Eu sou a cabeça de Adriano Santiago

24 2 2006 por Alessandro Martins
· 3 comentários

* Estou em férias. A programação normal desta coluna volta no dia 13 de março. Você pode ver todas as outras crônicas clicando aqui.

Eu sou a cabeça de Adriano Santiago. Antes deixe eu recapitular o que elaboro nas últimas dez horas. Talvez seja mais tempo. Talvez menos. A gente perde a noção em uma enrascada dessas. Pode ser que sejam apenas dez minutos. Acontece que acabo de sofrer um acidente aéreo. Foi há dez horas. Ou há dez minutos. Eu não posso olhar meu relógio para me certificar.

Porque não uso relógio e porque, aparentemente, devo ter quebrado a coluna ou coisa assim. Não sinto nada para baixo do pescoço e levar o pulso em direção aos olhos agora é uma tarefa impossível. Andar até o corpo de um passageiro mais ligado à pontualidade, nem pensar. Estou aqui com a poltrona em cima de mim, ainda preso ao cinto de segurança. Meu corpo parece estar em uma posição bastante incômoda. Aquilo ali despontando na calça, na altura da canela, talvez seja um osso quebrado, uma fratura exposta. A calça goteja sangue sobre uma pequena, já não tão pequena poça. Mas tudo bem. Não sinto nada. Tudo o que me restou no que parecem ser as últimas horas de minha vida é minha cabeça. Então é isso. Sou a cabeça de Adriano Santiago.

Acho interessante. Não consigo nem me desesperar. Estou num estado de resignação forçada. Sabe lá. Se eu pudesse espernear, não sei se espernearia. Nem isso desejo. Devo ter quebrado algo mais além do pescoço e da perna. Talvez seja uma defesa emocional. Algo a ver com o choque. Isso. Devo estar em estado de choque.

Pelo que entendo, estamos no meio de uma floresta. Alguns galhos e folhas entram pelas escotilhas quebradas e pelas rachaduras na fuselagem. Daqui de onde estou vejo uma mão desfalecida no corredor. Não consigo enxergar o resto do corpo, mas a delicadeza do braço e a posição da poltrona me faz adivinhar que é uma garota que vi antes de embarcar ainda. Bonita. Digo, era bonita. Agora sei lá o que ela é. Nunca fui dado a essas sutilezas filosóficas. Tentei há pouco descobrir se alguém mais havia sobrevivido. Gritei, mas sem resposta.

Eu, a cabeça de Adriano Santiago, sou o único sobrevivente.

Dizem que a maior parte das pessoas vive a maior parte do tempo em seus pensamentos. Baseiam suas vidas em coisas que imaginam. Boa parte dessas coisas inventadas - que elas mesmo criam - joga no time do contra. O empregado cria histórias em que ele é demitido depois de tramóias dos colegas. O namorado, enredos terríveis em que é traído durante as ausências da namorada. A mãe, acidentes com seus filhos. Todos acreditam ao ponto de ficarem neuróticos, ciumentos e doentes. Eu sei. Também sou assim. Todo mundo é meio assim, não sei se é exagerado dizer, meio escritor. Os prudentes preferem ficar quietos e não passar para o papel os seus dramas. Outros tomam um pouquinho da realidade e dela fazem um suco maior que a própria fruta a que chamam de ficção. Independentemente da escolha, quase sempre afoga-se nele, no suco.

Também ouvi falar que quem tenha vivido pelo menos um dia tem lembranças para o resto da vida.

Seja lá o quanto disso está correto, agora nesses momentos finais é tudo o que eu tenho. A vida que eu posso viver apenas dentro do crânio e as memórias. Vou aqui, de ponta-cabeça, com a maça do rosto encostada no chão, fazer o meu suco. Que ele não seja muito azedo, pois será meu último. Mas como é difícil isso.

