A primeira pergunta é, afinal, quem eu sou. Com ponto de interrogação no final, como é adequado às perguntas. Quem eu sou, se pergunta o homem ainda em formação aos três anos de idade, ainda que não formule com essas palavras pois, mais que a curiosidade, existe a necessidade de responder. E a necessidade não conhece palavras. As indagações da necessidade se parecem mais com mãos que buscam no escuro onde se apoiar.
Mas podemos ir mais longe no passado e ver como aos poucos meses de idade o homem, este em formação, responde à pergunta - quem eu sou - com a mesma necessidade que impulsionou a dúvida. E ele é a avidez da boca no seio da mãe. Então, se tivesse palavras, perguntaria. Responderia que ele é a garganta por onde desce o leite morno, que, ainda há pouco, morava na carne da mulher que o embala. Quem eu sou, uma pergunta líquida.
E tanto não é que, aos cinco anos, o homem, este em formação, se descobre abandonado entre outros homens - que certamente não são ele - e percebe que a resposta é eu sou essa melancolia de me sentir apartado das cercas entre as quais há pouco corria e brincava e via pai, mãe, irmãos e avós a sorrirem. E, agora, há outros desconhecidos. Quem eu sou, a grande pergunta escrita no quadro negro da primeira escola da primeira letra a.
Talvez eu seja esse que desenha a letra a, ele se responde - sem responder -, a segurar um lápis hesitante a copiar o desenho, talvez o mesmo desenho que inicia o seu próprio nome, o que leva bordado na camiseta e na cueca. Mas a pergunta persiste, pois a resposta é insatisfatória, como se a cada sede só servisse um tipo de água. Permanece sedento este homem, então em formação.
E finalmente aos dez anos ele se faz a pergunta, quem eu sou, uma pergunta que se faz com gestos e se responde com ações. E ele é a ponta de uma flecha no meio de seu peito, o cinzel que esculpe a primeira decepção amorosa num período da vida em que o amor não ousa se dizer como tal. Mas é, pois fere igual. Quem sou, ele se pergunta a olhar pela janela a espera de que uma menina, outra criança passe. E ela não passa. E ele é a espera, ele é a janela, ele é um veio negro no mármore branco de uma ausência cardíaca de uma mísera década de vida. Uma criança, um homem - então, em formação -, um pequeno nada do universo, se dando ao direito de conhecer as primeiras dores verdadeiras que só a menina mais linda do colégio pode conceder.
Mas a resposta. Permanece insatisfatória.
Aos 15 anos, ele faz a mesma pergunta, quem eu sou, e a faz todos os dias, algumas vezes mais, algumas vezes menos intensamente, mas a faz todos os dias. E ele descobre que é transitoriedade, pois sua cara muda no espelho, pêlos crescem na cara e no saco e embaixo do braço e a voz muda, mas o coração permanece com o tal fio escuro de pedra a correr, não frio como rocha, mas quente como o minério profundo. Raro. O primeiro amor passou, o segundo, o terceiro, como no poema de Drummond, mas vieram também o quarto, o quinto, o sexto, o sétimo e sucessivamente eles vêm e passam, deixando milhares de vestígios sobre e sob a pele. Mas a transitoriedade, a resposta suposta, também não é suficiente, como uma charada que muda de lugar.
Quem eu sou, ele se pergunta aos 20 anos de idade, já com cicatrizes. Bêbado acelera o carro enquanto volta para casa mais uma vez sozinho num impulso de quem está certo de que não faria falta para o mundo caso poste, ferragens e carne se tornassem uma coisa só. Ele então se julga inconseqüência. O que, minutos depois, se revela inconsistente visto que essa resposta, que está mais para profecia, não se cumpre. E poste, ferragens e carne não se tornam uma coisa só ou coisa alguma. Apenas às vezes não se lembra de como chegou em casa ou, então, cai ao tentar abrir o portão da garagem. Ele conclui que é fracasso portanto.
Aos 30. Quem eu sou, se mantém a indagar. E na sua insistência ele pressupõe que é continuação, pois não consegue desistir. Mas por outro lado, não consegue continuar. Então, conclui que é contradição. Mas não. Pois facilmente entra em acordo. Até com juras quebradas, até com ideais rasgados, bandeiras queimadas, espelhos partidos, paixões jogadas por cima da cerca, problemas resolvidos aos socos, filhos que não foram, casamentos que não vingaram, mulheres que o decepcionaram - profundamente -, pequenas monstruosidades que nasceram de seus dedos e até pequenas delicadezas que deles brotaram, tudo ali faz sentido numa grande orgia de acordos. Mas esse acordo - a peça redonda encaixada a custo no orifício quadrado -, esse acordo não é ele. Não é ele. Ele é mais e menos que isso. Ou, melhor, ele - esse homem em formação - é diferente de tudo isso. Só pode ser um engano. Só pode ser o que pela manhã anda em quatro patas, à tarde em duas e à noite em três, só pode ser o homem que devorou a esfinge e foi comido de dentro para fora por uma questão fatal. Está agora oco e, dentro dele, só há a interrogação, quem eu sou.
