceber.

      Obrigado pela visita e gentil comentário. Não conhecia seu blog até ontem. Até agora, tive uma ótima impressão em relação ao conteúdo.

    • 7 Carlos Correa // 3 9 2007 às 13:43

      Eu posso estar enganado, mas pelo que li/estudei do acordo, tanto faz se a palavra for grafada com agudo ou circunflexo neste caso. Correto? Eu sou a favor da padronização da língua, desde que os órgãos consigam justificar para os contribuintes leigos (maioria) o custo de se reimprimir milhares de páginas. Pra mim, o gasto envolvido é mais relevante.
      No mais, parabéns.

    • 8 Marco Carvalho // 4 9 2007 às 11:19

      Diogo: Concordo, os filologos são como os enólogos que apreciam as lágrimas, sentem o aroma, degustam, sabem a data das safras e etc. Só que no caso dos filologos o requinte deles está nas pronúncias, acentos, regras, etc. Esquecendo que o cidadão comum só quer tomar um porre. hehehe

      Gosto muito do discurso do dono da cadeira de letras da Universidade Federal do Paraná. Ele considera que a lingua do cotidiano é tão importante quanto a lingua formal e que o resto é ranço dos entendidos :)

      Abraços

    • 9 Thiago Rodrigues // 4 9 2007 às 12:18

      Li a respeito deste acordo semana passada no jornal diário daqui da minha cidade.

      Em primeiro momento fiquei feliz e eufórico, pois séria ótimo a unificação das línguas, mesmo que levando um tempo para nos acostumarmos.

      Ao ler seu artigo fiquei triste, pois percebi que as pessoas que fizeram o acordo fizeram-o mal feito.

      Realmente é lamentável.

      Mas Alessandro, não a alguma possibilidade do acordo ser revisado antes mesmo de entrar em vigor e corrigir estes erros?
      Você é favorável ou contra este acordo?

      Um grande abraço!

    • 10 Informativo Moeda Corrente » Pela metade // 12 9 2007 às 21:52

      [...] Poema “chupado descaradamente” do blog do Alessandro Martins, mas bom demais para não compartilhar aqui. Então aproveito o post para indicar o blog dele a todos os amantes de livros. No texto em questão ele escreve sobre as mudanças na ortografia da lingua portuguesa. [...]

    Deixe um comentário