Com a morte da modelo Ana Carolina Reston Macan por males decorrentes da anorexia - doença que induz à recusa de alimento - o tema virá a tona nas próximas semanas até que o assunto seja novamente esquecido.
Mas três coisas chamaram-me a atenção enquanto eu pesquisava sobre o assunto.
- De uns tempos para cá, os portadores da doença (90% meninas, 10% meninos) têm chamado os comportamentos de pró-ana - no caso da anorexia - e pró-mia - no caso da bulemia - para identificá-lo com estilos de vida.
- Naturalmente, essas pessoas - que, como a maior parte das que têm um problema sério, se recusam a admiti-lo - sofrem ataques daqueles que querem convencê-las de que estão agindo errado. Uma das defesas, que li em um blog pró-ana, feita a alguém que disse algo ofensivo a elas foi algo como: “Aposto que você é como todo mundo, que ri quando uma mulher gorda cai da cadeira ou não passa na roleta.”
- Eu li em um depoimento de uma portadora da doença, e que me pareceu estar muito certo, que a maior parte dessas pessoas sabe-se doente, embora não consiga admitir com convicção suficiente para buscar um tratamento. A questão está não no fato de que elas não queiram ajuda. Mas o mundo - e digo o mundo porque a coisa é ampla mesmo - não sabe a forma certa de se oferecer auxílio. Importante deixar claro, o auxílio existe. A forma de oferecer é que está errada.
Uma outra frase saltou durante a navegação de diversos sites favoráveis a anorexia. “Ame não o que você é. Mas aquilo que você será.”
Creio que todo o problema está aí. Nessa frase exatamente. Pois não existe escolha a não ser amar aquilo que você tem nesse instante. E, enquanto isso, para o mundo se mover é preciso que as pessoas acreditem que só serão felizes quando tiverem algo que está no futuro. Mas, quando o sujeito consegue finalmente aquela casa com piscina, percebe que não está tão feliz quanto imaginava que estaria. Quer algo mais.
A pessoa que sofre de anorexia não é diferente de nenhuma outra pessoa que, supostamente, repito, supostamente, não tem problemas. Ela apenas direcionou o seu amor e suas expectativas de felicidade para algo que nunca vai existir, ou seja, uma auto-imagem suficientemente magra.
Talvez eu queira um computador suficientemente veloz. Talvez você queira sexo em quantidade suficiente. Quem sabe, um outro queira ter mais dinheiro. Nada nunca vai ser suficiente. Então, todos querem ser felizes com algo que não existe.
O necessário para ser feliz, porém, está aqui. Bem no seu e no meu nariz. E isso é possível. Vivendo-se até debaixo da ponte. Até pesando-se 140 quilogramas ou mesmo 35 quilogramas.
Alguém precisa dizer isso para essas meninas e meninos. Que eles não precisam ganhar ou perder mais nada. Eles são amáveis do jeito que estão.
O problema não são eles. O mundo inteiro está doente. O mundo está doente quando alguém ri de um homem ou de uma mulher gorda. O mundo está doente quando nas passarelas só há mulheres que não são o padrão de beleza. Porque a beleza não tem padrão. Existem milhares de formas de beleza. E, acima de tudo, é preciso entender, aceitar e amar a sua própria forma de beleza.
Sim. Os cabeças do mundo da moda precisam mudar urgentemente o rumo das coisas para não serem lembrados no futuro, digamos daqui a cem anos, como patetas, tiranos e torturadores. Mas eu não preciso viver daqui a cem anos para saber disso.
Isto foi só uma interrupção para uma nota importante. Voltemos à programação normal.
Então, não creio que as anoréxicas precisem se esforçar muito para transformar sua doença em um estilo de vida com nomes glamurosos e disfarçados como “ana” ou “mia”.
Afinal, o mundo já vive esse estilo de vida nos mais diferentes segmentos. Elas só são o exemplo mais marcante do momento.
Sim. Os cabeças do mundo da moda precisam mudar urgentemente o rumo das coisas para não serem lembrados no futuro, digamos daqui a cem anos, como patetas, tiranos e torturadores. Mas eu não preciso viver daqui a cem anos para saber disso.



6 comentários até agora ↓
1 Fernanda // 16 11 2006 às 14:28
Em uma dissertação de mestrado sobre anorexia (orientada pelo meu orientador) eu li que um grande prazer da anorexica é a vitória sobre si mesma, de ter uma força de vontade maior do que os seus próprios instintos. Deve ser muito difícil convencer alguém a abandonar um sentimento de vitória.
