Poeira estelar

23 6 2006 por Alessandro Martins
· 7 comentários

“Um dia, daqui a cinco bilhões de anos, acontecerá o último dia perfeito no Planeta Terra.” Carl Sagan, em Cosmos.

Imagine que o sol tem uns 23 centímetros de diâmetro, o tamanho de uma bola de borracha. O planeta mais próximo, mercúrio, estaria a dez metros dele e teria 0,8 milímetros — o tamanho da cabeça de um alfinete. Vênus, com dois milímetros estaria a 18 metros, e a Terra, também com dois milímetros, a 25 metros.

Não lembro de nenhum professor que tivesse falado sobre o sistema solar nos meus anos de escola ter trazido uma bola de futebol para a sala de aula e pedido para alguém levar uma semente de uma planta qualquer para 25 metros dali para que pudéssemos entender o quão fascinantes e a um so tempo estarrecedoras podem ser essas distâncias.

A medida que nos afastamos do sol, as medidas ficam mais impressionantes. Plutão, o nono planeta, estaria a 234 metros — duas quadras e meia aproximadamente — da nossa bola de futebol e teria apenas 0,4 milímetros, sendo menor ainda que nossa lua. A estrela mais próxima de nós seria uma bola de basquete a 6700 quilômetros. Vamos pedir ao aluno mais saidinho que vá demonstrar essa distância do lado de fora da sala.

Apenas o engenho e a boa vontade de um professor podem divertir e educar os alunos dessa maneira. Não há como representar isso em escala em um livro e embora as figuras coloridas sejam interessantes, nada cativa mais o jovem estudante que imaginar esses corpos celestes a navegar, minúsculos, em uma imensidão escura e solitária. Agora neste instante em que você lê este texto esses pequenos planetas singram o nada em silêncio.

Sou fascinado pela astronomia e por outros assuntos científicos embora não seja um profundo conhecedor dos cálculos e detalhes extremamente técnicos que os envolvem. Eu era muito bom em matemática, mas não fui adiante nela, preferindo as letras aos números.

Mas isso não quer dizer que todas essas proporções monstruosas, que podemos vislumbrar simplesmente erguendo os olhos para o céu à noite, deixem de ser interessantes porque não entendemos com profundidade os detalhes mínimos que as envolvem.

Elas demonstram uma coisa sublime e a um só tempo assustadora. O Universo é formado mais de espaços vazios que de matéria.

A proporção é de 0,00000000000000000000000000000005 gramas de matéria por centrímetro cúbico. Ou 5.10-31 g/cm3. É o mesmo que dizer que em cada três metros cúbicos de espaço você encontra apenas um átomo de hidrogênio. E você deve saber como um átomo de hidrogênio — o mais simples e abundante no Universo — é pequeno e difícil de encontrar a olho nu. O resto, num lugar do tamanho da sala em que você lê este texto, seria absoluto vazio. É claro que esses átomos se reúnem em diferentes e magníficos aglomerados, bem mais densos e populosos que isso. O que torna os vazios ainda maiores.

Vamos inventar um jogo de batalha naval tridimensional em que os navios são toda a matéria do universo e a água é o vácuo. Ao dizer uma coordenada qualquer — 7b-teta, por exemplo —, acertar algum item da frota inimiga seria aproximadamente mais difícil que ganhar na mega-sena duas vezes seguidas.

Mas o Universo é mais cheio ( ! ) de vazio ainda. Mesmo se observarmos algo muito próximo de nós, um átomo, aquilo de que somos feitos, aquilo de que tudo é feito.

Se o núcleo de um átomo tivesse o tamanho de uma formiga, os elétrons estariam circulando num arredor que teria mais ou menos o tamanho do Maracanã. Então temos essa formiga, no meio do Maracanã com pequenas coisinhas 1630 vezes menores que ela circulando em seu entorno a uma distância enorme.

Se eu estivesse no meio do Maracanã — e eu peso 61 quilogramas — não daria muita atenção para coisas de 36 gramas circulando a mais de 100 metros de mim. Mas, bem, eu sou muito maior e bem mais pesado que uma formiga. Portanto, esses objetos de 36 gramas por ora chamados de eletróns estariam a uma distância um tanto maior.

