Casamento
de Adélia Prado.
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
“Há mulheres que dizem:”
Se eu fosse mulher, diria coisas a você, se você fosse homem. Por outro lado, também não diria algumas como às vezes você não diz e só de olhar transmite. E, então, se você - homem -, ao ver o meu olhar, dissesse o que sempre diz, que meus olhos são lindos, eu entenderia. Porque, homem que sou, tenho essa vontade em mim. A de não precisar inventar a cada passo uma forma diferente de dizer essa verdade, a de que seus olhos são lindos. Não pela cor, não pela forma, não pelo modo como os pinta, não pelo jeito com que me olham. Mas porque por trás de tudo isso há, além dos olhos que me vêem, olhos que deixam ser vistos e que deixam ver para além deles. Permita-me, então, dizer, mesmo como homem: seus olhos são lindos. E certas verdades são simples. Não é necessário que se invente formas mais complexas de dizê-las, sob pena de as perder. Por isso, você as diz com os olhos.
“Meu marido, se quiser pescar, pesque”
Quanto a isso, não há nada a dizer. Já pesquei na infância, mas sem bons resultados e, hoje, como não como carne continuo a não pescar. Não vejo muito sentido na pesca esportiva pois não há muita graça em rasgar a boca de um animal com um gancho e devolvê-lo para água como se nada tivesse acontecido. Mas conheço em você a liberdade e que nas frases “se quiser tal coisa, faça” não existe. Pois essa é uma frase de aprovação, mas sem conivência. Não imagino uma vida em que não sejamos os dois coniventes, cúmplices e parceiros. Se eu quiser pescar - antes de você pensar que eu fiquei maluco por, de repente, ter mudado de idéia e você talvez não vir comigo -, você vai dar o voto de confiança de que, afinal, eu devo saber o que estou fazendo. Mesmo que o mais óbvio seja que não sei.
“Mas que limpe os peixes.”
Por alguma razão, isso me faz lembrar de louça suja. Afinal, acredito que limpar peixes não seja tarefa das mais agradáveis. Talvez seja até pior do que lavar a louça. De fato, quem me conhece sabe que eu detesto fazer isso, embore mais ainda deteste louça suja. Assim, estabelecemos um dos contratos velados mais constantes entre nós. Eu lavo. Você enxuga e guarda. Não é confortável para mim reservar a você a tarefa que mais odeio. Assim, dei a essa tarefa, uma das que mais evito, uma nova dimensão. Lavo a louça porque amo você. Queria dizer aqui uma coisa mais bonita sobre isso. Mas deposito minha fé no leitor, que precisa acreditar no quanto lavar, enxugar e guardar a louça juntos é bonito. E os talheres. Meu deus, os talheres.
“Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.”
Nossos dias têm sido feitos menos de noites que se prolongam adentro que de manhãs de antecipado despertar. Quero sempre acordar antes para, como tenho feito mais das vezes, levar o seu café, passado com pequenos cuidados e verbos no infinitivo.
“É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,”
Adoro estar com você na cozinha. Adoro aprender a cozinhar com você. Eu que não sabia nem fazer feijão com arroz descobri que esse é nosso melhor prato, insuperável. Nosso jeito de arrumar antes o lugar, antes de iniciarmos e até o momento de parar tudo, quando tudo parece que vai dar errado. O botão do pânico. Até do botão do pânico eu gosto. Nossa cozinha é incendiária. Ainda que as chamas sempre estejam sob controle, as paredes têm o fogo desenhado sob os azulejos. E finalmente chegam os amigos e, com você, aprendi a delícia de recebê-los e lhes dar pratos especialmente montados. Como quem diz: toma, temos de sobra, toma então um pouco o que nós temos de sobra. Temos delícia de sobra.
“ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.”
Reconheço-me em você por meus próprios gestos. Você me capta de um jeito que, ainda que me visse filmado, eu não perceberia. Até aquele movimentozinho da boca que pontua os pensamentos que há entre as frases. Tudo o que você denuncia em mim faz-me mais bonito.
”O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.”
O silêncio de quando nos vimos pela primeira vez tem o peso do suspense e é o silêncio do talvez nunca nos encontrarmos. Se aquele ônibus tivesse atrasado ou adiantado. Se eu não tivesse voltado para casa para buscar moedas. Se você fosse de outra cidade. Se você tivesse se mudado. A expectativa das coisas que sabemos que acontecerão nas histórias, que ainda não aconteceram e estão na iminência de acontecer. Ainda que, como sabemos, pois estamos na história, tenham acontecido. Mas o rio profundo que há nesses versos me faz pensar não no rio profundo que há no silêncio, mas no que é formado pelo encontro de nossas águas. Mais que silenciosas, elas são caudalosas e vão para longe, para um lugar que, daqui, nem consigo ver e jamais se separam.
“Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.”
É boa a forma como preciso de você e não preciso e como você precisa de mim e não precisa. Pois não há nada de melhor que o momento da noite quando juntos vamos para a cama. Mas não sinto falta se você não está nela, pois sua ausência momentânea é a confirmação do retorno. E você não sente minha falta ao acordar sozinha. Sabe que estou aqui, escuta meus sons. Talvez esteja no teclado a escrever este texto ou a preparar seu café.
Mas é preciso repetir. Não há momento melhor no dia que aquele em que me deito com você. Na minha vida inteira, não quero outra coisa além de renovar esses votos quando sinto seus cabelos, macios, sobre meu peito e sua respiração, tranqüila, me dizer que você adormeceu mais uma vez em meus braços.




9 comentários até agora ↓
1 pri // 2 10 2006 às 12:31
Ah! os talheres…
E melhor ausência não há.
Belo casamento esse,assim até tenho vontade me casar =)
2 marie. // 2 10 2006 às 22:33
tão saboroso! :)
3 Chris // 3 10 2006 às 15:19
Q lindo(suspiros)…
Qro um assim pra mim, custa sonhar???
Belo texto, bela analise, belas palavras e belas sensações provocadas nesta leitora.
Abraços
4 Fernanda // 4 10 2006 às 15:40
Eu fico insone com a falta. Tudo vicia nesse mundo…
5 Islane // 6 10 2006 às 0:33
Sabe quando você vai lendo e seus lábios começam a se mover sozinhos, e, de repente, lá está ele - o sorrisinho de canto de boca?! =] Assim eu fiquei ao terminar a leitura do seu texto.
Coisa linda demais! Das mais bonitas que você já escreveu, Alê. E, sem dúvida, das mais bonitas que eu já li.
Beijos, Alê.
6 Rosana O. // 5 2 2007 às 23:03
coisa mais linda………..(suspiro)
casamento é feito de coisas assim….
coisas pequenas dodia a dia, mas não rotina….
lindo………..
7 Lady Cronopio // 18 9 2007 às 12:05
Que belezura!
Identifiquei-me…
Como é delicioso este poema de Adélia, e como você o tratou bem…
8 Maria Imaculada // 11 11 2007 às 22:27
É perfeito… é o amor em sua essência … e me diz que: O CUIDADO salvará a vida!!!
9 Juliana // 14 3 2008 às 13:08
Dá prá viajar….ohh….lindo….!!!
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