Livros de auto-ajuda são bons; saiba por que nunca funcionarão

7 8 2007 por Alessandro Martins · 24 comentários

Nada de errado com os livros de auto-ajuda. Eles são bons.

Claro, não entro aqui no mérito das qualidades literárias de seus autores. Não espero encontrar entre eles nenhum Jorge Luis Borges.

Também não quero despencar no lugar-comum dos que dizem que os livros de auto-ajuda são feitos para auto-ajudar somente o próprio escritor.

O que quero dizer é que a maioria dos livros de auto-ajuda cumpre o que promete. Quer dizer: entregam o produto.

Se você abrir um, por curiosidade, vai observar que ele estará recheado com conselhos bem práticos sobre como tomar as rédeas de algum aspecto da própria vida.

A idéia é boa. Afinal, as pessoas sempre terão problemas em um ou outro campo de sua vida.

E ninguém melhor para ajudar você que você mesmo. O autor provavelmente passou por coisas semelhantes e, no livro, conta como procedeu para atingir seus objetivos de superação.

Se o leitor aplicar aquelas técnicas, poderá de fato melhorar financeira, economica ou amorosamente, dependendo da abordagem do livro.

Até aí, então, estamos no que compete ao autor e ao texto. Estou supondo que por trás dessas duas palavras há uma pessoa bem intencionada, que não pretende mentir ou enganar.

Agora vamos à venda. E à compra.

A venda de um livro desses é feita como a de um elixir para todos os males. E o pobre público desse tipo de obra o compra como se a simples leitura fosse transformar a sua vida.

E aí mora todo o problema desse segmento.

Simplesmente não faz sentido.

Mas antes de falar sobre isso, queria falar sobre os livros que ensinam artes marciais.

Antigamente havia dúzias e dúzias deles, vendidos pelo correio ou nas bancas de jornal, que supostamente ensinariam artes marciais. Essas lutas ainda eram um tanto misteriosas por aqui no Brasil, cheias da mística de Bruce Lee e daqueles filmes mal dublados.

Cheguei a folhear alguns deles quando era criança. As fotos eram mais ou menos detalhadas, mas era difícil entender como se passava de uma posição para a outra. Era tudo estanque e nem as legendas facilitavam.

Um sujeito aparecia com uma faca e o outro, em uma seqüência aparentemente desconexa, o desarmava, derrubava e lhe quebrava o braço.

Os livros de auto-ajuda são mais ou menos isso. Se você aplicar aquela técnica você vai mesmo desarmar, derrubar e quebrar o braço de seu problema.

Mas só olhando para as fotos você não sabe como passar de um passo para o outro. Terá sorte se no meio do caminho não quebrar o próprio braço.

Em Sidarta, de Herman Hesse, quando o personagem central encontra o Buda, diz a ele que não o seguirá. Pois cada pessoa encontra o seu caminho seguindo o próprio caminho. É um truísmo, mas só eu, e mais ninguém, posso encontrar os meios de quebrar o braço de meus problemas. Buda concordou. Pelo menos no livro.

Se nem mesmo um mestre pode ensinar verdadeiramente um caminho, que dirá um livro.

Mas não é preciso ir tão longe nas filosofias de boteco.

De nada adianta o conselho ser dado - um bom conselho - e eu como leitor não executá-lo. Ou praticá-lo poucas vezes durante apenas uma semana depois de ter acabado a leitura.

Talvez o autor tenha esquecido de dizer que, para produzir algum efeito, o que ele ensina precisa ser aplicado com disciplina e constância ao longo dos dias, das semanas, meses e anos.

Disciplina e constância ao longo de um grande período.

Duas coisas que alguém que compra um livro - vendido como um elixir de resultado imediato - terá uma tendência a não ter. Mesmo coisas aparentemente simples - como pensamento positivo, leis de atração e afins - exigem essas duas qualidades.

E normalmente pessoas que já as têm por natureza, não precisam de livros de auto-ajuda.

O público dos livros de auto-ajuda costuma ser aquele que não conseguirá executar com efetividade as técnicas neles ensinadas.

Por isso, esses livros só atingirão o objetivo da venda. Não o de sua função verdadeira, que seria ajudar pessoas a se auto-ajudar.

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    Tags: O prazer de ler

    24 comentários até agora ↓

    • 1 Robson // 7 8 2007 às 21:11

      Bacana, Alessandro, a coincidência. Estou escrevendo um texto sobre isso, mas com outra abordagem.

      Longe de mim dizer que todos os livros de auto-ajuda são ruins. Afirmo com certeza que alguns são!

      Na minha opinião, os livros de auto-ajuda que dissertam sobre pensamento positivo, lei da atração, etc, são mentirosos. Não há prova alguma de que o pensamento afeta a realidade como descrevem os autores. Não há honestidade nos argumentos. Eles adaptam a física quântica às intenções dinheiristas. Vide o filme “Quem somos nós?”

