Graciliano Ramos também viajou às custas do governo para escrever um grande livro

29 3 2007 por Alessandro Martins
· 3 comentários

Está muito em voga falar sobre viagens de escritores e sobre se deslocar até determinado local para melhor captar uma atmosfera a fim de escrever sobre ela.

Eis o que encontrei em minha atual leitura:

(…) os célebres mocambos que José Lins havia descrito em Moleque Ricardo. Conheceria José Lins aquela vida? Provavelmente não conhecia. Acusavam-no de ser apenas um memorialista, de não possuir imaginação, e o romance mostrava exatamente o contrário. Que entendia ele de meninos nascidos e criados na lama e na miséria, ele, filho de proprietários? Contudo a narração tinha verossimilhança. Eu seria incapaz de semelhante proeza: só me abalanço a expor a coisa observada e sentida. Tornaria esse amigo a compor outra história assim, desigual, desleixada, mas onde existem passagens admiráveis, duas pelo menos a atingir o ponto culminante da literatura brasileira? Quem sabia lá? Agora morava no Rio, talvez entrasse na ordem, esquecesse a bagaceira e a senzala, forjasse novelas convenientes para um público besta, rico e vazio.

Eis que Graciliano Ramos, em seu Memórias do Cárcere, não aprova nem desaprova a narrativa experenciada de fato. Apenas observa essa diferença entre ele e José Lins do Rego. Para sua prática, no entanto, o que melhor aceita é a experiência. Seus livros teriam muito de suas próprias memórias, mesmo os notadamente ficcionais, como Angústia.

Veja Memórias do Cárcere, por exemplo. Ele conseguiu, durante o regime Vargas, uma passagem para a Colônia Correcional de Ilha Grande, onde também permaneceu às custas do dinheiro público por quase um ano.

De lá para cá muita coisa aconteceu. A literatura mudou - se para melhor ou para pior depois me digam - e o destino geográfico dos escritores também. Agora eles preferem Paris, Tóquio, Nova York e por aí vai.

Não digo que absolutamente todos os autores devessem ir presos a lugares parecidos com a Ilha Grande a fim de produzir obras de qualidade. Apenas quis dizer que, a julgar pelo custo ao Tesouro Nacional, Graciliano não foi nada mal.

Na verdade, é muito triste que um grande artista como ele tenha passado quase um ano na cadeia conhecendo a verdadeira miséria humana. E ainda bem que, hoje em dia, nossos garbosos escritores podem escolher outros portos mais aprazíveis.

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    Tags: Notas · O prazer de ler

    3 comentários até agora ↓

    • 1 Eduardo Carvalho // 29 3 2007 às 23:13

      O melhor comentário sobre essas viagens é do Marcelo Rubens Paiva, que disse, na coluna de sexta, que esses caras deveriam ir é para lugares tipo Bogotá. Os escritores brasileiros me parece que estão no século XIX ainda. Descobrir Paris?!

      Resposta: O mais engraçado é que tem gente brigando por miseráveis R$ 10 mil e uma viagem de ida e volta para um ponto turístico com tudo pago. Acho que nem é isso que está em questão. É o aval que se dá a essa Lei de Incentivo com esse tipo de projeto. Eu deveria estar feliz por escritores ganharem - ainda que não tão bem - para fazerem seus livros, mas as circunstâncias deixam tudo muito duvidoso. Bem. Vamos ver o que acontece.

      Abraços!

    • 2 Lika // 30 3 2007 às 11:11

      Quando li Memórias do Cárcere pela primeira vez, tive a impressão de que ele ficou preso por muito mais tempo (uns dez anos). Mas Graciliano também viajou para a Tchecoslováquia e URSS em 1952 a convite da VOKS (Sociedade para as relações culturais da URSS com os países estrangeiros). Ele escreveu este relato de viagem que foi uma publicação póstuma (Viagem, 1954). Como ele, também viajaram Jorge Amado, Josué Guimarães e Lila Ripoll na mesma época. E, já na década de 60, Sérgio Faraco (este último a convite do Partido).
      Ótimo tema, Alessandro.
      Abraços!!!

      Resposta: Amanhã ou segunda-feira vou escrever sobre o Vidas Secas. Sobre como mais que um romance regional ele é um romance universal. Eu sei, é tema meio batido, mas vou apresentar o meu viés. Um viés um tanto simplório, mas também um tanto interessante, ideal para despertar o interesse da leitura pelo público leigo.

      Abraços!

    • 3 Lenira Almeida Heck // 31 3 2007 às 3:07

      Olá Ale,

      Dizem que os escritores são exêntricos, respeito quem pensa assim, mas assim como os atores precisam fazer laboratório para efetuarem os seus trabalhos, também o escritor precisa de ambientes que o favoreça . O literata escreve transportado pela imaginação, imaginem ele vendo as coisas ao vivo, criando em cima do que está vendo. Para isso, também precisa de algo chamado inspiração. Com esses ingredientes, poderá surgir obras bem interessantes.
      Um abraço, Lenira

      Resposta: De fato Lenira, todo escritor tem a memória e a imaginação, cada um desses itens dosados em diferentes graus em suas obras. Não se fabrica nada só com memóira, não se imagina nada sem ela. Vide Funes, o Memorioso, do Jorge Luis Borges…

      Abraços,
      do Alessandro.

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