- Um café com leite, por favor. E um pão com manteiga.
O garçom deixa o cardápio sem ouvir e segue para atender outra mesa. Nem abro o menu. Afinal, já sei o que quero. É algo simples. Um café com leite e um pão com manteiga.
Depois de alguns minutos, dilatados pela fome matutina, volta o garçom. Aquele ar de leve ansiedade que um garçom tem quando segura o bloquinho para anotar o pedido.
- Um café com leite por favor. E um pão com manteiga.
Ele olha por cima do caderno de anotações. Aquele ar de leve espanto que um garçom tem quando alguém pede algo absurdo.
- Senhor, creio não termos esses produtos.
Por um instante penso ter me enganado. Posso ter entrado em uma barbearia por engano.
Mas olho ao meu redor. E há máquinas de café, xícaras, pessoas tomando líquidos que parecem ser café. Há cheiro de café. E a plaqueta da fachada que, do lugar que eu ocupo, fica meio de fianco para meu ponto de vista, tem a palavra: café. Em letras cor de café.
Sim. Portanto, estou certamente em um lugar que serve café.
Procuro manter a calma para o caso de ter acessado alguma dimensão bizarra sem ter percebido. E repito:
- Desculpe, o frio faz a minha dicção ficar péssima. Eu estava justamente pedindo um café com leite e um pão com manteiga.
- Sim, senhor. Mas não temos esses produtos.
- Mas o que vocês servem aqui?
- Café. O senhor olhou nosso cardápio?
Agora está claro. Eu acessei alguma dimensão bizarra. Fiz bem em manter a calma.
Passo a usar aquele tom de quem está mantendo a calma. É uma voz melodiosa e modulada:
- Certo. Vou dar uma olhada no cardápio, nesse caso.
O garçom observa-me mais um pouco enquanto eu tomo da mesa o cardápio e o abro. Aquele ar de leve presunção que um garçom tem quando consegue mostrar que o cliente está errado e ele certo.
Mas, diferentemente do que ele deve pensar nesse instante, eu não estou convencido.
Inicio minhas investigações naquelas misteriosas páginas.
Que mostram ser mais misteriosas do que eu imaginava.
Na seção de cafés, que tem mais ou menos umas cinco folhas, leio diversos nomes, todos em italiano com uma descrição rápida dos ingredientes das bebidas, do tempo de contato do pó com a água e a temperatura em que isso acontece, entre outros detalhes importantíssimos para quem quer beber um mero café com leite às nove horas da manhã de um dia qualquer. Por algum motivo lúdico, decido contar quantas são as opções diferentes por ali, mas resolvo parar na número 43.
Chamo o garçom.
Ele se desloca até mim enquanto tira o bloquinho e a caneta do bolso. Aquele ar de leve ansiedade, já não tão leve, que tem um garçom quando está prestes a , pela segunda vez, tentar anotar um pedido.
Eu mostro para ele as cinco folhas de opções e pergunto:
- Qual destes aqui é mais parecido com um café com leite?
Ele faz uma expressão estranha. Não sei se está com o leve ar de ofendido que um garçom tem quando um cliente joga salada em seu uniforme ou com o leve ar confuso de quando pedem um prato que naquele dia não está muito bom.
- Creio que este aqui, senhor.
Ele me aponta um daqueles nomes em italiano. Tem uns cinco ingredientes e umas cinco temperaturas de preparo diferentes, sem falar nas pressões de extração da água e que, a julgar pelo detalhismo e pela precisão científica de toda a descrição, deve ser o que eles tomam nos escritórios da Nasa.
O preço, pelo menos, é de foguete.
- Você não pode simplesmente pegar o café daquela máquina e despejar um pouco de leite daquele bule? Não precisa nem adoçar. Eu tomo amargo.
Perguntar não ofende, afinal.
- Senhor, nossa barista não permitiria.
Mais tarde, em casa, procuro em um dicionário e descubro que barista é o sujeito especializado em preparar café.
- Entendo.
O silêncio de quem não entende.
- Nesse caso, me traz uma caneca grande desse.
- Não servimos esse café em canecas, senhor. Usamos xícaras para esse aí.
- Me traz uma grande então.
