A leitura como relação simbiótica ou o personagem no espelho

1 1 2007 por Alessandro Martins
· 6 comentários

Atreiú, um dos heróis de a História Sem Fim, do alemão Michael Ende, num dos capítulos precisa passar por três portas para atingir um determinado objetivo. Todas elas são desafios. A segunda é a Porta do Espelho Mágico, em que cada um vê o seu verdadeiro eu. Muitos fogem traumatizados com o que vêem. O jovem Atreiú, um menino caçador do mundo de Fantasia, vê nela, diante de si, o outro herói da história, Bastian, o garoto que lê o livro de que Atreiú é personagem.

Um rapaz gordo, de rosto pálido - aproximadamente da mesma idade que ele - sentado de pernas cruzadas sobre uma cama feita de colchões amontoados, lendo um livro.

E então, em letras de outra cor - recurso usado na edição para diferenciar a realidade de Fantasia e a realidade de Bastian - está escrito:

Bastian estremeceu ao compreender o que acabava de ler. Era ele! A descrição coincidia em todos os detalhes. O livro começou a tremer em suas mãos. Decididamente, aquilo estava indo longe demais! Não era possível que, em um livro impresso, pudesse estar escrito algo que só se referia àquele momento e a ele.

É tocante a forma como Ende usa a idéia de que o leitor constrói a história e os personagens a cada leitura.

Atreiú ao olhar no espelho vê o seu verdadeiro eu ou, quem sabe, sua outra forma de ser sem a qual não existiria, a sua contrapartida. Se, naquele instante, Bastian também olhasse em um espelho daquela mesma natureza, talvez visse a Atreiú.

Quem lê coloca muito de si nas palavras que correm sob os olhos e, em troca, empresta muito do seu ser às idéias expressadas pelo autor e à narrativa por ele contada.
Talvez não seja exagerado dizer que o ato da leitura seja uma espécie de simbiose obrigatória. O leitor precisa do livro - e dos personagens no caso de uma narrativa - para existir como leitor e os personagens precisam do leitor para sobreviverem.

Se isso não acontece, esqueça. Esse livro, pelo menos por enquanto, não é para você e, provavelmente, você não é para esses personagens. Os laços biológicos necessários para tal relacionamento não se deram e talvez se dêem apenas mais adiante, talvez nunca. Mas nenhum drama aí. Afinal, ninguém fica chateado que uma lula não se relacione com um mico-leão dourado.

Mas deixando as tergiversações zoológicas, pretendo dizer que Bastian ainda não havia percebido que era aquilo exatamente o que acontecia. Não só é possível que um livro diga respeito a quem o lê como também diga respeito precisamente àquele momento em que ele é lido.

Se eu ler Hamlet, de Shakespeare, hoje, não será o mesmo Hamlet que li aos quinze anos. Talvez o príncipe dinamarquês se espante ao olhar no espelho.

Mas, como o próprio Michael Ende diria, esta é uma outra história e deve ser contada em uma outra ocasião.

Serviço: compare preços de livros de Michael Ende.

Você vai gostar...

  • Você pode ser o personagem de um livro
  • Quer ser o personagem central de uma história do Batman? A empresa Personato bolou um esquema de publicação em que o livro é impresso com o seu nome e outros nomes
  • Sobre a boba sacralização da leitura
  • Eis o que escreve João Varella no Blog Curitibocas: Sacralizar a leitura com um objeto certo, um momento certo e um método certo para ler é bobagem. Emprego aqui "leitura" no

    Devils A Arte da Palmada Bilhões e Bilhões: Reflexões Sobre Vida e Morte

    Clique nos livros para comprar. Quero ver mais indicações.

    Tags: Notas

    6 comentários até agora ↓

    • 1 Paulo Polzonoff Jr // 1 1 2007 às 21:44

      Minha “tara” sempre foi a deixar claro isso: cada livro é uma experiência necessariamente individual. Mas daí veio a era do Markting e todo mundo começou a ler as mesmas coisas e algo em mim se perdeu…

      Resposta: Aguarde. Agora chegou a era do “Search Engine Optimization”. O horror é inesgotável.

    • 2 Erwin // 2 1 2007 às 7:16

      Na realidade, todo leitor é, quando lê, o leitor de si mesmo. Marcel Proust.

      Resposta: O ato de ler é muito mais completo que o de escrever, pois envolve leitor, autor e texto. É na verdade um labirinto em que esses três elementos - e talvez mais alguns - se entrelaçam. Borges gostaria disso. Ou, melhor, gostava.

    • 3 Thássius Veloso // 2 1 2007 às 8:12

      É certo que cada pessoa sintetiza as cenas descritas em um livro de forma diferente, uma vez que todo o contexto cultural muda. Isso é claro quando, a partir de algum livro, faz-se uma adaptação para o cinema.

      Dou como exemplo “Harry Potter”, que já teve quatro dos seis livros escritos (a saga terá sete) convertidos em filme. Não era do jeito que eu imaginava; ainda assim foi uma forma de enriquecer a narrativa. Mas, de forma contraditória, há também um empobrecimento pois o leitor não imagina tanto quanto antes, mas tem uma riqueza de detalhes que muitos nunca imaginariam.

      Resposta: Por essas e outras é que prefiro assistir a um filme como uma outra coisa, sem comparar. Até gosto quando há detalhes totalmente diferentes ou até contrários do que há nos livros. É ousado e, muitas vezes, surpreende. Não vejo a necessidade ou a obrigação de um filme trazer exatamente aquilo que está sugerido em um livro. Cada um - livro e cinema - tem suas limitações e qualidades, não é mesmo?

    • 4 Fernanda // 2 1 2007 às 12:17

      E eu, que quando vi esse filme, levei um baita susto nessa parte e não entendi nada…

      Lembro bem que foi o primeiro filme legendado que eu mesma li. E quase sempre não conseguia chegar ao fim das frases.

      Resposta: Eu também não entendi muito bem na hora e, na época, nem fazia idéia de que existia o livro do filme… mas, enfim, agora está bem claro para mim… :-)

    • 5 Lucas Castro // 2 1 2007 às 12:18

      E por que não estender esse conceito aos blogs?

      Resposta: Não vejo por que não, Lucas. Apesar de, na maioria das vezes, um blog não ter personagens ou o autor ser o personagem, acho que a relação entre leitor e texto continua a existir dessa mesma forma. Perfeitamente estendível.

    • 6 Rui de Lucca // 10 3 2007 às 15:13

      Livro soberbo esse História sem Fim. Li ainda no ensino médio, numa época em que eu havia me impressionado com o filme. Bem, agora que eu já manifestei o meu fanatismo pelo livro (não pelo autor porque eu não conheço nenhum outro livro dele), sobre o texto, a identifiação do leitor com o personagem principal do livro é tão grande que se torna quase heresia quando o autor mata o personagem principal. Ah, a mesma coisa acontece nos filmes também, e nos jogos de videogame.

      É isso.

      Resposta: A Júlia me falou que outros livros dele também são bons… e confio muito no gosto dela. Vamos ver mais para frente… agora vou começar minha pós em literatura brasileira e história nacional e terei pouco tempo para ler coisas fora do currículo… rs!

      Então, Rui! Não vou dar conta de responder todos os comentários que você fez, pois hoje estou com o tempo meio escasso… quero deixar aqui minha gratidão por sua intensa participação em meu blog, no entanto. Muito obrigado!

      Abraço.

    Deixe um comentário