      Sou um psicólogo e afirmo fortemente: a única maneira de as pessoas melhorarem as próprias vidas é por meio de ações, e do conhecimento de como as ações estão relacionadas aos comportamentos e sentimentos humanos. E mais, de que diferentes condições ambientais produzem comportamentos e sentimentos diferentes. De preferência, com exemplos extraídos de pesquisas científicas VERDADEIRAS.

      O que quero dizer é que um verdadeiro livro de auto-ajuda ensinaria sobre a relação mundo-comportamento, ao invés de apresentar dicas específicas. Se algum livro de auto-ajuda tratar os leitores com a verdade, eu quero conhecê-lo.

      O Segredo é simples: pensamento positivo é uma mentira.

      No fim, concordo contigo: livros de auto-ajuda não ajudam.

      Abraço.

    • 2 Norberto Kawakami // 7 8 2007 às 22:01

      Esse ponto em que você tocou, sobre a persistência do fazer o que o livro ensina, é também mais ou menos como manter um blog: não adianta ficar seguindo as dicas de outros blogueiros se não se tem a persistência e paciência de meses para chegar lá.

      abraço

    • 3 Alexandre Kovacs // 7 8 2007 às 22:43

      Texto perfeito Alessandro. Minha livraria ideal é aquela onde não encontramos livros de auto-ajuda e muito menos de informática com suas capas chamativas e vulgares.

      Acho que é como ocorre na literatura e também na música, aqueles autores que tentam sistematicamente copiar uma técnica ou estilo, nunca conseguem atingir o grau de genialidade dos originais.

    • 4 Daniela // 7 8 2007 às 23:05

      Eu nunca li nenhum livro de auto ajuda, e nem penso em lê-los, talvez por puro preconceito. Fato é que não acredito que um livro pode me fazer com que eu me auto-ajude. É confuso isso, se é auto-ajuda, pra que o livro? Sei lá, não acredito nessas coisas. Mas gostei do texto.

    • 5 Djabal // 8 8 2007 às 7:42

      Uma vez li com uma grande perplexidade: “Não há nada de útil que possa ser ensinado.” Não sei se a citação é textual, mas ficou impregnada em mim. Hoje concordo plenamente com Oscar Wilde e com você. Abraços.

    • 6 David Blázquez // 8 8 2007 às 8:33

      Me gustó lo que leí, aunque no entienda muy bien tu idioma. Te sigo desde Madrid. Un saludo de: http://www.lapollaenverso.blogspot.com

    • 7 André // 8 8 2007 às 8:52

      É por isso que vendem cada vez mais. “Ajuda para auto-ajuda”

    • 8 Daniel Lopes // 8 8 2007 às 13:33

      Alessandro, não estou conseguindo comentar no post mais novo, então vai desculpando o comentário fora de lugar. Li sua entrevista no Digestivo e adorei, principalmente a parte em que você explica que o mais importante é postar conteúdo de qualidade, e não apenas a quantidade de posts. Penso o mesmo.

      Abs.

    • 9 Anna // 8 8 2007 às 21:53

      Oi Alessandro:
      O meu amor aos livros começou porque eles sempre me deram respostas às minhas dúvidas.
      Então acho complicado ficar malhando os livros de auto- ajuda.
      Encontrei há um tempo atrás, um blog de uma jornalista que achava existir nestes livros, um consolo,uma palavra amiga.Que todos os seres humanos pecisam de escutar, de ler.Quando vc está bem pra baixo e sem acreditar que pode achar suas próprias respostas,estes livros ajudam sim.
      É um começo quando tudo parece estar errado e vc não tem dinheiro pra pagar um profissional pra te ajudar.
      Uma coisa eu aprendi.Tudo em dois lados e pode ter ainda o interior.Hehehe!
      Ps.:
      Adorei sua entrevista e coloquei um comentário lá.
      Abraço.

    • 10 Anna // 8 8 2007 às 22:01

      Oi Alessandro:
      O meu comentário está muito mal escrito.O próximo vai estar melhor.(Pena não poder consertar)
      Abraço.

    • 11 Gabiru // 9 8 2007 às 8:16

      Concordo que os livros entregam o produto: você não leva gato por lebre. Mas eu penso, muitas vezes, que esse tipo de livro é só aquilo que mamãe nos ensinou e foi aprofundado na escola.

      “Não desista de seus sonhos”, “faça tudo com correção” e “preste atenção nas pedras do caminho”.

      Eu ainda vou escrever um livro “pra me auto ajudar a mim mesmo.” E será um livro repleto de solidariedade: vai me auto ajudar, vai auto ajudar meu editor, vai auto ajudar as livrarias… :P

      Vamos apimentar as coisas um tiquinho: Alessandro, “O Monge e o Executivo” é um livro de auto-ajuda, um livro espiritual ou um romance mal escrito?

