Quem trabalha com literatura ou qualquer outro tipo de arte convive com a crítica. Seja a que é feita por seus pares, seja a que sai nos jornais - cada vez menos dados a essa prática.
De verdade, qualquer pessoa, que desenvolva qualquer atividade, artística ou não, convive com críticas aqui e ali.
Você deve ouvi-las ou não? Creio que sim. Mas elas devem ser sempre contrapostas a suas convicções mais íntimas e só então acatadas ou não.
No entanto, em se tratando de convicções íntimas, é necessário muito auto-conhecimento para discernir a influência que interessa daquela que é pouco útil para o que você quer verdadeiramente.
A estadunidense Isadora Duncan foi a precursora da dança moderna e libertou essa arte de muitas amarras que até então sofria. Claro que, com isso, sofria críticas.
Eis uma história que ela conta em sua autobiografia Minha Vida, no prefácio:
Daí os motivos por que cedo desprezei os juízos sobre a minha obra. É que, se não podia exigir que todos me fossem favoráveis, alguns deles eram por demais desanimadores e dolorosos. Havia um crítico em Berlim que me perseguia de insultos. Entre outras cousas, acusava-me de não possuir nenhum senso musical. Certo dia enderecei-lhe algumas linhas, suplicando-lhe que me viesse ver e adiantando que eu o convenceria do erro em que laborava. Ele veio e, sentado diante de mim, do outro lado da mesa de chá, por espaço de hora e meia expliquei-lhe as minhas teorias acerca do movimento devaneador criado pela música. Não me passou despercebido o seu aspecto pesadão e assaz vulgar, mas qual não foi o meu espanto quando, vendo-o puxar do bolso uma corneta acústica, ele me confessou que era completamente surdo e que, amante de espetáculos, mesmo com o auxílio daquele instrumento e embora sentado na primeira fila de cadeiras, mal conseguia ouvir a orquestra! E eis aí o homem cujos conceitos sobre a minha arte me haviam roubado noites e noites de sono!
De fato, não perca noites de sono com as críticas. Sobretudo as muito duras. Não vale a pena. Provavelmente o sujeito que as fez é surdo.




8 comentários até agora ↓
1 Daisy Carvalho // 31 7 2007 às 19:56
Mais uma vez Alessandro Martins sobe às alturas da sensibilidade e questionamento trazendo exatamente o que quero saber… ou entender melhor.
Grata, Ale, mais uma vez! :)
Bjs.
2 Daisy Carvalho // 31 7 2007 às 20:35
Fui um pouco indelicada em não falar da Isadora Duncan, que ensinamento, viu… desses que levamos pra sempre. Linda!
s2 beijos…
3 Daniela // 31 7 2007 às 20:58
Que bacana mesmo esse trecho. Eu aprendi a ouvir críticas quando comecei com teatro, as primeiras dopiam tanto lá no fundo. Depois passei a usá-las a meu favor…. Quando alguém está a frente de seu tempo sempre é alvo de críticas…
4 _Maga // 31 7 2007 às 22:40
hehehehe
ótima história Alessandro… muito boa mesmo…
beijos
5 Neto Cury // 1 8 2007 às 0:04
Críticas são importantes, mas você tem que saber filtrar e saber equilibrar, pois minha opinião ainda é mais forte.
Abração
6 Albarus Andreos // 1 8 2007 às 11:14
Acho que querer entender e usar as críticas em favor próprio é uma coisa que terei de aprender. Acho isso muito difícil. De toda forma acho que perder noites de sono dá pra evitar, mas não passar incólume, sem sentir uma raivazinha quando sabemos que a crítica é despopositada. Já imagino: “Por que esse palhaço está dizendo isso? É exatamente o contrário…”; “Por que está dizendo aquilo? Será que leu tudo até o final?”; “Como não entendeu? Está tudo tão claro…”; “Por que essa má vontade? E ainda se dá ao trabalho de escrever isso para os outros lerem!”… Ai, ai, ai… Vai ser duro!
7 léo // 4 8 2007 às 12:14
oi alessandro
rapaz, que história!!!
o bom é que com o avançar da profissão, qual for, vai se entendendo melhor o que é critica e o que puro mal humor com dor de cotovelo.
abs
8 bdjfjsv,mg,dk // 27 8 2007 às 16:27
acho mto legal…..estou pesquisando sobre a sua história e suas obras…….contineum fazendo esse tipo de trabalho sobre essas pessoas….abraços
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