Como eu tentei alfabetizar-me em um segundo

9 4 2007 por Alessandro Martins
· 6 comentários

Minha avó costumava ler para mim quando eu ainda era analfabeto. Ela tinha dois óculos. Um que usava no dia a dia, com uma armação grossa, de cor castanha. Outro de armação mais escura.

Esse, ela tirava de um estojo de tecido apenas nas ocasiões em que abria um livro para minha audição atenta. Associei uma coisa à outra. Leitura e óculos de armação escura.

Guardava esses óculos, ainda mais grossos e pesados que os outros, em uma gaveta da cômoda.

Talvez junto com o mesmo lápis com que começou a me ensinar a escrever, que segurava para que eu abraçasse sua mão com meus dedos miúdos. Juntos bailávamos o desenho das letras que eu ainda não entendia. Ela escrevia frases de que não me lembro e eu mantinha meu punho na garupa do dela.

Quem sabe por isso, hoje, eu segure a caneta de modo tão estranho. Entre minhas palavras e meus dedos, há uma mão mais idosa que a minha a manejar o leme das frases.

Um dia, sucumbi à lógica e entendi o mistério do abecedário.

Abri a gaveta, cuidadosamente tomei o estojo e levei os grossos óculos ao rosto. Entontecido pelo grau imenso das lentes, ainda assim abri um livro que separei para a ocasião.

Finalmente, depois de perceber o quanto aquilo era inútil, tirei os óculos. Fui reclamar com ela. Aparentemente, os óculos não estavam mais funcionando.

Eu continuava sem entender nada daquilo que estava nas páginas.

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    Tags: Crônicas e contos

    6 comentários até agora ↓

    • 1 PsychoPenguin // 9 4 2007 às 12:56

      Muito bom Alessandro. Essas memórias de uma época inocente são brilhantes. :)

      Resposta: Olhando para essas simples lembranças, às vezes nem parece que é verdade…

      Abraços!

    • 2 Mário // 9 4 2007 às 18:14

      Somos o fruto visível do nosso passado.

      Resposta: Não tenho dúvida disso… é fácil olhar para uma pessoa e pensar em que tipo de infância fez surgir o adulto…

    • 3 http://netocury.com // 9 4 2007 às 19:59

      É incrível essa visão que criança tem das coisas não…
      Adorei a história
      Abração

      Resposta: Acho que era a Ruth Rocha que tinha uma coluna chamada “Criança tem cada uma…” … era na antiga revista “Pais e Filhos”… mas não lembro bem se era ela…

    • 4 Lenira Almeida heck // 10 4 2007 às 11:22

      Ale! Linda, linda as suas reminiscências do passado. Apesar de não conhecê-lo, posso imaginá-lo ao lado da sua avò.
      Histórias são que nem pipoca. Toda a criança gosta e os adultos também.
      A sua narrativa veio ao encontro de um momento que estou vivendo. Breve estarei lançando mais uma obra: “No Reino das Letras Felizes”, na qual, apresento as letras, com toda a mágia a que ela tem direito. Dominar as letras é uma das fases mais bonitas e marcantes do ser humano. É o seu maior desafio.
      Um grande abraço.

      Resposta: Desejo boa sorte em sua nova empreitada, Lenira!

      Abraços!

    • 5 _Maga // 18 4 2007 às 0:44

      Ai que história linda!!!!!!!

      … eu ri e ao mesmo tempo fiquei tocada…

      Ah, em tempo, pegar esquisito no lapis pode provocar dores nos dedos, mãos, braços e costas. Se quiseres existe uma forma de melhorar a pegada.

      beijos

    • 6 Marco Carvalho // 2 5 2008 às 0:01

      Cara… que coisa linda. Digno de sua caneta, digo, teclado :)

      Abraços

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