O filósofo francês Voltaire tem uma opinião clara sobre as artes em geral, em especial as artes plásticas, em seu livro Dicionário Filosófico.
O que ele diz se aplica. Atualmente, elas estão decadentes. De todas - literatura, teatro, cinema e demais -, são as que mais se afastaram do público.
São raros os artistas plásticos que hoje conseguem comunicar algo diretamente
Perderam sua capacidade de comunicação e impacto e, para serem compreendidas, necessitam que se tenha, ao menos, um pós-doutorado ou uma estada em um hospício por no mínimo um ano. Passagens ambulatoriais não servem.
São raros os artistas plásticos que hoje conseguem comunicar algo diretamente, sem a muleta de um manual de instruções para seus, assim chamados, conceitos.
Em artigo desta semana, a Fernanda, do Caminhante Diurno, destacou uma entrevista do crítico Robert Hugles, que por três décadas comandou a editoria de artes da Time Magazine.
Ressalto trecho em que especialmente compactuo com o australiano:
Veja: Por que a influência de Duchamp sobre a arte contemporânea foi libertadora mas também catastrófica?
Hughes: Porque ser o pai dessa bobagem chamada arte conceitual não é uma distinção de que se orgulhar. Para compreender o tamanho do estrago, basta dizer que sem ele hoje não haveria as chamadas instalações, aquelas obras tolas em que o espectador é convidado a passar por túneis e outros recursos infantis. Ou precisa ler uma bula de remédio para entender o que o artista quis dizer.
Eu e o Paulo Polzonoff, quando deparamos com uma parede de azulejos exposta como obra de arte em um dos Salões Paranaenses, nos sentimos movidos a escrever algumas dicas para os artistas que quisessem se destacar.
Não sei se o resultado para o leitor foi tão divertido quanto o ato de publicá-las em um jornal de razoável circulação, mas enfim, como disse, divertimo-nos. Criamos até mesmo o paralelo Troféu Vaca Verde, que não chegou a ser entregue. Por falta de quem o fosse buscar no pasto, naturalmente.
Sobre esse tema, chamo atenção também para outro artigo do Paulo, mais recente, em que ele reflete sobre por que é tão difícil hoje entender a Monalisa.




12 comentários até agora ↓
1 _Maga // 5 5 2007 às 19:54
As artes plásticas realmente ficaram um tanto esquisitas. Apesar de eu achar que as instalações em que a pessoa é convidade a “andar, tocar, etc” só não são as piores como elas pelo menos são divertidas e, de alguma forma, tocam o “apreciador”.
Como tu disses hoje é necessário um pós doutorado em artes para entender uma exposição… ou as exposições precisam de legenda para serem entendidas.
Hoje não dá para ter uma única definição de arte. Mas, para mim neste momento, arte é aquilo que me toca e que em mim ganha algum sentido.
Acho que já coloquei aqui esta frase do Alcione Araujo, contudo não me canso de repeti-la, por isso peço licença:
“A convivência com a arte comove, enternece, dá esperança e enriquece a experiência de estar no mundo porque nos permite adquirir vivências do que não vivemos. Tornamo-nos não apenas seres humanos mais sensíveis, solidários e participantes, mas descobrimos possibilidades de viver na plenitude a vida que nos foi concedida.” Alcione Araújo - livro Urgente é a Vida.
Beijos
ps.: ah, sim, eu havia lido esta reportagem semana passada e sei que o Hugles diz , em certo ponto, mais ou menos isso que o Alcione disse.
ps’.: quantas imagens diferentes tem neste teu novo template? Eu já vi 4 até agora… rs
2 catatau // 5 5 2007 às 21:54
Nos tempos de Voltaire a arte também não era acessível ao público.
Atualmente, com certeza vemos certas ‘manifestações’ deprimentes. Mas não se pode generalizar. Nem oito, nem oitenta, obviamente. Há produções artísticas contemporâneas louváveis.
