Viajar é excelente diversão, mas não é a felicidade garantida ou seu dinheiro de volta.
Um amigo certa vez perguntou, em uma de suas muitas viagens, a um outro turista compulsivo qual foi o melhor lugar que conhecera durante os seus muitos deslocamentos. O outro, que já conhecera o mundo inteiro, respondeu:
- Aqui - colocando o indicador na fronte. Sua cabeça era o melhor lugar que ele conhecia.
Eu e Júlia continuamos a ler o livro A História Sem Fim, de Michael Ende. Agora deparamos Graograman, a Morte Multicor. É um majestoso leão, senhor do colorido deserto de Goab. Ele se desloca rapidamente por sobre as dunas de variados matizes, emprestando delas as cores para sua magnífica pelagem. Ninguém chega perto dele sem se tornar cinzas.
Bastian está perdido nesse deserto e deseja sair. Finalmente, encontra Graograman que, ao ver que Bastian não se incinera na sua presença, reconhece nele alguém a quem servir:
- Senhor, disse ele, sou o seu servo e aguardo suas ordens!
- Gostaria de sair deste deserto, explicou Bastian. Você pode me levar para fora daqui?
Graograman abanou a juba.
- Isso é impossível, senhor.
- Por quê?
- Porque eu trago o deserto comigo.
E tal é. O deserto faz parte do corpo do gigantesco leão e, por mais que ele se desloque, não importa a velocidade, sempre o levará consigo. De tal maneira que, ainda que a paisagem tenha mudado de um dia para o outro como é costume nos desertos, ele sabe exatamente as posições geográficas de seu reino. Assim como, mesmo de olhos fechados, sabemos onde estão nossos braços, pernas, enfim.
Há diversas formas de aprender coisas nos livros. Uma delas é com os mitos, com a própria narrativa, tal o exemplo de Graograman. Outra é a exposição pura e simples.
Por exemplo: imediatamente quando li essa passagem, lembrei que, há muito tempo, havia lido em Ensaios, livro de Ralph Waldo Emerson, algo que dizia respeito a isso.
Viajar é o paraíso dos tolos. Devemos às nossas primeiras jornadas a descoberta de que o lugar não significa nada. Em casa, imagino sonhadoramente que em Nápoles ou em Roma poderei intoxicar-me de beleza e livrar-me da tristeza. Faço as malas, abraço os amigos, tomo um vapor e, finalmente, acordo em Nápoles e lá, diante de mim, está o facto insubornável, o triste eu, implacável, idêntico, de que fugi. Visito o Vaticano e os palácios. Finjo estar intoxicado com as visitas e as sugestões, mas não é verdade. O meu gigante acompanha-me por onde vou.
Não digo que de nada adiante viajar. Uma viagem, até mesmo para a região metropolitana de sua cidade, sempre terá muito a acrescentar. Viajar sempre é bom. Mas não viaje em busca de uma felicidade.
Ela, a felicidade, já deve estar na bagagem.
Serviço
Compare preços de livros de Ralph Waldo Emerson, de Michael Ende - em especial A História Sem Fim (sério, leiam!) - e sobre viagens pela Europa.



9 comentários até agora ↓
1 Paulo Polzonoff Jr // 15 1 2007 às 19:41
Tá na sua fase “luva de pelica”? Nem precisava…
2 leanDrow // 16 1 2007 às 2:45
E não é que a cada post seu blog fica melhor, Alessandro?
E inversamente proporcional é o teor dos meus comentários: cada vez piores.
Muito interessante esse texto. =D
Resposta: Você é sempre convidado a comentar por aqui, Lean. Se disser apenas não ou apenas sim, já vai servir para apontar um caminho para este que vos escreve.
3 Thássius Veloso // 16 1 2007 às 5:31
Viajar é um dos meus planos de aposentadoria (ainda falta!). Acho que o ato de viajar pode trazer felicidade sim. Minha avó vive viajando, “aproveitando a vida”, e por isso mesmo é feliz. Ela ama conhecer lugares novos ou rever os já conhecidos.
