Agora comecei a ler o livro-reportagem, do jornalista Hunter S. Thompson, Hell’s Angels - Medo e Delírio Sobre Duas Rodas. E, além de mostrar um texto lúcido - distante do estereótipo de alucinado aplicado a esse autor (note a raiz das palavras lúcido e alucinado) -, a obra traz mais do que um ensaio sobre os motoqueiros da Califórnia e suas Harley Davidson. Ela fala muito sobre o modo de agir da imprensa.
O jornal New York Times fez uma matéria altamente tendenciosa sobre o comportamento do grupo. O texto foi baseado em um relatório preparado com segundas intenções por um promotor, sendo que as acusações que nele constavam haviam sido retiradas pelos próprios acusadores e outros dados nele presentes eram duvidosos.
Eis a análise de Thompson:
Mas o Times não é escrito nem editado por idiotas, e qualquer um que tenha trabalhado em um jornal por mais de dois meses sabe como precauções técnicas são tomadas até mesmo na matéria mais extravagante, sem a preopucação de não causar impacto sobre o leitor. E elas resultam basicamente na arte de publicar uma matéria sem ter responsabilidade legal sobre ela. A palavra “suposto” é indispensável nessa arte.
Sempre que você ler um termo como o “suposto ladrão” em um jornal, o periódico quer dizer mais ou menos o seguinte:
- Nós sabemos que não se pode chamar alguém de ladrão ou assassino antes que ele tenha passado por um julgamento justo. Mas se ele supostamente é um ladrão, nada de errado com isso. Ninguém está afirmando algo. Não nos importamos que para a média do público isso não faça diferença e que a palavra “suposto” não tenha significado algum assim como outras equivalentes: “provável” e “possível”. Quem liga se Fulano da Silva, mesmo sendo inocente, possa vir a ser conhecido a partir de agora como suposto ladrão?
Thompson continua:
Outras palavras chaves são “disse fulano” (ou “afirmou”), “relatou-se” e “de acordo com”. Em quatorze parágrafos pequenos de jornal, a matéria do Times continha nove desses termos.
Quando é citado alguém específico, julgo que a prática é válida para dar alguma credibilidade ao texto, afinal, não se espera que o repórter responda por declarações que são de responsabilidade de autoridades em algum assunto, seja ele um crime ou física quântica.
Mas quando o sujeito é “oculto”, é melhor ficar alerta: “Relatos dizem que o suspeito saiu da casa às 8 da manhã”. Quem será o autor do relato? Talvez estejamos novamente no campo das suposições com algum propósito, seja ele incriminar alguém ou apenas - e é isso na maioria das vezes - ter o que dizer na página policial ou atrair um pouco mais de audiência em torno de uma notícia.
A citação também é usada por algumas revistas de circulação nacional de uma forma muito curiosa e questionável. Com algum exagero, algumas primeiro fazem as matérias com as citações já prontas e as enviam aos repórteres para que encontrem autoridades no assunto tratado capazes de aceitar que disseram aquilo. Nas redações, isso é conhecido como “colocar na boca de alguém”.
Outra tática de isenção e, ainda assim, dizer o que se quer usada nos jornais é o futuro do pretérito. Dessa forma: “Fulano de tal teria cometido assassinato”. Mais uma vez, deixa-se espaço para a dúvida, mas para o leitor médio não faz diferença. Claro que isso também pode ser uma forma ética de contar a história, mas tudo depende do contexto.
Um leitor esclarecido vai saber a diferença entre um recurso de redação usado com boas e más intenções.
Supostamente.
Serviço
Compare preços de livros sobre jornalismo, estupro, ética, hipócritas, jornais e sobre outras coisas para embrulhar peixe.



11 comentários até agora ↓
1 leanDrow // 9 2 2007 às 12:10
Ótimo artigo Alessandro! Vai até pro meu bookmarks. (:
Não tenho pretensões de ser jornalista mas acho muito interessante este “mundo”, muito mesmo.
Ando meio sumido para dar meus pitacos nos seus posts mas é que estou sem tempo, fazer o que…
Abraços!
Resposta: Ora, o importante é saber que você está por aí por perto… não precisa se sentir na obrigação. Porém, será sempre muito bem-vindo.
Abraços!
2 Alessandra // 9 2 2007 às 13:26
Eu tive um professor na faculdade que contava da época em que ele trabalhou na Veja e como ele cansou de ver isso. O editor perguntava “e aí, o cara disse tal coisa?” e ele, até meio sem-graça “bom, não disse…”. Aí o chefe insistia “mas você SENTIU que ele poderia dizer?”. Por essas e outras eu não me preocupei muito em exercer a profissão.
