As Bodas de Caná e o dito pelo não dito

19 1 2007 por Alessandro Martins · 6 comentários

Jorge Luis Borges dizia que uma das melhores maneiras de se aprender inglês é ler a versão da Bíblia do Rei James, de 1611.

A Bíblia, independentemente da versão, sempre é uma fonte de literatura e até de poesia.

Uma das coisas mais legais desse livro, nesse sentido, é a síntese de suas histórias, principalmente nos Evangelhos.

Muito enxutas, tudo é contado muito rapidamente. O retrato é esboçado em poucos traços. Muita coisa passa como subentendida. Muito é dito pela ausência. Só o essencial está ali, aquilo que o tempo entre o acontecido e o escrito permitiu ficar.

O trecho As Bodas de Caná, no segundo capítulo do Evangelho de João, é um bom exemplo disso. Quando eu era uma criança carola e não esse pervertido que sou hoje, essa era uma das passagens que mais me causava assombro por motivos que só hoje entendo.

E, ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galiléia; e estava ali a mãe de Jesus. E foi também convidado Jesus e os seus discípulos para as bodas.

E, faltando vinho, a mãe de Jesus lhe disse:

- Não têm vinho.

Disse-lhe Jesus:

- Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora.

Primeiro momento de tensão. Como assim? Jesus chama a própria mãe de “mulher”? Isso soa estranho aos ouvidos de uma criança. Creio que a mim, na época, se minha memória emocional não falha, passou a impressão de um sujeito de personalidade forte que, naquela hora, estava ocupado com outras coisas. Conversando, comendo ou bebendo, ele não queria ser incomodado. Nem pela mãe.

Sua mãe disse aos serventes:

- Fazei tudo quanto ele vos disser.

Como assim? Ele não havia acabado de dizer a ela que não queria ser incomodado? Então, eu entendi que aquilo de “Mulher, que eu tenho contigo?” era uma forma de falar “Tá bom. Depois eu faço.” Todo adolescente tem um jeito muito próprio de dizer isso. Jesus já era adulto, mas certos hábitos permanecem. E, afinal de contas, uma mãe conhece o filho. Além disso, ela sabia, ele era um bom menino. Iria ajudar.

E estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus, e em cada uma cabiam dois ou três almudes.

Disse-lhes Jesus:

- Enchei de água essas talhas.

E encheram-nas até em cima. E disse-lhes:

- Tirai agora, e levai ao mestre-sala.

E levaram. E, logo que o mestre-sala provou a água feita vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água), chamou o mestre-sala ao esposo. E disse-lhe:

- Todo o homem põe primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho.

O desfecho dado pelo narrador é um toque de mestre. É o tipo de coisa que se ouve na literatura oral, nas histórias contadas por nossos pais e avós. Note que Jesus não cuida de apresentar o milagre depois de feito. Ele simplesmente o faz e cuida para que os assistentes levem o resultado para aquele que melhor vai propagar a magnitude do feito: o somelier da casa.

Depois disso, ele deve ficar na dele, a observar enquanto todos estão tentando descobrir o que aconteceu, como alguém que troca o açúcar pelo sal e diverte-se com a reação das pessoas. No caso, a vítima era o mestre-sala. Mas claro que, nesse caso, a traquinagem foi benéfica.

Porém, essa é apenas uma das muitas leituras que se pode fazer das Bodas de Caná. Uma outra possível é a policial.

Mas como dizia Michael Ende, esta é uma outra história que deve ser contada em outra ocasião.

O trecho As Bodas de Caná deste texto foi retirado versão Almeida Fiel e Corrigida da Bíblia.

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    Tags: Livros e afins

    6 comentários até agora ↓

    • 1 Marco // 19 1 2007 às 13:31

      Eu fui obrigado a ler a bíblia quando criança, e, na época, odiei a idéia. Mas, no final, acabei adorando o velho testamento, é tão cheio de batalhas,aventuras, maldições e conspirações, que li quase tudo. O novo testamento nunca me agradou, mas parece que tem seus momentos também… :-)

      Até mais…

      P.S. fiz o negócio do feed, bem melhor mesmo… Ab.

      Resposta: Se eu posso ficar grato por algo em relação às classes de catequese que fui obrigado a freqüentar, essa coisa foi o contato com a Bíblia. Tem muita coisa interessante ali… está em meus planos relê-la, pelo menos os livros mais interessantes…

    • 2 PsychoPenguin // 19 1 2007 às 14:17

      Concordo com o Marco, o velho testamento é muito mais divertido.

