Não sou partidário do pessimismo de um Cioran ou da falta de perspectiva apresentada por um Beckett, embora admire o modo sedutor com que expõem suas idéias.
No entanto, foi lendo um perfil de Beckett feito por Cioran, no livro Exercícios de Admiração que pude ver de relance o retrato de um amigo, um irmão. Mais que isso, pude ver o retrato de nossa amizade.
Com os escritores que não têm nada a dizer, que não têm um mundo próprio, só se fala de literatura. Com ele, muito raramente, na verdade quase nunca. Qualquer assunto quotidiano (dificuldades materiais, preocupações de todos os tipos) o interessa mais - na conversação evidentemente. O que não consegue tolerar, em todo caso, são perguntas como: você acredita que tal ou tal obra esteja destinada a durar? Que tal ou tal merece o lugar que tem? Entre X e Y, qual sobreviverá, qual é a maior?
Sempre admirei como, apesar de vivermos envolvidos por livros, ainda que de modos diferentes - ele mais apaixonadamente que eu -, nossas conversas raras vezes enveredaram para a literatura e, quando isso acontecia, havia algum motivo prático para tal.
Na verdade, as pessoas se surpreenderiam sobre o tipo e a variedade de assuntos sobre os quais conversávamos.




1 comentário até agora ↓
1 Paulo Polzonoff Jr // 17 12 2006 às 23:31
Sem contar o dinheiro gasto no fliperama…
Mas, para sua informação, estou longe daquele homem apaixonado por livros. Sou o mesmo e no entanto sou tão outro…
Me interesso cada vez mais por pessoas. Não todas as pessoas. Algumas pessoas. Mas, sobretudo, pessoas.
E, vc sabe, só alguns livros podem ser considerados pessoas.
abs
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