Aos 40, aos 50, aos 60, aos 70. Sempre ela, a pergunta e nem é preciso que nenhuma vez ela seja proferida em voz alta. Sequer sussurrada. Ela está lá sempre presente.
Ontem
Ontem alguém veio parar neste site porque digitou no Google a seguinte questão:
“Quem sou eu?”
E, como muitas pessoas, esse alguém, um anônimo, um alguém, não sabe que os serviços de busca só funcionam para quem já sabe ao menos uma parte da resposta. Ainda assim não são garantidos.
Os sistemas de busca têm menos chance de responder algo na mesma proporção em que a pergunta é crucial.
Aos 80
Aos 80 anos, esse homem, então em formação, digita em um sitema de busca - o Google, por exemplo - a pergunta “Quem sou eu?”.
Ele se surpreenderia com a resposta, mas antes que pudesse ler, um caminhão bateu em um poste próximo à sua casa e o fornecimento de energia foi interromp




17 comentários até agora ↓
1 Flávia // 29 1 2007 às 21:50
Que pena que a luz acabou…
Resposta: Como você deve ter visto no texto, foi culpa do Detran que fica dando carteira de motorista para qualquer um…
2 Luís // 3 3 2007 às 2:01
Um pouco do que fui ontem, vezes aquilo que queria ser, subtraído do que talvez eu realmente seja por aquilo que julgo que gostariam que eu fosse. Um pouco de você também, pelo menos hoje. E amanh
Resposta: Essa pergunta - e sua resposta - é mesmo difí…
3 Andressa Serena // 5 4 2007 às 4:01
Rá!
Adorei o texto
Resposta: Rá! Que bom! Obrigado pelo comentário!
4 Adilson // 9 4 2007 às 16:11
Estranho….
Coloquei no google :”quem sou”
E cheguei aqui neste blog que usa esta mesma atitute em seu texto…
Já não devia me surpreender com certas coisas…
Resposta: Ainda bem que gostou! :-) … aposto que ficou um tanto surpreso mesmo…
Abraços,
do Alessandro!
5 Ma // 18 5 2007 às 10:06
hahahahahahahahah
Perguntinha safada essa, né?
Artomenta que só as pobres almas humanas… ;)
Beijo da Ma
6 Ma // 18 5 2007 às 10:07
hahahahahahahahah
Perguntinha safada essa, né?
Atormenta que só as pobres almas humanas… ;)
Beijo da Ma
7 Ma // 18 5 2007 às 10:08
viji!!!! ?atormenta?
Quantas dúvidas … Vou colocar umas palavrinhas pra brigar e já volto. ;)
8 Alessandro Martins // 20 5 2007 às 13:51
E, acredite, tem muita gente perguntando isso para o Google, Ma. Esse texto é um dos mais acessados… Beijos! Saudades suas!
9 Alexandre Kovacs // 20 5 2007 às 22:34
Ótimo texto! Provavelmente a primeira pergunta que o homem faz a si próprio desde que caiu da árvore. Resta saber ainda: “de onde veio” e “para onde vai”. Saberemos um dia?
10 Alessandro Martins // 24 5 2007 às 8:52
E eu acho difícil que a gente consiga responder tão cedo, Alexandre… abraços!
11 roberto // 27 5 2007 às 9:28
o recordar é possibilitado bebendo-se um cha chamado HOASCA.
ele pode ser encontrado participando de uma sociedade chamada UDV
UDV - significa união do vegetal
é a união do mariri com a chacrona
realizado pelo Rei Salomão, autor de toda ciencia há 3000 anos
12 Alessandro Martins // 27 5 2007 às 9:40
Existem várias formas de auto-conhecimento, meu caro Roberto. Tenho certeza de que essa, quando levada a sério, é uma delas. Abraços!
13 isabella // 13 7 2007 às 1:56
Sou eu… sou o que vou aprendendo ser… sinto que sem dúvidas sou construída por todos que me rodeiam e por tudo o que a minha vida vai sendo ao longo dos dias…
14 DAniela // 24 9 2007 às 16:53
olha essas pessoas sempre querem saber quem onde o que os outros pensam dele só pra julgar ser feliz hoje é saber ser
15 Katiane // 3 4 2008 às 23:19
eu entrei no site ”cade” e digitei qm sou por issu parei nessa pag .. ñ pude deixar de postar ….
16 Alessandro Martins // 5 4 2008 às 18:00
Katiane… e, nesse caso, obrigado por postar!
17 adriano // 26 4 2008 às 15:08
legal se site valeu
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