O que diz Jamil Snege sobre a mediocridade que nos assola

7 2 2007 por Alessandro Martins
· 6 comentários

Jamil Snege é um escritor que aqueles não suficientemente ambientados ao meio literário ou ao meio político talvez desconheçam.

Autor de Como Eu Se Fiz por Si Mesmo e Viver é Prejudicial à Saúde, morreu em 2003 e possivelmente seja mais conhecido por seu talento no marketing político, embora seus maiores méritos fossem os literários.

Ele foi um dos principais responsáveis de famosas campanhas políticas no estado, mas os livros de Snege mostram que, muitas vezes, o talento individual supera em muito a sombra do talento exibido institucionalmente.

Ontem encontrei alguns trechos de uma entrevista dada por ele em um improvável texto - provável porque vi o papelucho onde o trecho estava escrito - redigido para uma missa em sua memória. A homilia, preparada pelo padre Paulo Botas, citava o seguinte, dito originalmente por Snege em entrevista publicada no número zero da literária Et Cetera:

Eu tenho uma dificuldade intrínseca de existir no mundo (…) dada a fragmentação com que vivemos nossas vidas. Somos todos pequenos atores de pequenas aventuras absolutamente irrelevantes. Já não existem grandes revoluções, grandes aventureiros, grandes estadistas. Nossa vida se inscreve hoje nesse gigantesco bric-à-brac do cotidiano. A grande autobiografia, hoje, seria aquela que desse conta da crescente mediocrização a que estamos sujeitos, seja através do embotamento do espírito crítico, da razão ou dos próprios sentimentos.

Imediatamente pensei em uma autobiografia como a de Bruna Surfistinha, mas ela é só o exemplo mais marcante dentre tantas autobiografias irrelevantes que se reproduzem por aí como amebas.

Também lembrei de arremedos de estadistas como Hugo Chávez, a emular o reizinho encarnado por Jô Soares na década de 80 (na época em que Jô Soares fazia algo que sabia fazer), a tentar censurar a imprensa de países vizinhos como o Brasil. Porém, Chávez também é daquele tipo que vem renascendo em profusão abaixo e um pouco acima da Linha do Equador, com discursos que parecem o eco de uma comédia sem graça cujas falas trazem a palavra povo em demasia e com a entonação errada. A entonação de um bobo que quer ser soberano. O tipo de modulação que, pior, ainda consegue enganar número suficiente de pessoas. Os ouvidos do mundo parecem mesmo embotados.

E, infelizmente, recordei também a já esquecida e intensa movimentação que houve em torno do caso Cicarelli, quando falava-se em boicotes tão irrelevantes como o que seria feito à MTV - que emprega a modelo que supostamente “censurou” o YouTube -, quando há coisas mais importantes a serem boicotadas e que talvez há mais tempo precisem de um boicote desse nível. Mas passam batidas.

As palavras também me lembraram que o mundo está repleto de aventureiros de livro dos recordes, competindo para ver quem cospe mais longe. A questão é que o cuspe não nos leva a lugar nenhum.

É isso o que Snege está dizendo.

Mas, na citação seguinte, vê-se que ele, mesmo ele - aparentemente um pessimista -, tem esperança:

Expor as próprias vísceras requer antes de tudo uma grande dose de coragem. Fazê-lo com uma certa ironia, com certo humor, sem, contudo, elidir do ser humano sua dimensão sagrada, exige uma imensa dose de amor pela humanidade.

Aqui e ali, deve haver uma autobiografia assim. Um parágrafo que seja. Uma linha.

Uma palavra que sintetize uma pessoa, todas as outras suas contemporâneas, todas as que a precederam e todas as demais que a sucederão.

Esta palavra é aguardada.

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    Tags: Notas · O prazer de ler

    6 comentários até agora ↓

    • 1 Li // 7 2 2007 às 10:32

      O mundo nos faz assim:
      Desesperançoso.

      Penso que, com o passar dos dias, meses, anos, tornamo-nos mais críticos com tudo e com todos.
      A vida se desnuda na nossa frente sem o menor pudor. Muitas vezes essa STRIP TEASe nos encanta, outras nos enoja e outras vezes não nos causa nenhum tipo de manifestação.

      A verdade é que tudo sempre foi assim. O que muda é maneira de olhar.

      Talvez uma pessoinha que nunca leu nem GIBI ou revista de fofoca, saiba se expressar e conseguir ibope. Essa pessoinha é esperta, ou sabida, como diz minha mãe. ;)

      Como disse antes, o problema não é quem mostra, mas quem vê.

      Sabemos tudo o que tá errado, e no entanto, nada fazemos pra mudar. Antes, vamos lá nas páginas quentes pra ver a Cicarelli se esfregando num homem lá na praia… e ainda exclamamos: “oh! que horror!”… Ah, fala sério!

      Ninguém é medíocre por natureza, mas por opção.

      Pense nisso.

      beijos.

      Li….

      Resposta: Parece que tudo é uma questão de conformidade ou não, não é mesmo?

    • 2 Paulo Polzonoff Jr. // 7 2 2007 às 13:46

      Minha primeira conversa com o Jamil também foi a última. Nunca vou me esquecer da dignidade contida em poucas palavras, que versavam sobre o tratamento do câncer e sobre a proximidade da morte.