Mas, claro, isso varia do estado de espírito de cada pessoa. Um emburrado vai achar Tóquio, ou Paris, ou mesmo Nova Iorque, uma chatice.
Resposta: Aí é que está… ela é feliz porque viaja ou viaja por que é feliz? Creio que uma coisa não depende da outra. Elas podem ser, no entanto, bons complementos… e como.
4 Ana // 16 1 2007 às 7:31
Nossa, Alessandro agora eu simplesmente viajei nas suas palavras! Lembrei-me do dia em que, “criança pequena” ainda, assisti ao filme História Sem Fim… Ele se tornou um sucesso sem igual nas salas de cinema do país, vc se lembra disso?
Tenho que assistir de novo, e quem sabe, viajar mais na leitura do livro?
Beijo, boa 3ª feira.
Resposta: Claro que lembro! Eu estava lá! Boa terça pra você também!
5 Fernanda // 16 1 2007 às 8:02
Fantástico este texto. Vivemos uma época de apologia às viagens, em que a própria palavra “viajado” tem um sentido conotativo que vai muito além de ser uma pessoa que se deslocou muito.
Eu nunca deixo de me impressionar com a ansia curitibana de viajar. Pode estar um tempo horrível, ser cansativo, um trânsito infernal, todos sem dinheiro… mas os curitibanos sempre viajam para a praia nos feriados. Levam Curitiba toda com eles e todo mundo se encontra lá… Mas viajar dá às pessoas a ilusão de algo maior.
Sim, o deserto está dentro, e não fora.
Resposta: mas tem que viajar né? Para encontrar todo mundo lá em Caiobá… :-P
6 Marco Carvalho // 16 1 2007 às 10:07
por uma sinconicidade li ontem o conto “A ilha desconhecida” do Saramago que tem uma temática muito parecida com a da viagem e da felicidade na bagagem :)
Muito bem escrito, curto e com umas pérolas muito interessantes como esta, que valeu o livro: “Gostar provavelmente é a melhor maneira de ter. Ter é possivelmente a pior maneira de gostar.”
Abraços
Resposta: Eu vi a peça e achei muito bom. Digo, o texto sempre acaba me chamando mais a atenção que outra coisa… ontem eu vi um filme que diz respeito a algumas coisas que estou lendo e devo escrever sobre ele em breve…
7 Lucas Castro // 17 1 2007 às 12:34
Muito bem relacionado o fato do deserto, com a desculpa que algumas pessoas usam para planejar ir morar fora. Não em apenas passar um tempo e sim ir morar.
Realmente apenas “ir morar em outro lugar” não vai trazer a felicidade. No entanto, eu diria que não é certeza, portanto não deve ser utilizado apenas para isso. É uma questão estatística. Pode ser que ao morar em outro lugar, suas novas amizades sejam melhores e mais valiosas. Ou não.
Se você realmente planeja ser feliz, tem que aprender a ser feliz sozinho. Sua felicidade deve ser abrilhantada por outros, mas nunca dependente.
Adoro o poder mágico que este tipo de literatura tem. História sem fim, Alice no país das maravilhas e coisas do gênero. Foi completamente nostálgico ler o seu artigo, pois me lembrei da época em que eu via a TV Cultura… Ra-tim-bum sempre teve minha predileção. Me arrepio até hoje quando lembro do “Senta que lá vem a história”.
Mais uma vez, obrigado =D
Resposta: Eu também adorava o Ratimbum, antes de virar castelo e depois ilha e depois filme. Não tinha nada igual àquilo e olha que eu já era grandinho…
8 about:blank » Blog Archive » Delicious is vicious #7 // 17 1 2007 às 13:19
[...] 1. O leão carrega consigo o próprio deserto e a felicidade das viagens (literatura, leitura obrigatória) 2. Google videos na rua (publicidade) [...]
9 Alicia // 19 1 2007 às 7:55
Realmente, eu sempre estive e estou lá. droga! ehhehehe
Resposta: Então chuta que é macumba…
Deixe um comentário