A simples menção do nome Rudyard Kipling me faz lembrar de diversas coisas.
Por exemplo.
A Editora Objetiva lançou recentemente, coisa de anos, a coleção em quatro volumes Contos e Poemas para Crianças Extremamente Inteligentes de Todas as Idades, coletânea preparada pelo crítico e ensaísta Harold Bloom.
Uma dessas histórias foi extraída do Livro da Selva, de 1894: Rikki-Tikki-Tavi (desculpe, mas achei apenas a versão em inglês pra você).
É a aventura de um mangusto - um daqueles bichinhos de aparência muito simpática mas que costumam matar najas com sua extrema habilidade - que se desgarrou da família.
Eu justamente lia essa história para o Marcel, pequeno primo da Júlia, sujeito muito espirituoso que adora baleias e outras criaturas do mar. E procurava dar alguma interpretação para a narrativa.
Tive a infeliz idéia de, no momento em que Rikki-Tikki-Tavi é levado embora por uma enxurrada, imitar o Gil Gomes, aquele radialista. Assim como quem narra uma notícia sensacionalista.
Eu sei. Talvez não tenha muita graça.
Mas o menino adorou e pediu para que eu lesse aquele trecho tantas vezes que perdi a conta. Até hoje ele pede que eu repita o mesmo trecho que, aliás, já decorei. Acho que até ele decorou.
Isso é uma boa lembrança, embora recente. O fato é que Rudyard Kipling traz muitas outras boas lembranças.
Outra delas é o filme Mogli, da Disney. Um dos primeiros que assisti com meu pai e do qual guardo com especial zelo personagens como Balu, o urso, Baguera, a pantera, e Shere-Khan, o tigre, entre outros.
E também a inesquecível canção tema de Balu: The Bare Necessities, composta por Terry Gilkyson e indicada ao Oscar, em 1967. Não há como ouvi-la sem sentir-se feliz. É uma espécie de Cantando na Chuva para crianças (todos conhecem o número em que Gene Kelly canta e dança na chuva, mas eu recomendo Good Morning).
Não achei a versão em português de The Bare Necessities no YouTube. Mas a letra da versão é algo assim:
[balu]
Eu uso o necessário
Somente o necessário
O extraordinário é demais
Eu digo necessário
Somente o necessário
Por isso é que essa vida eu vivo em pazAssim é que eu vivo
E melhor não há
Eu só quero ter
O que a vida me dá
Milhões de abelhas vão fazer
Fazer o mel pra eu comer
E se por acaso eu olhar pro chão
Tem formigas em profusão
Então, prove uma[mogli]
Você come formigas?[balu]
Tranquilamente…
E você vai adorar a coceira que elas dão[baguera]
Mogli, cuidado![balu]
E o necessário pra viver
Você terá[mogli]
Mas quando?[balu]
Você teráEu uso o necessário
Somente o necessário
O extraordinário é demais
Eu digo o necessário
Somente o necessário
Por isso é que essa vida eu vivo em pazVejam o pica-pau, pau
Que só pensa em picar[mogli]
Ai![balu]
Ele vai se dar mau, mau
Pra se alimentar
Não pique a pera no pé
Pois pera picada no pé
Nunca presta, pois é
Não vai dar pé
Você vai dar mal
Não pique essa pera como um pica-pau
Você entendeu esse angu?
Depois disso - eu devia ter uns cinco ou seis anos lá por 1979 ou coisa assim -, lembro de meu pai falando, enquanto voltávamos para casa, do Livro da Selva e imaginei um livro gigantesco, com milhares de páginas, com leis, histórias e mitos. Tudo isso na minha imaginação de criança.
Hoje sei que ela, a imaginação, fez a coisa aumentar e se distorcer um pouco. Mas creio que para bem. Sobretudo, encantou-me saber que todas aquelas cores que há pouco vi na tela haviam saído de um livro feito só de letras e palavras e, aparentemente, muito sério e grave.
Assim que chegamos em casa - e essa é outra lembrança importante -, meu pai fez questão de ler para mim um poema de Rudyard Kipling, o autor daquela história que há pouco víramos. E pelo tom de voz que ele assumiu tive certeza de que era algo que ele queria que eu guardasse.
Se eu rezasse, rezaria assim:
Se
Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!
Assim, por hoje, fecho este livro de lembranças.
18 comentários até agora ↓
1 jorge a. // 26 1 2007 às 21:15
Também gosto muito do poema “If” do Rudyard Kipling, mas acho que não há nada como a versão original:
If
If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don’t deal in lies,
Or, being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise;
If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build ‘em up with wornout tools;
If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: “Hold on”;
If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And - which is more - you’ll be a Man my son!