Mudando de pato para ganso, dando uma xeretada nos arquivos descobri que você tem uma atração muito peculiar por freiras. Então achei que, se já não conhecia, gostaria muito de ver isso aqui: http://images.google.com.br/images?hl=pt-BR&q=milo%20manara%20monaca&ie=UTF-8&oe=UTF-8&sa=N&tab=wi
Resposta: O jornalismo é cheio de histórias assim… forçadas de barra e quetais.
Quanto à freira, já conhecia o Manara, mas não esse trabalho dele… e, acima de tudo, muito obrigado pela sensibilidade por perceber. Na verdade, essa é só a ponta do iceberg… rs…
Beijos,
do Ale.
3 Thássius Veloso // 9 2 2007 às 14:19
Atualmente não percebo mais o “suposto” nos casos de criminosos. O “Manual de Redação da Folha de S. Paulo”, que estou lendo, deixa claro: se não foi julgado e condenado, é “acusado”. Mesmo que seja óbvio que a pessoa cometeu o crime.
Resposta: Às vezes, mesmo o uso do termo acusado não chega a ajudar no caso de algumas abordagens. Mas já é alguma coisa, sem dúvida…
Abraços!
4 Thássius Veloso // 9 2 2007 às 14:24
Correção: não percebo o “suposto” nos casos de “supostos” criminosos. =D
Abraços, Alessandro.
5 Paulo Polzonoff Jr. // 9 2 2007 às 18:41
A gente também forçava a barra às vezes. Muitas vezes. Era divertido, não?
Resposta: Ô se era. Mas quando a gente forçava a barra, a gente não disfarçava e nem tentava posar de bons moços imparciais…
6 Fabiana // 9 2 2007 às 20:55
Muito bom artigo. Sempre quando navego pelas páginas policiais, passo pelos textos tão rapidamente que nunca parei para reparar nesses pequenos “detalhes”.
Resposta: Faz sentido porque - não direi o jornal inteiro, mas parte dele - é feita meio sem pensar. É natural que provoque ausência de pensamentos no leitor… rs
Beijos do Ale.
7 _Maga // 9 2 2007 às 23:11
Olá Alessandro,
é a primeira vez que passo pelo seu blog, por indicação de meu amigo Robson ( http://faggiani.wordpress.com ), e gostei deveras do que vi!
[abrindo parenteses] li alguns dos seus posts dos ultimos dias, entre eles o do signo Buarquiano. Acabo de terminar de le-lô e começou a tocar Barbara no rádio. ps.: adoro coincidencias [fecha parenteses]
O que acho impressionante nos meios de comunicação atual é a sua imensa capacidade de distorcer tudo que os entrevistados dizem, de criticar uma teoria sem saber do que ela trata, de fazer acusações sem nenhuma prova. E, ainda mais, me impressiona a sua inesgotavel falta de humildade, e incapacidade em reconhecer seus erros. É impressionante.
Adorei a materia sobre como modos de tornar a leitura mais confortavel. Sempre que vejo em alguma loja uma poltrona/cadeira/sofá e acho ele confortavel, pode acreditar que já me imaginei sentada nele lendo. Esse é o meu criterio para considerar tal tipo de “sentador” confortavel.
O post com os “signos” ficou muito divertido!
Enfim: parabéns pelo blog!
Ah, por falar em “embrulhar peixe” um zine muito interessante é o Embrulho de Banana. Para saber mais: http://www.embrulhodebanana.org
beijos, Marcela
Resposta: Eu vi a indicação do Robson e fiquei bem contente… mandei um agradecimento pelo prestígio.
Vi o fanzine que me indicou e gostei muito. Eu tenho outro site, o Cracatoa Simplesmente Sumiu, e há alguns meses tentamos implantar um jornal literário para imprimir, mas por falta de tempo meu a coisa não foi pra frente.
Eu aconselharia a eles terem, no site, além da versão para imprimir, pelo menos alguma coisa em texto mesmo - e não em flash - porque eles ganhariam abrangência através dos sistemas de busca (que não detectam os textos em flash). Mas isso é só um detalhe técnico. O trabalho é muito bom.
Esses dias eu estava folheando um livro em uma livraria sobre cadeiras. Uma situação assim. E lá dizia que um homem tomava posse de um espaço, fosse qual fosse, sentando. Daí a importância seja de banquinhos seja de tronos… ou poltronas para ler…
Beijos,
do Ale.
8 jorge a. // 10 2 2007 às 9:53
Gostei muito deste seu post.
Se o post parte de uma critica feita a um artigo de jornalismo no New York Times, depois o Alessandro parte para os truques utilizados pelos jornalistas na exposição das suas matérias. Esses truques são constantemente usados para tornar matérias de informação, em verdadeiras colunas de opinião.