Como vim parar aqui? Boa pergunta. Um escritor jamais escreveria - ou, no meu caso, pensaria - essas frases. Muito lugar-comum. Então. Como vim parar aqui? Boa pergunta.

Responsabilidade dessa imaginação fértil que inventa as histórias. Eu, em minha pós-graduação nos Estados Unidos, cumpri sempre meu ritual de telefonemas semanal. Primeiro para meus pais. Sim, mãe estou me alimentando. Estou me agasalhando adequadamente. Não, mãe, aqui é verão. Depois para Júlia. Aí é que pegou. Nos segundos finais da ligação. Eu te amo, tá, Júlia? Uma hesitação na resposta. Centésimos de segundo. Talvez um ligeiro tremor. Imperceptível. Teria sido mesmo um tremor? Telefone no gancho e essas dúvidas já exuberantes. Novo telefonema. Está tudo bem mesmo?

Uma semana depois, aqui estou eu. Subtraia-se tronco e membros e o que sobrar sou eu. Mas nem isso faz diferença agora. O que não impede de eu imaginar minha chegada, de surpresa, para encontrar Júlia deixada em casa por um outro qualquer.

Não vou me exaltar. Serei frio.

- Escuta, Júlia. É melhor assim.

- Como assim?

- É melhor.

- Como assim?!

- Eu faria você feliz. Você não suportaria. Está melhor com esse aí.

Não. Eu não quero ser forte. Quero ser normal. Basta não perder a cabeça, afinal é a única coisa que me resta. Se eu mantiver o humor, nem tudo estará perdido.

Será que meu pau ainda funciona?

Nem adianta fazer planos agora. Maldita. Estou aqui por causa daquele jeito de falar dela e talvez ela só precisasse de um fonoaudiólogo. Talvez só estivesse com frio e o queixo tenha tremido. É inverno no Brasil, afinal. Bem, isso se estivermos no Brasil já. É o que essa vegetação me diz pelo menos. E está mesmo um pouco frio. É inverno no Brasil. Sinto nos olhos. Frio nos olhos. Nunca havia sentido isso antes.

Acho que eu deveria ligar para alguém para avisar que estou chegando. Ah, sim. Não posso. Por um instante, imaginei-me com o celular na mão a digitar o número de casa. Ninguém me espera. Terei que pegar um táxi.

Acho que estou ficando confuso. E esse cheiro de sangue coagulado me enjoa. Talvez eu devesse dormir um pouco agora. Cai a noite.

O que Júlia estará fazendo a essa hora? Claro, está dando pra outro. Maldita.

No fim, a cabeça da gente só serve pra essas auto-sabotagens mesmo.

Melhor dormir um pouco. Dormir. Talvez sonhar.

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    Tags: Crônicas e contos

    3 comentários até agora ↓

    • 1 Lívia Martins // 24 2 2006 às 14:59

      E todas as noitas a minha cabeça me sabota dessa forma, Alê… E o mais impressionante, é pensar que nessas horas, eu me sinto como a cabeça de Adriano Santiago. É como se eu apenas pudesse pensar, mas nada fazer. E mesmo que eu conseguisse, talvez não fizesse… “Se eu pudesse espernear, não sei se espernearia.” E no final, é melhor dormir…

    • 2 Islane // 24 2 2006 às 17:52

      É, confusões mentais são estranhas demais pro meu gosto… humpf.

      (e acho que você tá viciado em Lost… hehehehehe)

      Beijo.

    • 3 gabi. // 28 2 2006 às 0:22

      pultz, que criatividade!

      nunca nem imaginei um texto escrito assim…
      nunca tinha parado pra pensar nessa de que vivemos a maior parte da vida em nossos pensamentos… e que freqüentemente nos autsabotamos… mais do que qualquer inimigo.

      credo… seria melhor pro adriano ter sobrado apenas os troncos e membros…

      daí ele poderia encontra a júlia e descobrir que ela jamais avia o traido.

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