Umbigo, esse pequeno centro do Universo

26 12 2006 por Alessandro Martins · 3 comentários

A questão do umbigo de Adão e Eva já fartou teólogos e até mesmo fóruns da internet com sua duvidosa relevância. Afinal, se eles não estiveram ligados por cordão umbilical algum a útero nenhum, não deveriam tê-lo. Na dúvida - e para preservar a plasticidade de suas obras - a maior parte dos artistas importantes os pinta com o detalhe. E provavelmente por considerarem essa questão pouco relevante e preferirem não pensar muito no assunto.

É notável que normalmente se esqueça que o umbigo é na verdade uma cicatriz. Também como notável é que a sociedade ocidental que desperta para o século 21 tenha voltado seu nariz justamente para ela. É difícil saber o que esperar de uma humanidade que faz isso. Afinal, para obter uma cicatriz é preciso que antes haja um ferimento mais ou menos grave.

Nem toda cicatriz significa uma ruptura com um estado anterior, mas toda ruptura com um estado anterior deixa uma cicatriz, símbolo ou lembrança da antiga condição.

O umbigo é das manifestações mais físicas disso. Todo ser humano, todo mamífero porta um. Uma afirmação de que um dia você foi um ser aquático, que vivia em um útero, enclausurado, flutuante e feliz a se perguntar se, afinal, havia vida após o nascimento. Ao sair dali, passa por uma mudança brusca. Seus pulmões, antes colabados, precisam instantaneamente dolorosamente aprender a respirar, seu corpo passa por uma passagem apertadíssima, expulso do que seria o paraíso, e sua pele conhece agora um ambiente seco. Há luz e formas sem significado e seus olhos doem. E a ligação que existe entre você e o útero é desfeita.

Resultado? Umbigo.

As sociedades primitivas e algumas ditas evoluídas costumam fazer ritos de passagem que não se enfrenta sem ficar com algumas marcas. É uma maneira de dizer que você já fez parte de outro mundo e agora faz parte de outro. Quem já faz parte desse novo mundo o reconhece e quem não faz o teme ou respeita ao ver essa marca. Como se compartilhassem o mesmo espaço e, ainda assim, seus universos fossem distintos.

Outra coisa notável no umbigo é que cicatrizes redondas como ele são incomuns. Normalmente têm o formato de uma linha. Daí o úmbigo, tão redondo e sujeito a órbitas, ser uma espécie de novo geocentrismo pagão e, até, cristão.

Será preciso um novo Renascimento para que se descubra, embora seja tão óbvio, que o centro do Universo é outro e que os planetas não giram em torno da barriga de cada um de nós. Isso não é possível.

Afinal, todo mundo sabe que o centro do Universo é o seu umbigo. O seu.

Você vai gostar...

  • Dicionário de Símbolos: a simbologia do livro
  • O livro tornou-se um objeto tão popular que a força de alguns de seus significados perderam-se pela saturação de sua presença. Afinal, tudo o que se repete cotidianamente pode - eu
  • Como agir em uma abordagem policial
  • Ninguém está isento de uma batida policial. Quanto mais conhecemos nossos direitos e deveres, porém, menores são as chances de sofrermos abusos. O Centro de Direitos Humanos de Sapopemba preparou um

    Tags: Livros e afins

    3 comentários até agora ↓

    • 1 Ana // 26 12 2006 às 9:59

      Alessandro, muito bom seu site. Esta discussão do umbigo é muito interessante… É muito difícil fazer com que as pessoas parem de olhar para o próprio umbigo e olhem para o umbigo dos outros, quer dizer, preocupem-se com o próximo, ao invés de apenas preocuparem-se com si mesmas…
      E as meninas que fazer piercing no umbigo? O q vc acha desta glamourização da cicatriz do nascimento? Uma forma de orgulhar-se por ser mamífero? Por ser humano?
      Enfim, sobre o “continue a ler” eu acho bacana, seleciona quem se interessa mesmo por seus textos. Queria por isso no Mineiras, Uai, mas fui voto vencido… Beijo

      Resposta: Eu costumo adorar o umbigo alheio. O piercing no umbigo é bacana, mas é curioso por tratar-se de uma cicatriz em outra. Quanto ao continue a ler, continue a insistir… quem sabe as outras mineiras desistem de continuar a recusar? Coloquei vocês nos meus feeds e vou poder continuar a acompanhá-las a partir de agora :-)… E continue a ver meu umbigo no meu outro site: http://www.cracatoa.com.br :-)

    • 2 Paulo Polzonoff Jr // 26 12 2006 às 10:47

      Exatamente: o meu.

      Resposta: Na verdade, eu estava falando comigo.

    • 3 Thássius Veloso // 26 12 2006 às 23:11

      O dia que eu olhar pro seu umbigo como olho para o meu, com o mesmo respeito e atenção, o mundo seria o paraíso. Ou quase isso.

      Alessandro, já cansei de elogiar seus textos! São sempre tão bons que a partir de hoje o elogio fica embutido no comentário. :)

      Resposta: Tem razão, Thassius… talvez aquela lei fosse melhor compreendida se fosse dita dessa forma: amai o umbigo do próximo como a teu próprio… quanto aos textos, gostei muito daquele seu em que fala sobre amizades virtuais e reais. Acho importante que quem escreve na internet saiba que há pessoas do outro lado da tela… estava falando com meu amigo esses dias sobre como a maior parte do mundo age como se a internet - blogs, orkut, bate-papos - fosse uma espécie de espelho de banheiro. E ficam fazendo caretas e amplificando e mostrando tudo aquilo que são - e talvez não devessem ser - como se estivessem sozinhos, mas não estão. Receber um elogio de alguém que tem consciência de que as coisas não são assim é bastante tocante.

    Deixe um comentário