Seriam mais ou menos como pãezinhos franceses andando a minha volta a cem quilômetros de distância. Eu acho que nem me daria conta de que isso estaria acontecendo. Se eu fosse professor, levaria uns pães para a sala de aula e pediria para que um dos alunos pegasse um ônibus até o Litoral, que fica mais ou menos a essa distância, para que eles começassem a vislumbrar a magnitude dessa coisa toda.

E, entre elétrons e o núcleo, o que há é um imenso vazio.

Mais números. Uma bola de gude tem por aí uns 25 setilhões de átomos. Se tomarmos um átomo e o deixarmos do tamanho de uma bola de gude, por sua vez, a bola de gude original terá sido aumentada para um diâmetro suficiente para cobrir a distância entre Rio de Janeiro e Salvador ou dois mil quilômetros.

Acho que antes de começar a se interessar por níveis atômicos, propriedades físicas e químicas do átomo, que nada dizem à vida e à curiosidade da criança e do adolescente, os professores poderiam começar por aí. Pelos fatos espantosos e pelos milagres que nos cercam no dia a dia.

Na série Cosmos, exibida na Globo durante a década de 80, o astrônomo e biólogo Carl Sagan faz isso a todo instante.

Por exemplo, todos imaginamos uma máquina do tempo que pudesse nos levar, pelo menos, ao passado. Ele brinca com isso com uma única frase ao lembrar que as estrelas que vemos hoje nada mais são do que a luz emitida há muito tempo por aqueles sóis gigantescos e que viajou até nós pelo vácuo a uma velocidade enorme. Se uma delas explodir hoje, só saberemos daqui a décadas, séculos talvez. Assim, se quisermos olhar como era o passado, basta olhar para as estrelas.

Lembro que um dos assuntos que mais me causou impressão na infância, em Cosmos — e trata-se de uma coisa que não lembro de ter sido ensinada nas aulas de ciência ou geografia —, é a vida e a morte das estrelas.

E, relativo a isso, nada me impressionou tanto quanto a frase que serve de epígrafe a esse texto.

Um dia, daqui a cinco bilhões de anos, acontecerá o último dia perfeito no Planeta Terra.

Toda criança sabe o que é um dia perfeito. E toda criança tem conhecimento do que é o Sol e, se ela tiver sorte, saberá que o Sol é uma estrela.

Uma frase como essas é capaz de provocar o assombro benéfico e necessário para instigar a imaginação e a curiosidade de qualquer aluno.

E como são interessantes as vidas e as mortes das estrelas, essas massas gigantescas, 400 bilhões delas só na Via Láctea, nosso lar.

O Sol, por exemplo, uma estrela comum, medíocre até, mas que ilumina a Terra já há uns cinco bilhões de anos: um dia o hidrogênio, que serve de combustível para as reações nucleares que ali acontecem ao transformar-se em hélio, vai acabar.

Nas estrelas há um sutil equilíbrio entre essas reações e a forte gravidade ali existente. Quanto mais massa, mais gravidade. Se as reações acabam, a tendência é que a massa se comprima até que se atinja o equilíbrio novamente. Em um primeiro momento, que pode durar milhões de anos, o Sol irá vibrar, tremer e inchar, ampliando seu diâmetro até que Mercúrio, Vênus e possivelmente a Terra sejam engolidos por seu volume. Então ele será um gigante vermelho. Depois de mais alguns milhões de anos, perdendo boa parte de sua matéria para o espaço, ele voltará a encolher.

Estrelas do tamanho do sol, costumam encolher até que as forças dos gases ali presentes façam frente à gravidade gerada por sua massa. E ficam do tamanho de um pequeno planeta, como a Terra, relativamente frias e escuras — não significa que não seja ainda muito quente para os padrões humanos — e absolutamente densas.

Em estrelas com o dobro da massa do sol, as forças dos gases não serão suficientes para barrar o encolhimento causado pela gravidade. Assim, um astro que certa vez teve duas vezes mais majestade que nosso astro rei, ficará ainda menor que ele em sua morte, com o tamanho de uma pequena cidade, uns dez quilômetros de diâmetro talvez. São estrelas de nêutrons. Essa matéria é tão densa que uma colherinha de mexer café dela teria o peso de uma montanha. Essas coisas estão flutuando por aí, girando extremamente rápido. Levam esse nome porque seus prótons e elétrons se combinam formando nêutrons.

