Dédalo é desses personagens secundários fundamentais, sem os quais os protagonistas não chegam a seu fim e tampouco a história se desenrola.
Claro que o Minotauro chama mais a atenção. É o que eu mais lembro da série infantil O Sítio do Pica-pau Amarelo, em sua primeira versão.
O monstro às vezes obtinha uma licença de seu labirinto a fim de raptar Tia Anastácia que, com seus deliciosos bolinhos, permitiria uma pausa em sua dieta de jovens atenienses.
Mas a importância de Dédalo voltou para mim quando, em O Herói de Mil Faces, Joseph Campbell chama atenção para o fato de que esse personagem encarna o artista-cientista que se coloca acima da ética do seu tempo e aplica a si apenas a ética devotada à sua arte.
Primeiro ele é chamado a resolver um problema da rainha, esposa do rei Minos, de Creta.
Minos enganara Posêidon, deus do mar, e ficou com o touro branco enviado pela divindade como sinal de boa fortuna. O vingativo Posêidon fez com que a rainha se apaixonasse pelo animal.
Ela, por sua vez, chama Dédalo para solucionar sua paixão. Ele cria uma vaca de madeira, na qual a rainha entra e, assim, enganam o touro.
Tempos depois ela tem um filho que é a cara do pai. Ou seja, tem a cabeça de um bovino.
Ciente de sua culpa, agora é a vez de Minos chamar Dédalo. Pede que ele construa em Cnossos um labirinto onde irá morar o Minotauro.
E assim o faz Dédalo. E é um labirinto de tal forma complicado que ele mesmo quase fica ali preso.
O Minotauro, confinado nessa construção, é periodicamente alimentado com jovens atenienses, sete homens e sete mulheres, enviados de barco de nove em nove anos, sob ameaça de guerra a Atenas.
A filha de Minos, Ariadne, se apaixona por um deles, Teseu.
Então Dédalo é novamente convocado. Ariadne lhe pede que ensine uma maneira de Teseu conseguir decifrar o labirinto.
E ele lhe dá um carretel com fio de linho. Basta que a ponta seja presa na entrada do labirinto. Depois de matar o monstro, Teseu só precisou enrolar novamente a linha.
Note como Dédalo apresenta soluções para as questões geradas por soluções anteriores. Age sem se perguntar se o que faz na verdade desfaz o que realizou anteriormente.
Então, Dédalo precisa solucionar o problema gerado pela última solução que, por fim, o envolve diretamente.
Ele é preso por Minos por ter ajudado a matar o Minotauro. Com o filho, Ícaro, é condenado a ficar dentro do labirinto até o fim de suas vida. Conhece as saídas, mas estão todas vigiadas por guardas. Então, cria umas asas feitas de penas e cera. Mas, como diz Michael Ende, esta é uma outra história e deverá ser contada em outra ocasião.
Dédalo, mesmo não sendo essa a intenção do livro de Campbell, me faz lembrar uma frase que ouvi de alguém certa vez: a informática nasceu para resolver os problemas criados pela informática.
Mais do que representar um artista-cientista arquetípico, creio, Dédalo representa a própria Ciência. É quase uma força natural, uma entidade inconsciente, movida por algo que está além de um controle individual. Como todo bom personagem, encera em si muito mais uma idéia universal que uma noção individual.
Para chegar à conclusão que desejo, quero usar exemplos não mitológicos e bastante conhecidos.
Como Santos Dummont, que reagiu mal ao uso de sua invenção, o avião, para a guerra. Ou Einstein, quanto à bomba atômica. Mesmo as usinas nucleares não são grande coisa do ponto de vista ecológico. Eles, como tantos outros cientistas, são instrumentos da Ciência - que como mostrei pode ser simbolizada por Dédalo -, através dos quais ela se manifesta.
A Ciência é como uma chave. Se você perguntar, provavelmente uma hora ou outra ela trará as respostas. Ela abre portas. Basta colocá-la na fechadura e girar o tambor.
Mas não se sabe se além do batente estará um minotauro. Talvez seja necessário abrir outra porta, então, para enclausurá-lo novamente.
E, então, mais Ciência.
4 comentários até agora ↓
1 Fernanda // 15 12 2006 às 11:33
“O xadrez desenvolve muito a inteligência de jogar xadrez” (Millôr) Acho que podemos dizer a mesma coisa da ciência.
2 alex castro // 15 12 2006 às 20:29
cara, eu gosto muito do seu blog mas fico profundamente irritado e frustrado de vc me obrigar a dar mais um clique para ler o resto do post. na maioria das vezes, eu simplesmente nao clico. acho esse um serio problema de usabilidade.
3 Alessandro Martins. » Blog Archive » A necessidade ou não do “continue a ler” // 8 1 2007 às 17:59
[...] Logo descobri, por um comentário, que muitas pessoas podem ficar desagradadas com ele. Agradeci a sugestão de aboli-lo e ainda troquei alguns e-mails com seu autor que é especialista em usabilidade. Ele inclusive fez um post em seu blog para certificar-se da acuracidade do conselho que me deu e ao qual sou muito grato. [...]
4 patricia // 28 6 2007 às 8:38
pow mt massa….
e o msm q vou apresentar..
hasasuasuasuhsh
fui
Resposta: Espero que faça bom proveito, Patricia! Beijos do Ale.
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