      A parte que Isaac vai lutar com deus, e depois ele se torna Israel, toda vez que leio minha imaginação trata de criar um cenário tipo Street Fighter. :)

      Além de que o velho testamento tem um monte de sacanagem. Ah! Os cantos de Salomão… ;)

      Resposta: Apesar de também gostar do Velho Testamento, sempre me agradou a idéia de haver quatro versões diferentes de uma mesma história no Novo… depois vem gente vendendo esse tipo de coisa como se fosse vanguarda. João, Mateus, Lucas e Marcos já tinham dado conta do recado. 

    • 3 Li // 19 1 2007 às 17:03

      Meu querido Alê,

      Quando se trata das histórias biblícas, eu realmente fico meio boba, sabe?
      Como muitas e muitas pessoas, eu conheci a religião, a bíblia e afins, na minha infância querida, que os anos não trazem mais.
      Só que eu nunca fui lá muito assídua nesse assunto. Como sou de família católica, fui batizada, fiz a primeira comunhão, não fui crismada, me casei e ainda não cheguei na extrema unção (e que demore), mas sou frustrada em relação a Bíblia.
      Não a entendo. Acho que fico muito nervosa com o fato de dizem que “ela” é a palavra de Deus. Aí eu a abro e leio algo que, na minha cabeça, quer dizer que eu estou fazendo algo abominável e pronto, fico com aquele peso na consciência. (mas acho que isso é problema pra psiquiatra resolver…heheh)
      Sei que isso é a cabeça da gente que faz (o peso na cachola), mas pra quê uma “forcinha” tão forte???

      Agora, falarei como católica e das coisas que aprendi:
      Amo Nossa Senhora, mãe de Deus, com todas as pompas que Ela merece.
      Acredito que no episódio das Bodas de Caná, a mensagem que fica, é o poder de mãe. Alí, o poder de Nossa Senhora.
      Ele ainda não estava no seu momento, pois Ele sabia o momento de operar milagres. E não era alí e nem daquela forma.
      Mas Ela pediu. E Ele a atendeu.
      A forma como Ele responde “…Mulher”, só mostra, que pra Jesus, somo todos iguais… só que Ela pedindo, Ele atenderá.
      É confuso. Mas creio que seja isso.

      Não disse “Nossa Senhora”, nem em nome de “Jesus” para provocar nada nem ninguém, foi só pra mostrar minha opinião.

      Não quero discutir religião.

      Um beijo Alê.

      Li.

      Resposta: Tenho certeza de ela botava ordem na casa, Li.

    • 4 Lucas Castro // 19 1 2007 às 18:47

      Independente das crenças, o conhecimento reunido da bíblia, é algo que não pode ser simplesmente descartado.

      Mas não deve-se deixar de lado o interesse por outras religiões assim como não deve-se deixar de ouvir as propostas do partido oposto na política.

      Não que religião tenha algo com a política ou vice-e-versa. É que as pessoas cometem o mesmo erro nas duas coisas….

      Resposta: Só o valor literário da Bíblia seria suficiente… mas tanto mais se considerarmos aquilo que ela representa a mais para as pessoas que têm uma ligação mais religiosa com ela. Como todo texto, dá margem a interpretações. Convém respeitar a interpretação alheia. Muito embora o mesmo valha para qualquer outro texto. E, parece ser ainda mais difícil, no meio de picuinhas literárias, ter suas interpretações aceitas pelos outros…

    • 5 leanDrow // 20 1 2007 às 0:12

      Me identifiquei com o comentário da Li. Por ser de família católica fui batizado, fiz primeira comunhão, crisma, mas nunca tive muita paciência pra Igreja, nunca.

      Apesar de meus pais insistirem bastante com o tempo fui parando, por não concordar com algumas idéias ali apresentadas, e isso pra mim soava como hipocrisia. Eu ir lá e não ter interesse por tal coisa.

      Mas enfim, se for pra discutir minhas teorias de Deus, igreja e afins daria quase um post-comentário, então deixa pra lá.

      Resposta: Mas se um dia sair um post-comentário, fique à vontade. Faça como se a casa fosse sua… mas eu sei como é. Certos assuntos são importantes, mas dão até preguiça… 

    • 6 Thássius Veloso // 20 1 2007 às 21:03

      Nunca li a Bíblia. Não tenho interesse e acho que nunca terei. Por que? Deixa pra lá.

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