Resposta: Sempre que tenho que aprovar um comentário fico feliz pois sei que é alguém que está escrevendo pela primeira vez por aqui. Seja bem-vindo em primeiro lugar.
De fato, poesia, dentro do possível, tem que ser na língua original. Quem dera pudéssemos dominar tantas línguas quanto existem línguas bons poetas. Obrigado por colocar o poema aqui.
2 Li // 27 1 2007 às 8:52
Sabe, sou uma amante de poesias… Assim, de graça, as amo. Sempre que leio uma, me
emociona.
Quando o assunto é nostalgico, quando fala-se da infância, também fico emocionada.
Hoje, esse seu texto me fez sentir saudades de um tempo bom que fica na memória, e a memória é nossa máquina do tempo, ali (na memória), o podemos voltar a um tempo que vivemos e fomos felizes (ou não).
Obrigada por me proporcionar um choro, algumas lágrimas, um suspiro de saudade e a doçura de uma poesia encantadora.
Parabééééns!
Li.
3 Chris // 27 1 2007 às 10:19
Saber de boas lembranças sempre são agradáveis, qd da infancia melhores ainda…tra a alegria encontrada em coisas simples…
A poesia é perfeita, tanto que a emprestei(com seus créditos claro) pra por no meu flog
Abraços
Resposta: Muito obrigado, Chris! Mas não precisa dar os créditos para mim. Para mim, basta um humilde link… dê os créditos para o autor da poesia, que é o Kipling…
Beijos,
do Ale.
4 Alessandra // 27 1 2007 às 20:58
Você não vai acreditar, mas eu já li Rikki-Tikki-Tavi e em português. A gente em casa tinha o Tesouro da Juventude, que meu avô havia dado para a minha mãe quando ela era pequena. Eu li váaaarias histórias lá, inclusive essa, que eu adorei. Foi no TJ também que eu li O Príncipe Feliz de Oscar Wilde, quando eu tinha nove anos, e me acabei de chorar no final porque a andorinha morreu (eu era muito sensível). Infelizmente, acho que a coleção se perdeu por aí…
Resposta: É aquela história em que ele precisa arranjar uma rosa vermelha para a menina caprichosa?
5 Lucas Castro // 27 1 2007 às 23:46
E o pior é que tem gente que ainda considera literatura infantil, coisa de criança
;P
Lembro-me de uma passagem na qual Jesus diz que o reino do céu é das crianças
sim, lembranças :)~~~
6 jorge a. // 28 1 2007 às 0:33
Caro Lucas Castro,
“E o pior é que tem gente que ainda considera literatura infantil, coisa de criança”
Isso é porque nunca leram o Principezinho (http://pt.wikipedia.org/wiki/O_principezinho) de Saint-Exupery.
Resposta: Então, Jorge, por aqui essa obra é conhecida por O Pequeno Príncipe… lembro que durante muito tempo as pessoas a desvalorizaram por estar associada à leitura preferida das misses…, mas isso passou. Não sei se concordo com aquela história de ser responsável por quem se cativa… talvez em parte… mas sem dúvida que de resto é uma bela história cheia de bons e emocionantes momentos. Dessas que não se esquece e se passa para os filhos, netos e daí por diante…
7 Lucas Castro // 28 1 2007 às 2:08
Jorge,
este é um de meus prediletos.
Antes de ontem mesmo, estava na casa de um amigo meu com a família dele almoçando e existiam várias conversas diferentes na mesa, inclusive uma a qual eu participava na qual o assunto era internet. Derrepente em uma conversa paralela escuto algo sobre um chapéu, que não era realmente um chapéu. Na mesma hora eu viro e digo: “na verdade, era apenas uma cobra que comeu um elefante”.
Foram bons risos por alguns minutos hehe
Resposta: Quando a gente descobre que a maior parte das coisas na vida é apenas uma cobra que comeu um elefante fica mais fácil de dar risada mesmo…
8 Alessandra // 28 1 2007 às 18:28
Oh, não! É a história da estátua do Príncipe Feliz, que pede a uma andorinha que não viaje no inverno, para que ela possa arrancar as folhas de ouro do corpo dele e as safiras dos olhos e dar aos pobres que ele vê do alto do pedestal onde mora. A andorinha faz isso, mas acaba morrendo de frio, depois de dizer ao Príncipe que o ama. É uma história bonita.
Resposta: O Oscar Wilde tinha alguma coisa com passarinhos que morrem… ! Que coisa!
