Como quando se vê duas pessoas

4 11 2006 por Alessandro Martins · 2 comentários

Como quando se vê duas pessoas que andam lado a lado, à distância, em nossa direção. Elas parecem mesmo estar lado a lado. Mas apenas caminham na mesma velocidade, uma a alguns passos a frente da outra. Em algum momento pode até parecer que conversam, que compartilham o mesmo trajeto diariamente - e talvez até compartilhem - mas nunca se viram antes. Nunca trocaram sequer um cumprimento.

Parece que elas andam lado a lado. Mas seus mundos caminham paralelos, como os trilhos da ferrovia. Nunca se encontraram e nunca se encontrarão. Distantes por segundos. Talvez se, por um capricho dos ponteiros, o despertador dele tivesse tocado instantes mais tarde, os dois se aproximassem mais. Talvez se ela esquecesse em uma única oportunidade de apertar um pouco mais o laço dos sapatos para que não se desamarrassem sozinhos como de costume, eles chegasse mais perto. Mas mesmo isso não seria garantia de que eles trocariam palavra. Às vezes, andar lado a lado não significa estar junto, afinal.

Mas daqui, de onde olho, eles parecem estar um do lado do outro. A ilusão de perspectiva só é desfeita quando ele decide atravessar a rua. Olha para ela como se fosse dizer algo. Mas não. É para o outro lado da avenida que ele olha, para onde quer chegar. E, sem consultá-la, pois não a conhece, dá o primeiro passo. E ela não observa seu trajeto agora desviado, pois não o conhece também e é o mais prudente, pois não olhamos em demasia para quem não conhecemos.

Aposto corrida com os erros de perspectiva, jogo dados com o aprendido nas aulas de geometria mais rudimenatares e nos enganos de paralaxe mais sutis. Minha aposta não vai tão longe a ponto de imaginar que fossem amantes que, agora, vão trabalhar depois da noite mal dormida e bem vivida. Mas que fossem amigos, que discutem o melhor modo de ganhar a vida. Ou irmãos, que dali a segundos vão compartilhar os dois pequenos chicletes que vêm na caixinha.

E, perdendo, imagino quantos são os que de dentro de seus próprios passos, como eu, já imaginaram andar lado a lado quando, na verdade, andavam atrás. Ou na frente. Olhavam para sua direita e viam apenas o fantasma daquelas que iam de braços com outra coisa. Nunca me preocupei em dividir calçadas, pois não costumo freqüentar as mesmas daqueles que um dia temeram dividir a sua comigo. Ando em outras regiões da cidade, com menos tropeços.

Mas esses dois que agora vejo, como quando se vê duas pessoas que andam lado a lado, à distância, em nossa direção. E quando você chega perto, percebe finalmente que um vem à frente. O outro atrás. E, quando chega ainda mais próximo e ultrapassa um e, segundos depois, o outro então não resta dúvida.

Os dois vivem no mesmo tempo e em tempos diferentes.

A manhã começa a dar os primeiros sinais de que será um dia quente. Um carro, de janelas abertas, deixa escapar uma música feliz. Alta o suficiente para que eu não escute passos que, no ritmo dos meus, seguem ali muito próximos.

Você vai gostar...

  • Viagens de Gulliver, os blogs e os trackbacks
  • Livros são assim. Alguns desaparecem para que outros reapareçam em seguida. Uns caem nas suas mãos para que outros sumam, como se tivessem criado asas. Tom Sawyer, do qual cheguei ao final, e
  • Desorganização no Museu Oscar Niemeyer
  • Quero parabenizar a direção da Museu Oscar Niemeyer pela desorganização no recebimento do público para a mostra Picasso: Paixão e Erotismo, que faz parte do Circuito Cultural Banco do Brasil. Primeiro

    Tags: Livros e afins

    2 comentários até agora ↓

    • 1 Lívia // 7 11 2006 às 9:27

      vou a pé ao trabalho todos os dias… 30 min. de caminhada… e morro de vontade de conversar com as pessoas que fazem o mesmo caminho que eu … só para ter uma companhia.. andar lado a lado com alguem é tão mais agradável… as vezes até pergunto as horas mesmo tendo relogio, só para ouvir a voz de alguem que me deixa curiosa…
      eu sei, eu sou estranha… mas adoro invadir mundos (caminhos) paralelos…
      até que tenho conseguido escrever ultimamente… obrigada pelo conselho Alessandro
      :-*

    • 2 Flávia // 24 1 2007 às 9:26

      Que lindo, Alê! Me emocionou! Adoro seus contos…

      Resposta: Esse é um daqueles que tive que perguntar para a Zu se estava claro… que fico na impressão de que não vou passar ao leitor o que gostaria… não que duvide do leitor, mas às vezes parece que as palavras - digo, as minhas - são insuficientes…

    Deixe um comentário