      Sobre a mediocridade, o tema é bastante espinhoso para um jantar. Meus parâmetros são altos e cada vez mais altos. O mais importante do trecho que você cita do Jamil talvez seja a primeira pessoa do plural. O mais medíocre talvez seja aquele que se excluí da mediocridade.

      Passa o sal, por favor.

      Abs

      Resposta: Muito bem observado o lance do plural. Desde que comecei a me interessar um pouquinho mais sobre astronomia - e confesso é um interesse ainda medíocre - é difícil ver qualquer problema, qualquer mesmo, ou qualquer grande feito, grande mesmo - como algo que não tenha uma dimensão um tanto quanto medíocre. Iludir-se vez ou outra, no entanto, não faz mal. É até inevitável. Somos humanos com eventuais ilusões de grandeza. Pelo menos, estamos todos em pé de igualdade.

    • 3 Alessandra // 7 2 2007 às 16:12

      Acho que o problema da limitação de visão moderna é compreensível e até perdoável. Afinal, quando o mundo fica tão grande, quando existe tanta informação, quando as coisas mudam tão rápido e tudo que é sólido desmancha no ar, o único porto seguro é aquilo que continua familiar e próximo. Como, por exemplo, a fofoca. Perde-se a perspectiva das coisas grandes porque elas estão grandes demais e a maioria das pessoas já não consegue entender como elas afetam sua vida.

      Mas de todo o texto, a parte que mais me interessou foi a citação sobre o senso de humor. Estou cada vez mais convencida de que senso de humor é essencialmente humano. O homem é o única animal que ri de si mesmo.

      Resposta: E se tem uma coisa que eu levo a sério hoje em dia é cada vez mais conseguir rir de mim mesmo quando estou em uma situação que me leve a ser especialmente sério… é confuso, mas é sério. Ou sei lá ;-)

      Beijos!

    • 4 Hugo Sousa // 7 2 2007 às 20:25

      Generalizando… Quando algo desce de nível, sobe de interesse.

      “e ainda exclamamos: “oh! que horror!””

      Resposta: … e corremos olhar… :-)

    • 5 Djabal // 8 2 2007 às 7:14

      Alguém disse outro dia: “A nossa própria morbidez nos impulsiona para ver esse tipo de coisa, escatológica, sensual ou grotesca. É questão de treinamento e de habilidade, deixar de ver além de elevar seu espírito para o outro lado. O lado do bom gosto.”
      A idéia é essa. Parece mais sensato.

      Resposta: É por conta da primeira frase de sua citação que o trânsito anda mais devagar próximo aos acidentes de trânsito… ;-)

    • 6 silas correa leite // 31 7 2008 às 11:16

      AVENIDA JAMIL SNEGE

      Avenida Jamil Snege
      Não é uma via qualquer no devir de Curitiba
      Mas um espiritual espaço cênico dentro de nossas sandálias de saudades
      (Ele deve estar cerrindo da gente
      Sobre um farol esquinal sempre vermelho-coisa
      Num turbilhão de nuvens como se leitoas brancas
      No tabuleiro em hélio de um céu meio sépia
      Sobre o macadame da terra tipo hidrogênio-pitanga)

      Avenida Jamil Snege
      Poderia parecer humor de polaco anjo maluco
      Mas é um horizonte cor de rosa-chá
      E sobre uma bananeira que já deu goiaba o turco escreve
      Salmos em rimas quânticas
      Todos numerados de A a Z
      Muito além das ficções com laços de ternura nas doces memórias.

      Avenida Jamil Snege
      Entre jardins e tempestades o viajador paranaense olha
      Os picumãs das tardes friorentas do Paraná
      Porque as nuvens entre coxas brancas de crepúsculos amanteigados
      Pitam as chaminés ribeirinhas de pés-vermelhos entre urtigas
      Cheirando jabuticabas brancas

      Avenida Jamil Snege
      Para quem só acreditava vendo, ele agora impertinente lê muito
      Lê os manuscritos cósmicos além de Pasárgada ou Shangri-lá
      Lê atiçado entre os braços de palhas das auroras
      Lê os sótãos de trastes velhos de um Deus com solidão infinita
      Sempre com saudades dos bolinhos de piruás
      Saudades dos papos afiados dos amigos notívagos da boca maldita
      Entre colchas de retalhos celestes revê urbanidades abaixo da seda-luz
      Com reviçadas memórias saradinhas feito guloseimas verbais em volúpias telúricas.

      Avenida Jamil Snege
      É quase um bom bocado, um suspiro, um rocambole, um documento letral
      Na galeria nobre da saudade muito além dos núcleos humanos
      Talvez um reconhecimento de honra e paz nos píncaros da glória
      Enquanto Jamil Snege ri gostoso e trancham com seu novo pijama de estrelas
      Quase que maroteando de nosotros pobres mortais comuns
      Que ainda nos reinamos atiçados em bem bebemorá-lo
      Porque ainda nos restamos algo humanos entre etiquetas e rapsódias
      Muito além das periferias descalças com humildes figuras em bisotê
      De uma Curitiba que amanhece verde
      Porque as gralhas azuis semeiam saudades e lágrimas entre pinheiros.
      -0-
      Silas Correa Leite
      (Sampa Beirando Agosto 2008)

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