Minutos depois, vem a xícara grande, do tipo usada como banheira pelo Pequeno Polegar.
O garçom a deixa à minha frente sem notar minha decepção. Ele, com o leve ar de satisfação de um trabalho bem feito que os garçons têm nessa hora.
- Ei - eu digo.
Ele se vira. E eu peço:
- E o pão com manteiga? Pode ser?




15 comentários até agora ↓
1 dea peil // 9 9 2006 às 2:09
sao 2hs da madrugada e acho que acordei as pessoas do quarto ao lado com as risadas…aahhahahahahahaha
nada como um boteco, ou uma padoca pela manha…no rio, na linguagem popular isso é: uma canoa quebrada e uma media,
ou seja, o seu pao frances em duas fatias longitudinais aquecido na chapa com manteiga e um copo de cafe com leite….rs
o suficiente numa manha qualquer…rs
2 Alicia // 9 9 2006 às 10:01
consigo ouvir até o tom da voz
3 Fernanda // 9 9 2006 às 22:10
Hahahaha! Nada é tão banal que não possa ser elitizado, meu caro!
4 Rene Kojitani // 10 9 2006 às 2:32
Só você para me alegrar estas horas da manhã… cheio de trabalho por fazer e ainda dou uma passadinha aqui.
Eu estava escrevendo a biblia sobre o misto quente e o queijo duplo no primeiro mundo - mas, já deu pra imaginar, né?
abração Ale
5 marie. // 11 9 2006 às 0:09
manda um pão com bife e uma gasosa pra mim! ;)
6 Ado // 11 9 2006 às 10:10
Isso aconteceu mesmo? Por acaso foi no Luca café?
7 Chris // 11 9 2006 às 11:21
Nada como a simplicidade pra variar, ainda mais em meio a tantas escolhas de hj.
É como no amor, as vezes agente num quer ouvir um “Você é a mulher da minha vida” ou um “Eu não sei viver sem você”, agente só quer e gosta de ouvir um “Eu gosto de vc”, ou no auge um “Eu te amo e vc eh mt especial”
…
ai ai amei esse texto, e o anterior, e o anterior do anterior…resumindo, amo o que vc escreve.
P.S:Tow divulgado as dicas sobre sexo rsrsrsrs, pra ver se eles num erram mais :)
Amei
8 guetoblaster // 11 9 2006 às 11:42
barista que não sabe fazer café com leite !! francamente volta pra escola !!!! e pede pingadop pro sujeito pegar o conta-gotas !
9 Gita Fankhauser // 12 9 2006 às 5:34
Caramba!!!!
Por um a caso chegueir nesta pagina, mas de agora por diante estara no meu favorito.
Nao sei se é apenas um cronica…. mas me identifiquei muito com esta historia. Moro na Suiça e tanto aqui quanto no Brasil me esbarro sempre na mesma exata situaçao… e se voce tiver um tempinho de pesquisar sobre o tal Capuccino vera que o que se bebe no Brasil nao é capuccino e sim um “frape” de chocolate e leite ninho…
Por estas e outras é que aprendi que o melhor café do mundo é aquele da casa da vovo coado no coadorzinho de pano….
Um grande abraço.
10 Henrique // 12 9 2006 às 12:36
Um brinde (de café com leite em copo americano) a vc Alessandro!
11 thi // 13 9 2006 às 23:04
será q servem Love’s milk ?
12 Li // 18 1 2007 às 13:14
Ah, Alê
Você é demais!
Li o texto em voz alta aqui no escritório.
Senti a frustração que vc deve ter sentido.
Como disseram aí… Nada como um café com leite num copo americano.
E claro, o pão com manteiga.
beijos!
Mais uma vez, parabéns!
Li
Resposta: O pessoal gostou? :-) São bebedores de café?
13 Lady Cronopio // 18 9 2007 às 12:15
AmeiAmeiAmei!
Dei tanta risada aqui no trabalho…
Adoçou minha manhã!
14 nilton de souza moraes // 8 8 2008 às 9:18
eu quero é botar meu bloco na rua,sergio sampaio
15 Alessandro Martins // 9 8 2008 às 11:57
Nilton,
desculpe, não sei onde fica a rua Sérgio Sampaio.
Abraços do Ale!
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