9 Thássius Veloso // 28 1 2007 às 22:16
Ainda não consigo consumir poesia com tanta facilidade. Prefiro a literatura convencional, em prosa. Embora tenha lá meus poemas, é algo que não me interessa muito.
A música que Balu e Mogli cantam, “necessário / somente o necessário”, me lembra das últimas notícias sobre aquecimento global e o provável futuro da Terra. Lamentável. Se todos tivessem a ideologia demonstrada no desenho, não teríamos esse problema.
Resposta: Eu também sou um comedido consumidor de poesia atualmente. Creio que, no geral, os poetas perderam o rumo e deixaram de falar com as pessoas. Estão indo para o caminho cifrado a que chegaram as artes plásticas, ficando quase que incomunicáveis, precisando de manuais de instruções e tudo o mais para serem compreendidos, sem o impacto direto - se não agudo, ao menos crônico - que a arte deveria causar. Gosto de algumas coisas, mas sou bem restrito. Há mais poesia na letra da canção desse filme de Mogli que na maior parte dos poetas concretos, por exemplo. Aquilo me cansa. Desnecessário, somente o desnecessário.
10 Paulo Polzonoff Jr // 29 1 2007 às 13:38
“Caro,
Vc sabia que o Se é um dos poemas mais odiados pela inteligência esquerda? Ele é visto como uma verdadeira peça de artilharia conservadora. Eu nunca entendi por quê. E, mesmo se entendesse, não consigo ver nada de mal nisso.
Aliás, você que gosta de poesia com pê maiúsculo deveria escrever um dia sobre a diferença entre poesia e versinhos. Eu arrisco aqui: a poesia está morta ou moribunda; já os versinhos estão mais do que alegres e saltitantes, emocionando menininhas sensíveis com estruturas fáceis e imagens de apelo imediato.”
Resposta: Gente que ainda pensa em termos de esquerda e direita não tem sensibilidade para apreciar algo bem escrito. Eles mal sabem em qual das mãos colocar o relógio, na verdade… afinal, colocar na esquerda seria submeter esse supostamente nobre pulso ao jugo do tempo imperialista. E colocar na direita seria privilegiar demais esse lado supostamente dominador.
Logo, meu conselho a esses é que vão babar coca-cola com algum poeta concreto.
Para as menininhas sensíveis, pelo menos, ainda há esperança.
11 Luiz Felipe // 5 2 2007 às 16:12
Bom dia,
Estou começando a me aprofundar um pouco mais nas obras que temos e gostaria muito de saber em qual livro encontrar essa obra do Kipling ?
obrigado
Resposta: O poema não sei exatamente. Talvez em alguma obra completa… as outras obras referidas você pode encontrar no Livro da Selva.
Desculpe não poder ajudar completamente… Abraços!
12 Como aprendi a gostar de livros com 11 atitudes simples de meus pais // 28 3 2007 às 8:44
[...] Meu pai me levava ao cinema - O cinema é uma das portas de entrada para a literatura. Foi ao ver Mogli, dos estúdios Disney, que me interessei em ler o Livro da Selva, de Rudyard Kipling. [...]
13 Elisabete Silva // 2 5 2007 às 10:43
Ouvi pela primeira vez este poema num disco de vinil que era do meu pai e se chamava “Este é do papai”. Adorei. Ouvi durante muito tempo muitas vezes, no entanto não sei o que lhe aconteceu. Por isso se alguém souber onde e como posso adquirir este disco, agradeço do fundo do coração.
Elisabete Silva
14 Alessandro Martins // 2 5 2007 às 10:53
Eis aí um disco que será difícil de encontrar, Elisabete, mas, na internet, tudo é possível… Beijos, do Ale!
15 Fabyo // 30 5 2007 às 20:04
Amo o poema IF, e acho a tradução de Guilherme de Almeida excelente.
Gostaria de saber se Kipling tem outros poemas traduzidos em portugues….
16 Alessandro Martins // 1 6 2007 às 9:15
Oi, Fabyo… infelizmente não tenho conhecimento. Mas se souber de alguma coisa, não deixe de voltar aqui e me avisar… abraços!
17 Mateus // 19 6 2007 às 7:33
ak está a versão em português no youtube
http://www.youtube.com/watch?v=mM_Wc1dQRbM
um abraço!!
Resposta: Ei… muito agradecido pela indicação! Abraços!
18 Testando a webcam com o poema Se, de Rudyard Kipling | Livros e afins // 7 11 2008 às 17:47
[...] sim: ia esquecendo do link para o poema Se. Está mais no final do [...]
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