Dado que sou português não conheço a realidade jornalistica brasileira (tirando a folha de São Paulo em versão on-line), mas penso que não difere da portuguesa. O jornal terá secções cuja finalidade única é a informação (aqui requere-se imparcialidade), e outras, onde certos opinadores públicos darão a sua opinião sobre os mais variados assuntos (onde a imparcialidade não tem de estar presente). O que se passa muitas vezes, é que usando as táticas (gosto de táticas, embora cá por Portugal a palavra tenha um “c” a mais, ficando assim: tácticas), jornalistas mediocres tentam tornar matérias de informação em máterias de opinião camufladas. Enganam assim o consumidor final.
Ah, e já agora, só para que conste, há um jornal um bocadito melhor que todos os outros, este:
http://www.iht.com/
Resposta: Realmente o que mais irrita são os jornais que posam de imparciais - essa coisa utópica - quando há opinião camuflada em seus textos mais inocentemente informativos… creio que não existe nem obituário…. nem classificados de empregos imparciais…
Abraços!
9 jorge a. // 10 2 2007 às 11:30
“Realmente o que mais irrita são os jornais que posam de imparciais - essa coisa utópica”
Já agora caro Alessandro,
o que me diz ao que se passa nos Estados Unidos, onde a maior parte dos jornais publica em editorial qual o candidato às eleições presidenciais pelo qual tem preferência?
Acho que essa atitude torna mais transparente a informação para o leitor do jornal, não acha? Cá por Portugal isso não se passa, mas não deixa de ser notório que a linha editorial dos jornais tende a optar por um dos lados em questão - e repare, eu não acho criticável essa opção, só acho criticável o não assumir dessa posição.
Como é no Brasil? Digo-lhe isto porque pelo que me apercebi nas últimas eleições presidenciais brasileiras havia uma clara tendência de divisão entre os eleitores de São Paulo e os do Rio de Janeiro… isso notou-se na imprensa dos dois locais, ou nem por isso? Fizeram como nos Estados Unidos? Ou é menos transparente, como em Portugal?
Resposta: Por aqui, os meios de comunicação, em geral, não têm a coragem e o senso ético - ou, melhor, o interesse - de assumirem suas posições. Foi marcante a cobertura dada, às vésperas da eleição, pela principal revista semanal ao caso de um relatório que “supostamente” prejudicaria candidados do partido que, atualmente, é de oposição por aqui e que “teria” sido comprado por pessoas ligadas ao partido do candidato à reeleição com dinheiro até hoje não se sabe de onde. O mesmo se deu com o principal jornal televisivo. A questão é que basta ter dois ou três neurônios a mais para ver que lado esses órgãos de imprensa defendem. E, não, não há nada de errado nisso de assumir um lado. Até ajudaria na hora das pessoas escolherem que canal assistir ou que revista comprar. E, talvez, as suposições e insinuações feitas e conduzidas com inteligência e com dissimulação pela tevê e pela revista, possivelmente tivessem seu fundo de verdade. O problema é não assumir essa defesa de posição, reduzindo as possibilidades de uma couraça crítica de quem não têm esses dois ou três neurônios a mais. Como por aí, falta ainda por aqui que se assuma para que time se torce.
10 Lino // 11 2 2007 às 11:26
Não li o livro. Mas como um jornalista veterano, hoje fora das redações, endosso sua análise no que diz respeito aos cuidados que todos tomam para evitar processos e problemas.
Os jornais - a mídia de um modo geral - lincha as pessoas, mas tiram o deles da reta.
Resposta: É mesmo engraçado quando nossos jornais tentam se envolver sem se envolver… paradoxal. É como aquele cara que, discretamente, no meio de uma conversa de um grupo, solta a palavra o comentário que desencadeia toda uma confusão e, depois, ninguém lembra quem começou aquilo… sabe como?
Abraços, Lino,
do Alessandro.
11 Celso Miguel // 13 2 2007 às 8:18
Muito interessante, o artigo. Nunca havia parado para pensar em como os jornais de maneira geral se protegem de um “provável” processo criminal por calúnia, ou danos morais, através de palavras estrategicamente colocadas no texto.
Outra coisa: Imparcialidade, é algo que nenhum órgão de imprensa brasileira possui, mas todos eles tentam nos convencer do contrário. Mas até aí tudo bem. Pior ainda são os órgãos oficiais de imprensa, que financiados por nós, não têm o mínimo pudor em defender seus interesses quase sempre políticos.
Resposta: Nesse exemplo dos jornais é que a gente vê que a palavra tem poderes ocultos… a gente nunca sabe do que ela é capaz… é a pena versus a espada…
Abraços!
Deixe um comentário