    • 12 Edson // 9 8 2007 às 8:33

      Excelente, Alessandro. Esse é também o problema do otimismo ingênuo etc.. Adorei a referência a Sidarta, muito propícia.

      abraço.

    • 13 Gilson // 10 8 2007 às 17:46

      Ah apesar de não funcionar com todos (porque tem pessoas que só pelo fato de ler um livro de auto-ajuda ja se sentem motivados) existem alguns desses com uma história legal e para quem gosta de ler da para passar o tempo. Eu também era contrário a qualquer tipo de livro de auto-ajuda mas li “O Monge e o Executivo” e gostei da narração, apesar do fim vago

    • 14 duda // 15 8 2007 às 23:00

      Me desculpa querido, mais não posso concordar com tudo que vc disse em seu texto. existem sim muitos bons livros e são de grande ajuda pelo menos alguns que conheço são maravilhosos.

    • 15 Gabriel // 2 10 2007 às 18:59

      Sempre há um porém.
      Cada um interpreta os livros de ‘auto-ajuda’ de um ‘modo’.
      Porque ninguém nasce sabendo.
      Se um pobre nunca soubesse a diferença entre rendimento ativo e passivo? Seria bom que ele não precisasse infromações?
      Pensamento Positivo, Lei da Atração e etc. Funcionam.
      Estão ali e funcionam o tempo todo, GOSTANDO OU NÃO! QUERENDO OU NÃO!

    • 16 Adelaide Silva // 13 10 2007 às 22:47

      Olá sei que vc é muito inteligente, respeito seu ponto de vista sobre os livros de auto ajuda mas nao concordo co o seu radicalismo. Tente ler o livro Somos o que Decidimos Ser Editora Vienna Autora Zizi Pimentel eu li indiquei p/ varias pessoas que amaram. ë um livro sem revisao, a cara da autora totalmente irreverente com uma ficha catalografica de psicologia aplicada muito legal se vc entrar no orkut ou pesquisar zizi pimentel no google vc vai conhecer a asutora eu nao a conheco pessoalmente mas gosto das ideias dela. Parabens pelo seu texto e pela democracia da sua pagina

    • 17 Carvalho // 9 11 2007 às 15:59

      oi,

      Já li muitas livros, um pouco aqui um pouco ali entendi que o ser humano esta sempre em busca de algo em vários caminhos, seja através de um livro de uma religião etc…que explique sua existencia porque na verdade nem vc nem ninguém até hoje sabe o como nem pq de tudo, mas os livros tem sua magia e só quem lê e quem pode dizer ou sentir de forma a tirar suas conclusões e, se isso faz bem a elas com certeza continuarão lendo e acredidando.

      E avida é assim preciamos as vezes de um insentivo para proseguir esse caminho que nós foi permitido.

    • 18 ursula // 8 1 2008 às 20:49

      bem eu começei a decobri uma realidade que eu naõ enxergava atravez de um livro de auto ajuda ,bem se ajuda mesmo posso dizer que sim pela minha experiencia com eles mais seja como for eu era uma rale e hoje vivo muito bem aqui em portugal um abraço a todos e que cada um procurei seu caminho seja num livro ,revista etc

    • 19 sidney // 20 3 2008 às 15:25

      olá, Alexandro

      Discordo de vc…

      Acho que os livros ajudam sim, claro que com menos intensidade que os autores tentam demonstrar.

      abraços

      Sidney

    • 20 Alessandro Martins // 21 3 2008 às 8:09

      Sidney,

      pode discordar de mim, mas não do meu nome ;-)

      Abraços do AleSSandro!

    • 21 Sidney // 2 4 2008 às 8:49

      RSRS……sem comentários

    • 22 lourdes // 17 4 2008 às 15:32

      Gostei dessa página li todos os comentarios e concordo com o da senhora Adelaide Silva eu também li Somos o que Decidimos Ser de Zizi Pimentel e adorei não conheço a autora mas se alguém souber de outro livro dela por favor me induquem pelo meu email . abraços

    • 23 Alessandro Martins // 17 4 2008 às 18:25

      Lourdes, obrigado pela consideração de não só ler o texto integralmente como ler também os comentários… todos nós ficamos muito gratos.

      Abraços!

    • 24 Gilmar Lopes // 1 7 2008 às 9:53

      Bom dia…
      Li todos os comentários e realmente temos que aceitar a idéia de que não somos iguais. Eu acredito que os livros de auto-ajuda são bons para as pessoas que estão buscando uma luz no fim do túnel pois para essas pessoas, realmente uma palavra de otimismo pode sim ajudar e muito.
      Para aqueles que não precisam, realmente não vai ajudar mesmo… Por isso não somos iguais..
      Um abraço

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