Não me venham dizer que o Universo não é algo fascinante.

Como se pode ver, há uma relação de inversa proporção quando uma estrela morre. Quanto mais massa, menor ela fica.

Agora, uma estrela com o triplo da massa do sol tem um destino ainda mais surpreendente. A massa é muito grande. Portanto a força da gravidade também. Quando as reações nucleares que a mantém equilibrada terminam, ela passa a encolher. A força dos gases não é suficiente para deter o encolhimento. As forças internas dos núcleos dos átomos também não. Ela continua a encolher até que, finalmente, desaparece.

Como a cobra que devora a própria cauda.

Essa estrela se transforma em uma entidade com uma gravidade tão forte que nem mesmo a luz é capaz de escapar dela. Trata-se de um buraco negro. Se você estivesse na superfície (???!!!) de um objeto celeste desses com uma lanterna, apontasse o feixe para frente, veria desapontado a luz ir em direção ao chão. É claro que antes mesmo de apertar o interruptor você seria tragado em direção ao solo, esmagado por seu próprio peso que tenderia ao infinito, ao passo que sua espessura agora tenderia a zero.

Não há como negar que as estrelas tem grande influência sobre a vida das pessoas. E, não, não sou um adepto da astrologia. Mas acontece que nesse exato momento e provavelmente nos próximos bilhões de anos a Terra e cada parte de seu corpo — a mão por exemplo que repousa sobre o mouse — são bombardeadas por raios cósmicos, formados por partículas atômicas diminutas resultantes da explosão de alguma estrela muito, muito, muito distante. Essas partículas atravessam pedras como se elas fossem manteiga, mas não provocam grandes danos. Porém, proporcionam — a exemplo de outros fatores além delas — pequenas e casuais modificações nas informações genéticas que você leva em suas células. Essas modificações ou mutações são fundamentais para a evolução. É possível que, se alguma estrela, muito, muito, muito distante daqui não tivesse explodido a bilhões de anos, a evolução não tivesse acontecido e você não estivesse agora com sua mão repousando sobre o mouse.

De fato as estrelas parecem estar e estão muito distantes. Mas mesmo o objeto mais prosaico de sua casa é feito de átomos que originalmente foram formados na explosão de uma estrela, uma super nova. Mesmo você, mesmo eu.

Como diria Carl Sagan, somos todos feitos de poeira estelar.

Acho que é mais fácil ver as estrelas com outros olhos e com mais interesse ao saber disso.

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    Tags: Crônicas e contos

    7 comentários até agora ↓

    • 1 Jack Daniels // 25 6 2006 às 11:18

      Muito legal.
      Pode mandar um desses por semana.
      Abraço.

    • 2 AdO // 28 6 2006 às 22:04

      Cara, o q vc anda fazendo para pensar assim?
      Acho q vc não é um simples jornalista… sabe, tipo aqueles filmes onde tem um super agente secreto que finge ser um funcionário público.

    • 3 tam // 29 6 2006 às 15:29

      o Ale contratou ele mesmo pra escrever essas coisas. E paga salario fixo.

    • 4 mema // 29 6 2006 às 21:33

      se quisermos olhar como era o passado, basta olhar para as estrelas.

      gosto da idéia de pensar que sou feita de uma estrela!

    • 5 Caio Vinícius - Campo Grande - MS - 15 anos // 28 8 2006 às 19:48

      Muito bom.
      Universo Fascinante.
      Queria ser eu, um Dom Quixote andante do Universo.

    • 6 Waltdisnei - Itapuã // 28 8 2006 às 20:01

      “Como diria Carl Sagan, somos todos feitos de poeira estelar.”

      ???
      ele disse estelar mesmo?
      desculpe ver o erro.
      é só uma dúvida.

      Achei o texto interessante!
      acho o universo a 1° das minhas coisas mais interessantes, em segundo vem a Religião do Cristã.

      Está de Parabéns Ale!

    • 7 zaggah // 1 9 2006 às 9:59

      o universo e realmente fascinante,e impressionate pensar o tanto que nos somos insignificantes mediante sua grandeza!!!!

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