Uma coisa de que eu gosto nos filmes de David Lynch é o fato de as imagens serem o pretexto para as histórias e não ao contrário.
Parece equivocado vindo de mim, que sempre defendi a primazia do roteiro sobre qualquer outro aspeceto de um filme, embora cinema seja fundamentalmente imagem. Acontece que, para Lynch, isso funciona - ao menos de meu ponto de vista cinematográfico.
A impressão que tenho é que ele imagina ou sonha com uma cena e, então, precisa filmar aquilo, como se fosse a fantasia de um psicopata que, não se importando as circunstâncias necessárias - matar, por exemplo -, precisa criar fisicamente aquilo que se passa internamente e que, de outra forma, o perturbará sem cessar.
Por sorte, o diretor não é o tipo de psicopata que mata, mas do tipo que filma.
Acho que o que o salva - e Cronenberg - de meu crivo que pende descaradamente para o roteiro é minha queda por perversões em qualquer área que seja.
No momento, assisto novamente toda a série Twin Peaks, de 1990. Já vi a primeira temporada inteira e estou indo para a segunda. Devo previnir quem desejar se aventurar: é estranho. E assustador de um jeito estranho.
Desnecessário dizer que o agente Cooper, do FBI, que comanda as investigações da morte da fascinante Laura Palmer, bem como o acompanhamento do fio de histórias bizarras da pequena cidade agarrado a esse crime, é um dos mais incríveis personagens policiais já imaginado.
Impossível não ver um episódio sem ficar com vontade de tomar uma caneca de café preto e quente acompanhado de um pedaço de torta de cereja.
No começo das filmagens, Lynch aproximou-se do ator Kyle MacLachlan, que vive o investigador, e disse algo como:
- Kyle, está bom. Mas eu gostaria de um pouco mais de vento. E faça mais como Elvis.
Presley, naturalmente.
Ah, sim. O agente Cooper dá vontade também de andar por aí com um gravador ligado, dizendo coisas como:
- Diane, tive um dia difícil hoje. Mas esse cheiro de pinheiros Douglas é fantástico… - creio que a coleção de fitas cassete do agente seria um item bastante disputado no eBay. Caso ele não fosse uma personagem de ficção, é claro.
A propósito, a série é uma coleção de personagens e cenas interessantes.
Estou tão fascinado por Twin Peaks que, nos próximos dias vou deixar o assunto livro de lado, para falar sobre ela.
Por hoje é só, Diane.




9 comentários até agora ↓
1 k // 16 7 2007 às 13:00
hm, perversões… o que penso tanto do lynch quanto do cronenberg é que os dois colocam na tela coisas sem tanta linearidade, sem tanta explicação lógica. como se fossem sonhos. e os sonhos são assim, são experiências dos sentidos, quase sem explicação.
vc não precisa entender uma coisa cartesianamente pra que essa coisa tenha um efeito interessante dentro de vc. quer coisa mais sexy do que as pernas da arquette presas junto da saia - e a dificuldade de movimento… ou a marca na coxa da unger? estão entre minhas cenas preferidas ever.
2 Daisy Carvalho // 16 7 2007 às 15:55
“Quando a palavra se faz ouvir, ela faz ver algo novo, que a imagem visível, desnaturalizada, começa a tornar também legível” (Gilles Deleuse)
Pra gente que estuda Roteiro, vemos que o som não muda a imagem, ele é outra dimensão da imagem, ele não ilustra, ele “continua” a imagem. Entendemos por som, vozes - diálogos -ruídos, música e etc. e Ale, você que é cinéfilo, por quê não fala do cinema mudo, Charles Chaplin? O cinema vivia basicamente de imagens… :P
3 Daisy Carvalho // 16 7 2007 às 16:02
Ah, já ia me esquecendo de David Lynch, o primeiro filme que vi dele e amei para sempre o cara foi O Homem Elefante.
Beijo, Ale!
4 Flávia // 17 7 2007 às 0:31
Tem razão Alê, Twin Peaks é fascinante. Acompanhei pela TV muito tempo atrás e até hoje consigo me lembrar claramente da última cena, da revelação do crime.
O ator Kyle MacLachlan ficou marcado pra mim como o “investigador de Twin Peaks”. Quase nunca lembro o nome dele, pra mim ele é o agente Cooper.
O seriado foi meu primeiro contato com David Lynch, que eu adoro. O cara é doente mesmo.
Bjs
5 Cristina L. // 17 7 2007 às 10:20
A-m-o Twin Peaks e não reassisti desde o tempo em que passou dublado aos domingos, após o Fantástico - e apesar disso não perdeu o impacto. Era o principal assunto na faculdade (pelo menos da minha turma dos esquisitos) na segunda-feira. Boa idéia, comprar os DVDs. Anotado na lista junto com a primeira temporada do House.
6 _Maga // 17 7 2007 às 20:54
Bacana… bom conhecer um pouco sobre coisas das quais não sabemos. Já ouvi falar outras vezes do Lynch, contudo ainda não vi nenhum filme dele.
Só não entendi qual é a tua definição de psicopatia…
beijos
7 Denise João // 5 8 2007 às 6:43
Também estou revendo Twin Peaks. Espero conseguir comprar a última temporada amanhã. Lynch é um dos meus preferidos e este é um dos trabalhos dele que eu mais gosto.
8 Quais episódios de Twin Peaks você deve ver e quais não | Alessandro Martins - livros e afins // 22 8 2007 às 19:26
[...] eu contei em artigo anterior, eu e Júlia começamos a ver todos os episódios de Twin Peaks. Acontece que, a partir do momento em que o assassino de Laura Palmer é revelado, a coisa perde [...]
9 Fe // 29 10 2007 às 12:04
Alessandro,
Creio que não é novidade pra você mas existe um livro sobre o agente Cooper, são exatamente as fitas que ele grava desde que ganhou o primeiro gravador.
Dale Cooper - Minha vida, minhas gravações, Scott Frost
The Autobiography of FBI Special Agent Dale Cooper: My Life, My Tapes, Mark Frost
O problema é que não foi mais editado e é muito difícil de encontrá-los. Se alguém conseguir favor dê a dica.
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