E sociedade está doente, concordo com você. Enquanto estar gordo ou magro passar apenas por foro intimo ou o gordo for considerado alguém de vontade fraca, não iremos muito longe. É importante pensar que sociedade é essa que oferece tanta comida calórica e tantas comodidades e ao mesmo tempo manda as pessoas se absterem de comida em nome de um padrão estético. “Nunca se está rico ou gordo demais” - diz um ditado americano. Talvez por isso lá exista a numeração de roupa 000.
2 Dani // 18 12 2006 às 15:51
Na minha opinião a anorexia é muito mais complexa do que se supõe. A maioria dessas meninas e meninos sabem que estão doentes, sabem que correm riscos de vida e fingem que não querem ajuda, quando na verdade eles sabem que precisam de ajuda.Eles são agressivos com quem tenta ajudar, é uma forma de se defenderem, de se protegerem.
Nós queremos ajudar mas não sabemos como,estamos tentando ajudar da forma errada, não adianta dizer que eles vão morrer ou se prejudicar muito, isso os deixa com medo e raiva e para provar que são fortes, vão continuar fazendo…
3 Mariana // 28 3 2007 às 22:33
Concordo plenamente em tudo que foi dito. No momento estou com uma amiga, que apresenta todos os aspectos iniciais de uma pessoa anoréxica. A minha dificuldade é poder ver que ela está se sentindo assim, e não saber realmente o que eu podeira estar fazendo para ajudá-la, pois ela concidera isso, não como uma doença, mas sim como uma vitória para ela. Ela aparentemente se sente mal e culpada por se sentir assim, mas ela se enxerga uma pessoa obesa e aparentemente fora do padrão de beleza que a sociedade impõe. Ela entrou para a o mundo das modelos a pouquissimo tempo, então acredito que para ela ver todas aquelas garotas esqueléticas desfilando para lá e para cá, é algo ofensivo. Como se ela tivesse que ser melhor do que elas, para poder te rum espaço dentro da profissão que ela procura, e por incrível que pareça, a agência, de certa forma, influencia nisso, pois eles regularizaram todo o tipo de alimento que ela come, mudaram muitos hábitos alimentares dela. Eu vejo ela alguns dias almoçando uma maçã, e isso quando ela quer almoçar. Ela sente fome, mas a neura dela com realação a beleza se tornou uma questão de honra, e nós sabemos que quando uma pessoa tem um opinião formada, muito dificilmente ela reverte essa idéia. Eu não sei como mudar o pensamento dela, eu fazer com que ela aja de outra forma, pois ela não acredita que esteja começando a ter esta doença, pois diferente de alguns casos, é algo que ela não deseja ter. E não sei como ajudá-la, então gostaria que o site também pudesse fornecer uma forma de auxilio que nós (amigos) possamos dar a essas pessoas, já que eu não tenho certeza que ela realmente está com a doença, e talvez encaminhá-la à um médico agora, tão incerto, seja ofensivo para ela.
Resposta: Oi, Mariana! Obrigado pelo longo depoimento. Infelizmente, este site não tem por objetivo tratar desse assunto. Este foi apenas um artigo ocasional. Porém, o que eu posso aconselhar é que, se no momento ela não quer ajuda, dificilmente aceitará ajuda. O que os amigos podem fazer e não pressioná-la e, principalmente, estarem atentos para o menor sinal de pedido de ajuda, que às vezes é muito sutil. Esteja próxima e fiel e esta será a melhor coisa que você pode fazer por ela.
Abraços!
4 Sabrina menezes // 3 12 2007 às 15:35
Achei muito criativo as palavras dessas pessoas que falram sobre a anorexia, pois e alquém com esse distírbio ler esses depoimentos estará proximo de sua recuparação. Parabéns a vocês que abem aconselhar e fizeram esse site, pois nos mostra uma realidade em que ainda não é vista como deveria.
Sabrina Menezes.
Brasilia, 3 de Dezembro/2007
5 jaqueline // 4 5 2008 às 13:43
Eu acho que essas pessoas se sentem despresadas …
6 Danyella // 4 5 2008 às 13:48
Eu acho que a anorexia em todo o mundo aos poucos está sendo evitada, as pessoas estão se consientizando dos problemas que essa doença tras ao ser humano.
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