Ele virou-se de lado na cama e estendeu o braço num gesto suave mas já automático. O corpo conhecia as distâncias até ela e sabia dar o peso exato para a mão, na medida de se fazer toque percebido, na medida exata de não despertá-la.
Do outro lado, porém, encontrou o lençol apenas. Tateou mais acima e o travesseiro. Tateou mais abaixo e o cobertor.
Algo como a desorientação de acordar em casa estranha e procurar a janela, a luminosidade, os sons em direções em que já não estão.
O susto de não encontrar o corpo dela ali, a ressonar, sabendo de antemão que ali não estaria.
Uma lâmpada. Um botão com uma lâmpada dentro. Um alerta acendeu no painel. Corra. Corra diziam as letras nele impressas. Letras pretas em um botão que piscava, vermelho. Corra.
O corpo que ali não estava não estaria por apenas uma noite. E ele já percebia-se em sobressalto apenas por essas oito horas de solidão.
Corra, dizia o botão. Aperte, inicie o processo de auto-destruição irreversível. E corra.
E se, um dia, daqui a um ano. Dez, vinte, trinta, cem. Precisasse novamente dormir sozinho e estendesse para o lado o braço e esse dia, essa noite, fosse a sucessão de dias e noites de estender para o lado o braço e nada encontrar?
Pensou naquele instante, em que as cobertas estavam especialmente frias, especialmente sem a capacidade de aquecê-lo o suficiente, pensou naquele instante e projetou-o ao infinito e pensou que tratava-se do inferno.
Era isso o inferno.
Conhecer o paraíso, conhecer o paraíso cada vez mais a fundo e deixar-se por ele conhecer. O paraíso se enrodilhar em cada órgão, em cada célula de cada órgão, em cada proteína de cada célula, em cada molécula e átomo.
A delícia a invadir e tornar-se uma só com o organismo e com a alma, cada vez mais em um processo de simbiose sempre crescente. E, um dia, ser tomada, arrancada, partida, aniquilada de uma maneira tão brutal que é necessário conviver com isso para o resto da eternidade.
Conviver com a ausência de um pedaço que não era seu - por força ou sedução assim tornou-se - e que, de repente, cruelmente, simplesmente, extirpa-se a si mesmo. Como uma planta arrancada do vaso, que leva pedaços da terra onde cresceu.
Seria o amor um câncer que confundimos com um coração a mais que nos cresce no peito?
Corra. O dedo a um centímetro do botão que piscava.
Enquanto o estrago não poderá ser tão grande. Corra.
Rolou mais uma vez na cama. Desta vez ficou de barriga para baixo. A cara no próprio travesseiro.
E, se aquilo, aquela noite, a partir daquele instante mesmo, se projetasse para sempre? Não mais quatro ou cinco horas de escuridão, mas quinhentas.
Só isso já seria demais.
E se não fosse apenas uma noite de centenas de horas, mas milhares de noites assim ampliadas?
O que fazer?
Corra. O botão piscava e iluminava o quarto inteiro. Iluminava mesmo por trás dos olhos fechados, apertados por trás das pálpebras, por trás da testa franzida. Corra.
Corra enquanto as raízes não comungaram com o mais íntimos de seus grãos de terra.
Corra.
Virou-se mais uma vez. Olhou para o teto.
Mas não fazia sentido.
Não há garantia de que o sol de fato surgiria na manhã seguinte. Ele já ter feito isso bilhões de vezes na história do mundo com incrível regularidade não é suficiente. Mesmo com todos acreditando que a experiência vivida do sol se pondo e nascendo do outro lado, isso não é garantia. Mesmo o nascer do sol é uma questão de fé. Fé.
E, se naquele instante, o corpo dela ali não estava, o braço ser estendido para tocá-la era uma expressão dessa fé. A verdadeira fé não precisa ser afirmada. É espontânea. Não se exercita e só cresce por fruição natural. Ultrapassa a mera experiência religiosa. A fé, verdadeira, está mais ligada ao crescer do pão, por obra do fermento, que à sua transubstanciação, por obra do milagre. Fé é cotidiana e só existe quando não é percebida.
O sol, de fato, nasceria dali a instantes.
O corpo daquela mulher estaria ali dali a instantes.
Se o sol nascesse então pela última vez na história do Universo, só por mais esse dia viver valeria a pena. E se ele pudesse tocá-la mais uma noite apenas, só esse toque valeria o nascer do sol, os anteriores e os próximos, até que a engrenagem do mundo cedesse exausta.
Fé.
Corra, dizia o botão.
E, do lado desse botão, havia outro.
E, nesse, não estava escrito nada.
Foi o que apertou.
Fé é acreditar que o lugar onde nada há escrito está reservado para a melhor das palavras, ainda que ela seja impronunciável.
Virou-se mais uma vez na cama e, finalmente, adormeceu.



10 comentários até agora ↓
1 Kake's // 6 8 2006 às 13:36
Caramba, eu não consigo acompanhar o tanto de coisa que você escreve. Incrivelmente um homem capaz de escrever em tantos veículos, tantas coisas maravilhosas. Beijos
2 Jack Daniels // 6 8 2006 às 19:03
Fé, do latim (fide) confiança.
Nos seus textos levo Fé
E à eles dou Fé.
Abraço.
3 Marj // 7 8 2006 às 13:17
Maravilhoso.
Não posso nem descrever tudo o que eu senti ao ler…
Muito a ver com coisas que estou vivendo.
Desde a melancolia, até a alegria.
Beijos, muitos.
4 Fernanda // 7 8 2006 às 19:32
U-A-U!
É o medo de todos os que amam. E a necessidade de esquecer que a possibilidade de está sempre presente…
5 AaDdOo // 7 8 2006 às 21:04
Vc descolbriu uma maneria bem legal de explicar o Q é a fé. Parabéns Alê… Vc é foodããããã!!!!
6 Vinicius // 8 8 2006 às 10:05
Pô Alessandro! E a baleia? E o Renan? E a Elise?
7 Chris // 22 8 2006 às 10:32
Maravilhoso!
Simplesmente amei o texto, não somente este como os outros que vc escreve.
Parabéns!!!
Esse texto passa uma sensação tão boa, relamente faz agente sentir um pouco mais de fé no impossível, ou no inesperado
Bjos
8 fred // 27 8 2006 às 16:50
avassalador!
9 Marina // 25 5 2007 às 15:02
1° adorei como vc consegue demonstrar exatamente o que é FÉ. impressionante…
2° pq vc consegue sempre escrever algo pelo qual estou passando? acho que é mais impressionante ainda…
10 Alessandro Martins // 26 5 2007 às 10:45
Então aperte o botão certo, Marina! Beijos!
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