Para ler mais e melhor, leia menos

25 4 2007 por Alessandro Martins
· 10 comentários

Eu já disse que, para ler mais, é preciso ler menos. Isso tem mais a ver com o prazer da leitura, mas também está ligado à qualidade de sua assimilação.

O livro A Arte de Escrever, de Schopenhauer - que citei aqui em um artigo sobre blogs -, trata também da arte da leitura e dá algumas dicas sobre o assunto sob essa ótica:

No entanto, a nossa cabeça é, durante a leitura, apenas uma arena de pensamentos alheios. Quando eles se retiram, o que resta? Em conseqüência disso, quem lê muito e quase o dia todo, mas nos intervalos passa o tempo sem pensar nada, perde gradativametne a capacidade de pensar por si mesmo - como alguém que, de tanto cavalgar, acabasse desaprendendo a andar. Mas é este o caso de muitos eruditos: leram até ficarem burros. Pois a leitura contínua retomada de imediato a cada momento livre, imobiliza o espírito mais do que o trabalho manual contínuo, já que é possível entregar-se a seus próprios pensamentos durante esse trabalho. Assim como uma mola acaba perdendo sua elasticiadade pela pressão incessante de outro corpo, o espírito perde a sua pela imposição constante de pensamentos alheios. E, assim como o excesso de alimentação faz mal ao estômago e dessa maneira acaba afetando o corpo todo, também é possível, com excesso de alimento espiritual, sobrecarregar e sufocar o espírito. Pois, quanto mais se lê, menor a quantidade de marcas deixadas no espírito pelo que foi lido: ele se torna como um quadro com muitas coisas escritas sobre as outras. Com isso não se chega à ruminação: mas é só por meio dela que nos apropriamos do que foi lido, assim como as refeições não nos alimentam quando comemos, e sim quando digerimos. Em contrapartida, se alguém lê continuamente, sem parar para pensar, o que foi lido não cria raízes e se perde em grande parte. Em todo caso, com o alimento espiritual ocorre a mesma coisa que com o corporal: só a qüinquagésima parte do que alguém absorve é assimilada, o resto se perde pela transpiração, respiração e, assim por diante.

Além de tudo, os pensamentos postos em papel não passam, em geral, de um vestígio deixado na areia por um passante: vê-se bem o caminho que ele tomou, mas para saber o que ele viu durante o caminho é preciso usar os próprios olhos.

Mas não é preciso ir tão longe no túnel do tempo. O teólogo Rubem Alves tem idéias similares sobre a leitura excessiva.

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    Tags: O prazer de ler

    10 comentários até agora ↓

    • 1 catatau // 25 4 2007 às 13:16

      com toda certeza, heheh

      isso é um problema que venho enfrentando muito, ultimamente: conciliar as leituras obrigatórias, com os sempre presentes interesses mais dispersos… às vezes a leitura prazeirosa não coincide com a contínua, rsss

    • 2 Cris Penaforte // 25 4 2007 às 20:58

      Oi Boa noite!
      Cheguie aqui através de recomendações feitas pelo Mário, do Apoio Fraterno…e muito interessante mesmo oseu blog, ess post então, ótimas dicas que eu mesma nunca tinha me ligado…Valeu! Com certeza, voltarei mais vezes!

    • 3 Alessandro Martins // 26 4 2007 às 9:30

      Sem dúvida, Catatau, se pudéssemos sempre ler apenas o que sempre queremos seria o ideal. Mas se, dentre as leituras não-obrigatórias já pudermos fazer uma seleção creio ser um bom começo… abraços!

    • 4 Alessandro Martins // 26 4 2007 às 9:30

      Que bom, Cris! Considere-se muito bem-vinda portanto! Beijos!

    • 5 Rui de Lucca // 26 4 2007 às 22:43

      Ainda não tinha pensado nisso. Isso me deixa numa divagação quase hamletiana: Ler demais ou não ler demais? Eis a questão.

    • 6 _Maga // 27 4 2007 às 11:37

      “Mas é este o caso de muitos eruditos: leram até ficarem burros.” hahahahahaha

      Concordo… mesmo sendo lendo nos tempos “ociosos” tenho um momento “sagrado” de “ruminação”: as caminhadas… tantao que é comum que as minhas melhores ideias venham enquanto caminho…

      beijos

    • 7 _Maga // 27 4 2007 às 23:49

      andei pensando mais um pouco (hahaha, por incrivel que pareça eu penso rs) e outro espaço que ajuda a “pensar” são os próprios blogs, quando o autor se propõe a escrever textos próprios. É o momento de ele encontrar o que em si tem de original, ou como dar sentido a tudo que leu e viu. Ou os próprios comentários, quando parar para refletir se gostou ou não do que viu, porquê, se discorda ou concorda com algo, que perguntas o texto sussita ou deixa de responder…

      beijos

    • 8 Alessandro Martins // 28 4 2007 às 12:57

      O negócio, Rui, é treinar para que o que é ler demais para um seja ler de menos para você… sinceramente não acredito que Schopenhauer lesse o que o comum dos mortais chamaria de pouco… abraços!

    • 9 Tv Retrô // 6 5 2007 às 23:10

      Alessandro, essa teoria tem alguma comprovação, já foi estudada antes?

    • 10 Alessandro Martins // 7 5 2007 às 8:36

      A única comprovação que tenho é a minha experiência e a de outros bons leitores. Mas se você souber de alguma, me avise, Anny. Claro que ela me interessará. Beijos!

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