3 Tv Retrô // 6 5 2007 às 5:41
Perderam sua capacidade de comunicação e impacto e, para serem compreendidas” - Já eu acho o contrário, não foi a Arte Plástica que perdeu a capacidade de comunicação e impacto, acho que as pessoas dessa nova geração que não não tem capacidade nem sensibilidade para apreciar e compreender a Arte Plástica.
4 Lenira Almeida Heck // 6 5 2007 às 8:55
Oi Ale,
A arte imita a vida, como a vida está tão louca, tende a arte imitá-la. Eis a razão de tantas obras sem nexo.
Um abraço
5 Alessandro Martins // 6 5 2007 às 11:05
Eu coloquei 6 imagens diferentes… elas aparecem aleatoreamente… não tem como prever, mas a idéia é trocar sempre. Espero que tenha gostado…
Beijos!
6 Alessandro Martins // 6 5 2007 às 11:09
De fato, não se pode generalizar, mas naturalmente, eu sabia que você entenderia isso. Por isso, preferi não escrever essa frase no texto. De outra forma, escrever “não se pode generalizar” seria obrigatório em qualquer artigo… rs… de qualquer forma, por causa de apenas dois ou três artistas preferi não usá-las…
7 Alessandro Martins // 6 5 2007 às 11:14
Realmente, Anny, o público também tem sua parcela de colaboração nisso, pois a capacidade de compreensão está reduzida também na literatura - não se consegue mais ler uma frase inteira -, no cinema - não se entende mais o que escapa dos clichês - e na música (pobre música). Mas, como observei, no início do texto, a única das artes em que há uma colaboração em massa dos artistas nesse afastamento, tornando-as ainda mais herméticas (para um público por outro lado, cada vez mais ignorante), são as plásticas. Não é algo pessoal, apenas algo que observo. Uma amiga minha diz que quando alguém diz algo e esse algo não é entendido, uma das duas partes, quem diz ou quem ouve é - ou está - burra. Acho que é o caso das artes plásticas. Talvez as duas partes estejam com esse problema.
8 Alessandro Martins // 6 5 2007 às 11:16
Lenira, ainda bem que é a arte quem imita vida. Na momento em que a vida começar a imitar as artes plásticas contemporâneas, aí sim estaremos em maus lençóis… rs.
Beijos!
9 Tv Retrô // 6 5 2007 às 14:06
“Acho que é o caso das artes plásticas. Talvez as duas partes estejam com esse problema.” - Concordo com você, há uma colaboração dos Artistas, mas acredito que isso já acontece em função do público.
“e na música (pobre música)” - Música prefiro nem falar - essa geração está perdida .
10 Alessandro Martins // 6 5 2007 às 15:29
Beleza, Anny, pode usar Tv Retrô, mesmo porque nos links da barra lateral já é assim que está aparecendo. Se mudar agora, o bichinho que cuida dessas coisas automáticas fica confuso :-)
Beijos!
11 _Maga // 7 5 2007 às 22:42
Sobre o comentário da Anny, lembrei-me de uma frase que chamou-se atenção em um livro:
“As pessoas se preocupam com o efeito da violência na sensibilidade das crianças, mas minha preocupação é um pouco diferente. Tenho medo que esta seja uma geração à prova de deslumbramento. Uma geração dessensibilizada não pela desumanidade que a técnica moderna transmite, mas pela própria tecnica moderna.” p. 45-46, Luis Fernando Verissimo, Banquete com os deuses
Um abraço
12 Phil // 9 2 2008 às 15:59
“A arte é arte por ser arte”
Seria realmente necessário legendar algo que te toca? Nem sempre precisamos entender o que fizeram ou tentaram dizer; não, isso não é um forma de alienação (ou talvez seja, mas fica fora desse contexto), basta “entendermos”.
Um bom exemplo disso é o casamento; e sem legenda!
Abraço
Deixe um comentário